Recordar José Amaro de Almeida

No ano do centenário do seu nascimento e em que se completam quatro décadas sobre o seu falecimento. José Amaro de Almeida, o Dr. Amaro, como era conhecido, foi um distinto médico em Lisboa, a quem os almeirineneses vezes sem conta recorreram nos seus problemas mais complexos de saúde. (*)

No próximo dia a 9 de Agosto, passam cem anos sobre o seu nascimento, e a 28 de Setembro irão perfazer-se quatro décadas sobre a data em que nos deixou, ainda prematuramente. Altura mais que oportuna para recordar este homem, a vários títulos, excepcional. Nasceu lisboeta, filho da mesma Mouraria, onde o fado nasceu um dia!, tendo como pais um beirão e uma ribatejana de Almeirim, António Almeida e Evangelina Nunes Amaro, migrantes em busca de melhor sorte. As suas origens humildes, as quais ele nunca quis atraiçoar, marcaram-lhe indelevelmente o ser. Por um lado, o amor ao fado e às pessoas simples dessa Lisboa que o viu nascer e crescer; por outro, as suas raízes ribatejanas cedo o fizeram demandar a terra-mãe de Almeirim, onde aprendeu a amar e a descobrir o amor destas gentes, por debaixo da sua aparente rudeza.
Para mim, lembrar José Amaro de Almeida é, antes de tudo, recortar um pouco da minha infância. Na verdade, o Dr. Amaro era médico de minha mãe. Assim o conheci acompanhando menino os meus pais às consultas, no seu consultório na Avenida da Liberdade. Ó filha, faz nem que seja um dedal! Eu bebia-lhe, então, os gestos clínicos na sala de observações. Num tubo de ensaio, vertia um pouco de um reagente azul (reagente de Benedict!) ao qual juntava, com o auxílio de uma pipeta, algumas gotas de urina retiradas da tina de vidro. Depois, sobre a mesa dos curativos passava a preparação pela chama de uma lamparina, sentado no banco giratório. A cor acastanha no fundo do tubo de ensaio, pela primeira vez, ditava o diagnóstico da diabetes de minha mãe, e uma sina de agulhas e picadas até ao fim da sua vida. Nesse tempo, eu era um rapazito de oito ou nove anos, franzino, enfastiado com a comida. Os meus pais aproveitaram o ensejo, e quiseram que o Dr. Amaro me observasse. Auscultou-me, suspeitou de qualquer sequela pulmonar e, a seu pedido, fiz a minha primeira radiografia. Lembro-me tão bem da solução bebível que ele me prescreveu, com sabor a vinho do Porto! Na receita das instruções, ele fazia questão de escrever o meu nome: “Toino”! Um dia, Ó senhor doutor, hoje com a pressa esqueci-me da carteira em casa!, dizia o meu pai. A resposta imediata, natural e sem hesitação, Ó pá, tu queres que te empreste dinheiro?
Este médico de carácter afável e generoso, que assim tive o privilégio de conhecer, começou a custo a sua carreira na grande pequena cidade, que Lisboa nunca deixou de ser. Numa sociedade de padrinhos e afilhados, da qual ele se sabia deserdado, optou por iniciar a sua clínica pela “clientela dos três P’s”: dos pobres, parentes e p… prostitutas, exactamente! Na esperança de ganhar a reputação que lhe trouxesse os pacientes com posses bastantes para lhe pagarem. A estratégia até podia ter resultado, no entanto, acredito que não era bem isso que movia Amaro de Almeida, mas o seu prazer infinito em ser útil à sua gente mais querida, aos desprotegidos da sorte, aqueles por quem ele nutria um afecto desmedido. Tal como para com os artistas, de quem foi médico sem honorários e a quem nunca fechou as suas portas. Nesse meio fez incontáveis amizades, das quais me permito destacar aquela que manteve com Alfredo Marceneiro. De facto, a sua prática clínica mais não era do que um contínuo exercício de amor. Escreveu ele a outro jovem médico: “Sendo médico, mesmo a sério, caridoso e desinteressado, não morre rico, com certeza. […] sabes lá quanto vale olharmos com olhos puros para aquela Mulher Bela que nos foi destinada, chamada Medicina. […] O médico é o homem mais humilde entre os homens” (1).
Convidado a leccionar a cadeira de Terapêutica Hidrológica no Instituto de Hidrologia de Lisboa, nos anos sessenta, tornou-se especialista e investigador nessa área, tendo participado em vários congressos internacionais. Entre 1966 e 1975, encetou a publicação do Inventário Hidrológico de Portugal, obra em três volumes, presumivelmente incompleta e que contou com a colaboração do analista químico João de Almeida. Este empreendimento, levou-o a calcorrear o país, colhendo amostras de águas medicinais e dados de interesse termal, mas também histórico e etnográfico. Ainda nesta área, entre muitos outros trabalhos, publicou em 1971 Águas do Cota-Cota (Benguela, Angola).
