“Não há estratégia, não há objetivos, não há projetos”

Sónia Sanfona, ex-governadora civil de Santarém e ex-deputada desistiu da candidatura à liderança das Mulheres Socialistas, que disputava com a antiga secretária de Estado da Igualdade Elza Pais. Fomos saber as razões e o quer Sónia para Alpiarça.

Sónia Sanfona, afinal não vai candidatar-se à presidência do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas. Porque decidiu não candidatar-se?
Decidi não me candidatar porque considerei, dados os factos com que me confrontei durante o processo de preparação da minha candidatura, que não existiam condições para a realização de uma eleição democrática e transparente que permitisse às minhas camaradas exercerem de forma livre o seu direito de voto. Assim, entendi que não poderia, enquanto democrata e socialista, compactuar com esta situação e decidi, em conformidade, não me candidatar, não podendo, contudo, deixar de denunciar esta situação que não só me surpreendeu (já sou militante há alguns anos do PS e nunca havia sido confrontada com tais atitudes), como me entristeceu profundamente. Houve camaradas, minhas apoiantes, pressionadas e condicionadas com argumentos vários, que foram desde o seu futuro político ao seu futuro profissional, para não me apoiarem. Há inúmeros exemplos pelo país fora e inclusivé no meu distrito. É inaceitável e só podia conduzir a este recúo. Prezo muito a minha liberdade e a das minhas camaradas. Nunca estive na política sem ser de forma inteiramente livre. Só sei estar assim e julgo que tem sido este exercício de liberdade dentro do PS que o tem engrandecido como partido e como espaço ideológico de esquerda.

Já fazem parte do passado os problemas do afastamento das listas para o parlamento?
Todos os problemas fazem parte do passado a partir do momento em que deixam de existir, seja porque foram resolvidos, seja porque deixaram de fazer sentido. O episódio que refere foi mais um sintoma de que o exercício da liberdade neste PS não tem exatamente a mesma amplitude que sempre teve. O PS é hoje muito mais um partido de estruturas do que de militantes. Isso tem consequências a vários níveis, desde logo, afasta a influência das bases nas decisões, mas permite um exercício do poder bem mais robusto, claro!

Chegou a falar com António Costa sobre o tema?
Não.

Ficou muito magoada?
Não, não fiquei magoada porque sei exactamente o que se passou e as razões porque tal aconteceu. Sei, sem falsas modéstias e analisando todos os factos, que nenhuma das razões se prende com as minhas capacidades e competências para o exercício do cargo. Mas na política, como na vida, às vezes há valores mais altos que se levantam… Uma lição…

Concorda com a maneira como são formadas as listas pelos distritos? Se não, qual era o modelo ideal ?
Considero que nesta matéria há um caminho para fazer. A necessária aproximação entre os cidadãos e os seus representantes políticos é uma necessidade, se queremos credibilizar a atividade política. Isso só se consegue se adequarmos, por um lado, a escolha dos nossos deputados à atualidade (possibilitando uma escolha mais direta por parte dos eleitores) e, por outro lado, alterando a forma de exercício do mandato do deputado, dando-lhe maior liberdade e capacidade para defender exatamente as causas e assuntos importantes para a comunidade que o elege. Teremos seguramente maior representatividade, no sentido do reconhecimento por parte dos eleitores, relativamente ao trabalho do seu deputado, mas também maior responsabilidade do deputado no exercício do seu mandato e na necessária e desejável prestação de contas a quem o elegeu.

Já que falamos em mudanças. O que achou do fim dos Governos Civis?
Achei uma decisão errada, com custos relevantes para as organizações e para as pessoas. Os GC eram uma entidade de charneira, provavelmente a única nas áreas em que operavam, entre o Estado (Governo) e as populações. Todas as outras organizações funcionam muito mais ao nível do contacto entre o Estado e as organizações descentralizadas, como as Câmaras Municipais, as Associações e outras. Os GC eram a representação do Estado nos territórios e, simultaneamente, a representação das pessoas junto do poder central, para além das tarefas relativas à proteção civil, segurança rodoviária e segurança strictu sensu que lhe estavam cometidas. Esta ponte deixou de existir. Hoje há não só um maior afastamento e desconhecimento por parte do Estado Central relativamente aos problemas concretos das populações, como uma maior dificuldade na gestão integrada de vários outros organismos descentralizados que reuniam, dialogavam e planeavam sob a égide do GC. Não tenho dúvidas que se encontrarão outras soluções administrativas para a gestão dos territórios que colmatarão, em boa medida, estes constrangimentos, sobretudo se avançarmos para a regionalização, mas que não dispensará nunca, em meu entendimento, a presença do Estado Central (seja com delegados do Governo ou com outra figura representativa). Até lá, ficámos a perder, não tenho dúvidas.

