“Uma cidade, toda uma vida!”, por Eurico Henriques

Apresentar uma opinião sobre a cidade de Almeirim é encorajador. Sendo o berço do meu pai e de duas das minhas filhas, acrescentando a eles toda a família, parece-me uma responsabilidade responsável.

Podemos começar pelo tempo em que a conheci. Casario baixo, branco e castanho. Mas sem as torres de que nos fala Camões na sua obra poética: “altas torres de Almeirim”. Ainda estou para perceber em concreto a que torres se referia. Ficará a revelação para um momento em que nos lembrarmos da construção de um texto romântico, feito com princesas e príncipes mais ou menos encantados – a lenda da moura de S. Roque – que isto de construir lendas e torná-las realidade é assunto sério e próprio do povo em contante busca da realidade.

A vila cresceu. Beneficiando de um novo tempo, em que as certezas pareciam mais à mão, os almeirinenses foram em busca de um novo sonho e fizeram novas coisas.
O desporto melhora a vida? Mente sã em corpo são. Surgiram os equipamentos necessários para a prática de modalidades diversas, embelezando o espaço público e tornando-o mais conforme o interesse dos cidadãos. As Escolas sofreram uma transformação profunda.

Quem não se lembra da Escola Básica Febo Moniz, o ciclo? Trabalhei ali quase vinte anos em pavilhões pré-fabricados, com um frio horrível no Inverno. E chuva. Muita chuva para se chegar à sala de aula.

O texto abre a mente e eu lembro um facto. Num dia de Inverno feio, de chuva a abrir o dia, entrei na sala e a seguir os alunos. Quando colocava a mala sobre a mesa, ouvi falas e um ruído de movimentos. O que se passa? Estamos em aula! A voz e a resposta do professor. Ao mesmo tempo olhei para confirmar o que se estava a desenrolar. Ao fundo da sala os alunos estavam em alvoroço uns junto dos outros.

– O que se passa aí?

– S’tor estamos a mudar de casacos e camisolas!

– ??!!

– É que os nossos colegas das Fazendas, como vêm de mais longe apanharam muita chuva e estão com os casacos molhados. Então nós, os de Almeirim, como moramos perto, estamos secos. Agora resolvemos dar-lhes os nossos casacos e camisolas para eles não terem frio.

– Muito bem. Façam o favor de fazer a troca. E esperei.

Esse tempo e essas condições já não existem. Os novos equipamentos escolares permitem uma nova forma de aprender. A cidade transformou-se ao ritmo das novas vontades e das novas formas de entender a vida e as obrigações de cada um.

Há novas artérias, novas urbanizações. A gente procura novas respostas à vida na cidade.

Surge a pertinência do entretenimento. Apostamos na dinamização e abertura culturais.

A cidade de hoje oferece ao cidadão comum uma perspetiva de vida mais acolhedora e dinâmica.

Pela parte que me compete espero contribuir para uma cidade mais forte e mais viva.

 

Eurico Henriques

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