Garcia Apolónia serviu Soares, Cavaco, Spínola … e muitas gerações

Começou com Café-Restaurante Império e é hoje em dia o café mais antigo de Almeirim. Garcia Apolónia, já serviu Maria Lurdes Pintassilgo, Mário Soares, Fulgêncio Batista (ex. Presidente Cuba) e Cavaco Silva, mas também exibe a garrafa oferecida por um anónimo.

Porquê este ramo?
Aos 13 anos fui para Salvaterra de Magos para trabalhar num café, depois para Rio Maior e Caldas da Rainha. Das Caldas fui para a tropa e quando regressei era para ficar em Vila Franca de Xira, mas acabei por voltar a Almeirim, terra que me tinha recebido aos 11 anos, depois de deixar Nossa Senhora das Neves, em Beja.
Estabeleci-me aqui com uma sociedade, mas depois o meu sócio foi para Moçambique e eu fiquei … cá tenho andado, cá tenho criado a minha família e aqui tenho trabalhado todos os dias.

A tabacaria vem depois…
Sim, nós já tínhamos a casa alugada ao Eng. Rui Gonçalves e quando a comprámos é que surge a tabacaria, mas antes ali funcionava um notário.

A saída do notário criou-lhe alguns problemas?
O notário era pago pela Câmara e isso foi até um problema muito mau que eu tive nessa altura, pois fui usado pelo senhor Presidente da Câmara Municipal de Almeirim da altura (Alfredo Bento Calado) que me utilizou. Nós tivemos uma chatice muito grande na câmara e até por isso eu desde 1977 que não entro na Câmara. Atualmente tenho um assunto para tratar com o Senhor Presidente da Câmara e não sei como o resolver. Até 1982 tive um Restaurante, mas depois desisti por causa do pessoal, da cozinha ser pequena, das escadarias e até dos jogos. Era dos Restaurantes mais conhecidos no Ribatejo, o Café-Restaurante Império. Tínhamos o bife à Império excecional, as lulas grelhadas, os frangos caseiros, as febras e os rins de vaca. Cheguei a ter clientes só por causa dos rins de vaca. Tinha um cliente (que já morreu há muitos anos) que vinha aqui, o Sr. Dr. Ernestino que à meia noite de sexta-feira vinha cá para lhe dar dois rins grelhados na cave, porque não podia comer carne durante a semana.

Reconhece que esta casa tem muita história, sendo mesmo um caso de sucesso?
Eu quando cheguei a Almeirim existiam apenas três cafés. Era este, o Zé Clara e o Sr. Alfredo que tinha o Café Luso. Daí para a frente foram surgindo muitos (recordo até que um “chaufer” de praça chegou a contar 151 cafés só aqui em Almeirim).

E dá para todos?
Não, não dá nada de especial. Dá para ir vivendo e mal. Há muitas casas e as pessoas que gastavam o dinheiro não estão cá foram todas embora, infelizmente.

Há também a ideia que este era um espaço elitista?
Teve mais a fama que o proveito. Eu posso citar que, há mais de 50 anos atrás, um senhor vinha do campo, com serrote, tesoura, farnel e mesmo descalço, ele entrava aqui e bebia o seu copinho ao balcão. Eu nunca o coloquei na rua… nem a ele nem a ninguém… Houve foi muita gente que não se sentia bem a entrar aqui. Não sei porquê, talvez por não terem categoria para entrar.

Tem conseguido também juntar aqui várias gerações?
É verdade e isso não é de agora. Infelizmente,nos últimos anos, desapareceram-me quase 30 clientes que morreram. Eles enchiam aquela ala toda do lado esquerdo – diz emocionado-. Eu tinha clientes que vinham cá desde 1959. O Sr. Ulisses era um deles … agora o mais antigo é o Sr. Rui Malha. O Sr. Armando Gonçalves não tem vindo. Eu tenho aqui agora muita gente jovem … já vou na sexta geração e tenho-me dado bem com toda a gente.

Qual tem sido o segredo para que o café mais antigo de Almeirim ainda se mantenha de pé?
Eu casei-me em 1960 e empreendi aqui com a minha mulher , muito trabalho e muitas horas que as pessoas, por vezes, nem lhe passa pela cabeça. Foi tudo com muito trabalho e dedicação.

O Sr. Garcia continua a trabalhar todos os dias e faz mesmo o fecho?
Sim, todos os dias eu é que fico até fechar. Só por uma vez é que estive pouco mais de 30 dias sem cá estar e foi quando fui operado ao coração.

Gostava que o seu filho seguisse o seu negócio?
Ele já está a seguir e eu gostava que continuasse. Ele já é empreendedor nisto e tem que seguir para a frente. Eu qualquer dia tenho que desistir e tenho que ir ali para o outro lado talvez (entenda-se a Tabacaria).

Todo o café Império respira História. As garrafas expostas têm que idade?
Há ali garrafas com 55 e 56 anos. As que estão na vitrinas. Jornalista interrompe para dizer: Uma vez as autoridades, não me recordo se ASAE naquela altura, mandou limpar ou retirá-las?! Nós fazíamos limpeza ou pintávamos, mas voltávamos a colocar as garrafas no mesmo sitio, e o pó que têm agarrado não sai. Antigamente não existiam exaustores, não existiam ares condicionados e toda a gente deitava tudo para o chão. As ruas também não eram tão limpas como agora e existia muito pó no ar. Agora já não… Se elas estivessem lá, já não criava aquele pó. Na altura não foi bem uma imposição, disseram que devia retirar.

Há pouco falávamos nos clientes. Alguns já nem precisam de lhe dizer o que querem?
Isso foi sempre. Até já com os novos, mas sempre foi assim. Eu estou no balcão e vejo uma pessoa a parar o carro, eu já sei o que ela quer. Há muitas vezes que vejo sair determinada pessoa e sei que ele fuma x, quando ele pede ao balcão eu já o tenho pronto para entregar. Conheço os clientes todos e a maneira como deles serem, tive foi azar de muitos morrerem nunca espaço curto de tempo. Uma vez, na altura Guerra do Ultramar, chegou aqui uma pessoa que não tinha como ir para o comboio. Levei-o a Santarém, mas não chegamos a tempo. Tive o que o levar ao Entroncamento. Nunca tinha servido aquele senhor, mas ele não tinha como apanhar o comboio. Se não se apresentasse no dia a seguir estava metido em grandes problemas. Passados uns anos e quando eu já não esperava, ele veio entregar-me uma garrafa que o tinha acompanhado pelos quarteis por onde tinha passado e até pela guerra. Ainda a guardo. (foto em baixo)

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