E sobre política local. Como está o seu concelho?
O cenário político no meu concelho não é, de todo, próximo do desejável. Ao longo dos últimos anos temos vindo claramente numa trajetória descendente que voltou a colocar Alpiarça num marasmo. Do ponto de vista do desenvolvimento local, estamos a léguas do que já fomos. O investimento privado é pouco, o investimento público não existe. Esta realidade condiciona cada vez mais o olhar de potenciais investidores sobre o concelho. Não há estratégia, não há objetivos, não há projetos. Nada que nos possa animar para o futuro. Temos assistido ao longo dos últimos anos a uma simples gestão corrente da autarquia e da vida coletiva dos alpiarcenses. E mesmo assim, temos assistido a graves atropelos aos interesses da população, através de decisões erradas e insensatas. Se olharmos à nossa volta, refiro-me sobretudo aos municípios vizinhos, onde já fomos líderes, hoje somos o parente pobre. É este o legado que, mais uma vez, o PCP nos deixa em Alpiarça.

Acompanha o trabalho de Mário Pereira. Como o classifica?
Claro que acompanho. Como sabe, não só me interesso pelos assuntos que dizem respeito ao meu concelho, como vivo cá, os meus filhos estudam cá, pago cá os meus impostos. Quero deixar claro, antes de mais, que a opinião que seguidamente dou sobre o trabalho do Dr. Mário Pereira como presidente da Câmara Municipal, é uma opinião de caráter político e de exercício do seu mandato e nada tem a ver com quaisquer considerações sobre a sua pessoa, que não cabem nesta sede.
Dito isto, classifico o seu trabalho como insuficiente, medíocre, nalguns aspetos. O Dr. Mário Pereira tem exercido as suas funções sem rasgo, sem visão, sem projeto e sem ideias para o concelho, sem planeamento de médio e longo prazo, sem conseguir aproveitar e fazer vingar as reais potencialidades de Alpiarça. Não soube elencar prioridades, apostar em setores há muito identificados como estratégicos para o concelho, não soube capacitar a comunidade para novos desafios, recorre sistematicamente a desculpas para não fazer – ainda as mesmas desde o início do seu primeiro mandato – Não foi capaz de gerar novas sinergias na comunidade, resolver velhas questões com impacto significativo, não só nas contas da autarquia mas, sobretudo, na vida das pessoas, sair do seu gabinete e encontrar investidores, parceiros, novas ideias, uma nova vitalidade para este território. Aliás, o resultado do exercício do seu mandato está à vista se olharmos para o concelho hoje.

Acredita que Alpiarça pode voltar a ser socialista em 2017?
Acredito que Alpiarça precisa de uma mudança, de uma revitalização, de sangue fresco, novo, gente com ideias, com um projeto credível e com capacidade para o levar a bom porto. Acredito que essa é uma resposta que o PS em Alpiarça conseguirá dar e que tal pode acontecer em 2017. O PS já demonstrou que pode transformar Alpiarça. É absolutamente necessário que consiga traduzir as suas ideias e propostas, a sua capacidade e as suas competências para os alpiarcenses. Isso faz-se, por um lado, comunicando, falando com as pessoas, informando-as e, por outro, apresentando-lhes um leque de pessoas capazes de protagonizar esse projeto, capazes de implementar essas ideias, defender os interesses do concelho e trazer-lhe novas dinâmicas. Será bom para Alpiarça que tal aconteça em 2017.

Quem seria um bom candidato?
Há, na área política da social democracia e do socialismo democrático, várias pessoas que podem integrar uma equipa, em representação do PS, ao serviço de Alpiarça. Que têm o perfil, as competências e a capacidade de protagonizarem um projeto de transformação e desenvolvimento para Alpiarça.

Sónia Sanfona, não será?
Há um tempo para tudo. A seu tempo, o PS escolherá os seus candidatos. O importante é nós, socialistas, estarmos preparados e determinados para trabalhar em prol de Alpiarça. Tudo no tempo certo!

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