Mas José Amaro de Almeida tinha essencialmente uma alma de artista, apaixonado, fascinado pelo outro, curioso, inquieto. Esta sua natureza, tornou-o vulnerável à contaminação pelo “bicho da escrita”, que desde novo se meteu com ele para nunca mais o deixar sossegado. “Se quando chegar a velho puder deixar a Medicina, aposento-me como escritor” (2), confessava ele nas suas Cartas de um Moinho Saloio, livro publicado em 1974, assinado com o apelido materno de José Amaro, como todas as outras suas criações literárias. Nesta obra, o género epistolar facilmente vai cedendo lugar à narrativa, à crónica de viagem e às memórias, onde o escritor vai deixando revelar a sua vida e a sua personalidade. E, assim, pela vida fora, foi roubando às horas de descanso o tempo para alimentar esse seu vício. “Não quero dormir toda a noite, / A noite é vida também; / Tenho tempo de dormir / Todo o tempo do Além.” (3), escreveu ele na sua Redondilha Maior, livro de poemas que deu à estampa em 1971. Antes, em 1967, em parceria com o seu filho José Soares de Almeida, já haveria de ter publicado outro livro de versos, Variações sobre o Fado (4). Este dedica-o especialmente aos tipo populares da sua Mouraria natal, das tascas e dos rufias, dos fadistas e dos marinheiros a procurarem atracar em alcova. Mas já muito antes, ele investigava e publicava artigos sobre, entre outros temas, os cantores e a canção, que na sua meninice o embalou, e pela qual ele se deixou enamorar para o resto da sua vida.
Entretanto, o livro Contos do Ribatejo constitui, muito provavelmente, a obra literária de maior fôlego de José Amaro, tendo conhecido duas edições (1972 e 1973). Embora as narrativas que compõem este livro não se desenrolem apenas em Almeirim, mas em vários locais da região, é na sua terra-mãe que o autor vem beber a sua melhor inspiração para, porventura, os contos mais bem conseguidos. Com efeito, desde jovem aqui terá passado muitas das suas férias estudantis, entre parentes e amigos. Com eles, tomou banho na Vala e aventurou-se por essas charnecas a dentro. Os seus sentidos apurados captaram as fainas agrícolas e os usos e costumes desta gente, partilhando a mesma vida e condição. À noite, conheceu as tabernas, onde os homens, entre copos de vinho, jogavam e contavam loas. Ouviu fascinado histórias que o encantaram. Foi aos bailes, onde os rapazes e as cachopas se elevavam de paixões, assim como ele! No tempo das vindimas, terá sentido o perfume a mosto e ouvido a música cadenciada das cunhas das prensas das adegas, até altas horas. É esse Almeirim rústico de antanho que José Amaro nos devolve, onde o pícaro, a malícia e a bondade se entrelaçam em contos como “O Zé Carrapato”, “Cancioneiro almeirante”, “Da serra à planície” ou “No olival da Folha”. Observa-se nestes o irromper do discurso directo, em que o autor consegue um registo fonético (quase) perfeito do linguajar da nossa gente antiga, em diálogos impressionantemente vivos. “O que valeu foi rezares, como Deus nã tinha nada que fazer tomou conta do mê cavalo… Rais t’abrasem, cada vez tás mais tanso!… Pega na navalha e junta-te ò rancho qu’ê desaparelho a besta.” (5), diz o patrão Casimiro ao “barrão” recém-chegado à vindima. Se outro valor não tivesse, e não é o caso, Contos do Ribatejo tem um valor etnográfico inestimável. Dele disse outro médico e escritor, por sinal dos grandes, João Araújo Correia: “O Autor, nas suas narrativas, deixa transparecer a Étnica ribatejana como se a fizesse mirar na água clara de uma fontainha.” (6). Nos tempos de irremediável globalização actuais, os Contos de José Amaro constituem um documento imprescindível para o estudo das nossas raízes identitárias, merecendo plenamente a sua reedição entre nós – assim haja o interesse de alguma entidade!
António João Gonçalves
(1) José Amaro (1974), Cartas de um Moinho Saloio, Lisboa: edição de autor, p. 177-183.
(2) Op. cit. p.115.
(3) In “Quero”, José Amaro (1971), Redondilha Maior, Lisboa: edição de autor, p.123.
(4) José Amaro & José Soares de Almeida (1967), Variações sobre o Fado, Lisboa: Edições de Bolso.
(5) José Amaro (1973), Contos do Ribatejo, Lisboa: edição de autor, p. 123.
(6) In op. cit., últimas páginas.
(*) O autor deste artigo não segue as normas do Novo Acordo Ortográfico.

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