Pampilho ao alto

Como tantas vezes, voltei a sonhar. Desfilaram pela minha mente opaca as memórias de um passado ainda recente; a principio, desalinhadas e desordenadas
no tempo, mas depois mais nítidas e presentes como se fora hoje. Lá estavam as caravanas de carroças com mantas a enfeitar as tábuas que serviam de assento quando as famílias que se deslocavam das Fazendas a Almeirim às festas do Senhor dos Paços. Atrás, devidamente acomodados em cestos de verga iam os farnéis e o inseparável garrafão de 5 litros de bom branco.

Havia igualmente os menos afortunados que faziam o percurso a pé; uns calçados de bota a estrear, e outros de bota já algo gasta de tanto uso. Certo é que todos levavam a sua reserva de dinheiro amealhado com o sacrifício de meses de poupança para naquela tarde deixar integralmente nos carroceis e nas barracas de tiro, onde raparigas de carnes mais desnudas e avantajadas, davam um beijo por cada tiro certeiro. Estes encostos e beijos “à cinema” nas barraqueiras (assim eram chamadas aquelas moças) eram o delírio da rapaziada adolescente e homens maduros saudosos do veludo de peles jovens.

O ponto solene da festa, era a procissão do Sr. dos Paços acompanhada pela Banda Marcial de Almeirim. Era bonito de se ver alguns devotos “já cambaleantes
pelo excesso de visitas ao dito palhinhas de 5 litros”, num misto de fé e paganismo, fazerem ao Senhor dos Paços as suas promessas de dinheiro e outros bens; mas, só cumpridas se fosse feito o milagre que pediam ao Santo da sua devoção. Enfim, era uma espécie de contrato: só haveria pagamento se o milagre fosse feito. Havia na procissão os vestidos de anjo, condição pela qual passou quase toda a população do Concelho de Almeirim, mas aos olhos de alguns, embora despidos das vestes, continuamos a ser anjinhos.

Ernestino Tomé Alves
Advogado

.