As regras normais de interpretação dos Factos

Uma vez que continuam a surgir interpretações de factos e ocorrências locais, que não correspondem à verdade, creio ser tempo de apresentar as devidas correções.

Um dos processos mais importantes na área do conhecimento, prende-se com a técnica de análise das informações que nos são transmitidas pelos textos e objetos que foram produzidos num determinado período de tempo. Quando se fala em Heurística estamos a referir o processo que nos conduz à descoberta da verdade. Neste processo há que se ter em conta um conjunto métodos de interpretação e análise, tais como saber se o documento é verdadeiro ou apócrifo, se reúne os aspetos e pormenores físicos que caracterizam o tempo em que foi produzido. A seguir temos a hermenêutica, que trata da interpretação do interior de um documento, da interpretação das palavras, das mensagens que o texto transporta. Obviamente que estamos a falar da teoria do conhecimento.
Acontece que há interpretações que se estão a publicar e que não correspondem a nenhuma das técnicas e processos de análise que se conhecem. A Teoria da História, em conjunto com a Teoria da Comunicação, apontam para metodologias de análise e interpretação fundamentais em História. Escolhi para comentar uma gravura que tem sido apontada como referente a Paço dos Negros e, inexplicavelmente, apontada como acontecimento real. Vamos ao caso. Os Livros de Horas possuem um conjunto de textos de caráter religioso que inspiram à meditação e à oração. Desenvolvidos no período medieval, eram utilizados por religiosos e senhores. Estes livros eram encomendados a determinados copistas, normalmente nos conventos e mosteiros, mas também havia os que eram produzidos por técnicos copistas e iluministas. O que nos importa aqui é o Livro de Horas de D. Manuel, uma obra-prima da iluminura. Terá sido produzido por volta de 1517 por António de Holanda, pai de Francisco de Holanda. Trabalhou muitos anos em Portugal, sendo um iluminista famoso.
Realizou iluminuras nos livros de Convento de Tomar. Pintou o retrato do Imperador Carlos V. Aqui, quando se fala de iluminista, estamos a falar daquele que faz desenhos e pinturas nos livros, iluminando-os. Então o Livro de Horas? Há uma página com motivos campestres – a vida e o trabalho no campo – e uma cena passada numa casa burguesa de uma vila ou cidade. Será Lisboa? Não se sabe. A pintura é feita ao gosto do iluminador.
Na cena caseira, há a representação de uma sala com lareira – estamos na primavera? – uma mesa, o dono da casa de um lado, a aquecer-se, do outro lado a mulher e dois filhos. Por detrás do senhor da casa está um escravo negro, criado doméstico. Para além da decoração da sala há os animais habituais: o cão deitado, uma gralha à porta e um gato à lareira. A porta aberta deixa ver uma cena do quotidiano: uma vendedeira pousou a cesta e vende a um comprador.
Esta cena nunca poderá ter qualquer ligação com a família real. O Rei e a Rainha e respetivos filhos vivem num palácio. Os filhos, normalmente, não comem à mesa com o Rei. As pessoas que estão junto do Rei são da sua inteira confiança, normalmente nomeados pelas razões de parentesco.
O escravo é um escravo. A situação mais indigna da condição humana. Ele não tem estatuto para estar junto do Rei, ainda mais quando este come [havia provadores para a comida que vinha à mesa real]. Acrescenta-se também que há vários estudos sobre este Livro (Ctt – Os Africanos em Portugal – 2009). Qualquer semelhança ou ligação a Paço dos Negros só por invenção.

 

EURICO HENRIQUES

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