A ocupação de Santarém (4ª Parte)

“Segundo Guingret, das alturas de Santarém, os franceses observavam as ricas e bonitas planícies do Alentejo (25), cobertas à distância de numerosas manadas, que os habitantes tinham feito passar de uma margem para outra ao momento da sua chegada. Esta vista que prometia abundância, fazia sentir com mais vivacidade as privações da tropa francesa, excitando o desejo do exército passar para o outro lado do rio. Acrescentou ainda que Wellington para se opor a esta intenção, fez passar a divisão de Hill para a margem Sul do rio.” (26) A mesma alusão faz também Marbot, referindo que o “duque de Wellington queria opor-se à passagem deste rio e tirou as tropas de Lisboa para formar um campo na margem esquerda, em frente a Punhete” (27). Na verdade, Wellesley organizara todo um dispositivo defensivo na margem esquerda do Tejo, desde Muge até Abrantes, onde passavam a operar em conjunto a divisão de cavalaria portuguesa do major-general Fane e a 2ª divisão de infantaria inglesa do tenente-general Rowland Hill (28). Estando o quartel-general sedeado no Cartaxo, ele tinha feito atravessar em barcos nos dois portos mais próximos, Muge e Valada, esta 2ª divisão do General Hill, de maneira a reforçar a defesa de toda esta região (29). Como na mesma medida, a divisão de tropas de infantaria do general Hamilton passou a operar também em conjunto com estas unidades de Fane e Hill, desde o dia 19 de Novembro (30). Toda uma linha defensiva bem montada na margem esquerda do Tejo, onde ficaram posicionadas e aquarteladas várias tropas de 1ª linha, integradas tanto na cavalaria como na infantaria. Assim, da brigada do coronel Teive, em Alpiarça esteve um aquartelamento do regimento de cavalaria nº 1, entre Novembro de 1810 e Janeiro de 1811; na Quinta da Gouxa, do regimento de cavalaria nº7, em Novembro; e no Casal Branco, do mesmo regimento nº 7, no mês Dezembro. Da 2ª brigada comandada pelo coronel Orway, na Carregueira, o regimento de cavalaria nº 4 e no Pinheiro Grande o nº 10, isto durante o mês de Novembro de 1810; novamente o nº 4 em Vale de Cavalos e o nº 10 na Quinta da Lagualva, desde Dezembro a Janeiro de 1811; tornando a avançar em Fevereiro, Alpiarça recebe também o regimento nº 4 e Almeirim o nº 10. (31) Da 2ª brigada de infantaria, comandada pelo major-general Fonseca, na vila de Muge estiveram também os regimentos nº 2 e 14, desde o seu desembarque a 19 de Novembro de 1810; na freguesia de Santa Marta de Moncão de Benfica (32) o mesmo nº 2, assim como na Chamusca o mesmo nº 14, durante todo o mês de Dezembro, reunindo-se depois com toda a brigada na Chamusca, a partir do mês de Janeiro. E por fim, da 4ª brigada de infantaria sob o comando do coronel Archibald Cambell, em Salvaterra de Magos permaneceram os regimentos de linha nº 4 e 10, até ao mês de Dezembro, passando a estabelecerem-se depois na vila de Muge, desde Janeiro até ao final da campanha, assim como na zona Almeirim também a partir de Fevereiro o regimento nº 4. (33) Como esta era uma “guerra de usura”, uma guerra de demoras e de desgaste, promovida pelo duque de Wellington, desde o início do ano de 1811 que a situação de sobrevivência e subsistência do exército francês passou a ser mais difícil do que nunca. Em Torres Novas deixou de haver pão, em Tomar deixara de haver carne e víveres, não havendo também já nem sequer calçado e fardas para os soldados. Eram cada vez mais extensas e ingeríveis as áreas que os franceses percorriam para obter gado e cereais. O Inverno fora duro e muitos eram os doentes que não dispunham de quaisquer remédios para se tratarem. Para além disto, e além dos poucos dois ou três mil soldados que o general Foix trouxera de Paris, Massena esperava também que os reforços de Soult o viessem ajudar através do Alentejo – coisa que nunca poderia, nem veio a acontecer, pois o caminho estar-lhe-ia completamente vedado, dado o domínio anglo-português da margem esquerda do Tejo desde Abrantes até Vila Franca de Xira. E foi assim que, por fim, em meados de Fevereiro, o generalíssimo do exército francês reuniu o seu estado-maior em Torres Novas e se deliberou então a retirada definitiva, que veio a acontecer logo no mês seguinte. (34) Um evento que o General Barão de Marbot também testemunhou e relatou nas suas memórias da seguinte maneira: “A retirada começou no dia 6 de Março. O general Éblé tinha, lamentavelmente, empregado os dias anteriores a destruir os barcos construídos com tanta dificuldade em Punhete. (…) Os preparativos do exército francês foram guardados tão em segredo e executados com tal ordem, durante a noite de 5 para 6 de Março, que os ingleses, cujos postos só estavam separados dos nossos em Santarém pelo pequeno rio Maior, só tiveram conhecimento do nosso movimento no dia seguinte, quando as tropas do general Reynier estavam já a cinco léguas de distãncia. O lorde Wellington, na incerteza de saber se o nosso movimento tinha como finalidade passar o Tejo em Punhete ou levar-nos para Espanha, perdeu doze horas em hesitações e o exército francês tinha ganhado um avanço em relação ao seu, quando ele tomou a resolução de o seguir, mas fê-lo de forma mole e ao longe.” (35) Nestas razões, os franceses voltavam a sair pelo mesmo caminho por onde tinham entrado. Perseguidos pelos exércitos aliados até à fronteira com Espanha e até para além dela, onde os exércitos inglês, português e espanhol se viriam a fundir sob a mesma cabeça, a do duque de Wellington. Entretanto, a acompanhar tal procissão, o coro do povo português fazia ressoar por todo o país “cantigas e poesias de fervor patriótico, exprimia-se o júbilo colectivo pela eminente redenção da Pátria” (36). (25) Tratando-se de um equívoco esta designação, pois as planícies às quais se faz referência pertencem ainda à região do Ribatejo e não à do Alentejo. Efectivamente, na zona de Santarém, o Alentejo não começava de imediato na margem esquerda do Tejo.

(26) RITA, Fernando Manuel da Silva – Os exércitos de Massena e Wellington no Concelho de Santarém, 1810-1811: reflexos no quotidiano social, político, económico e castrense. Dissertação de mestrado em História Regional e Local, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2010, p. 113; M. Guingret, op.cit., pp. 103 e 104. (27) MARBOT, op. cit., p. 88. (28) RITA, op. cit., p. 111. (29) BANDEIRA, Marquês de Sá da – Memória sobre as fortificações de Lisboa. Lisboa, Imprensa Nacional, 1866, p. 102. (30) KOCH, op.cit., p. 152. (31) AHM, Relações da posição dos Regimentos de Cavalaria 1 a 12, Regimentos de Infantaria 3, 5, 6, 8 a 11, 13, 15, 17, 18, 21, 23 e 24 e mapa do Estado Maior e mais pessoas empregadas na Torre de São Julião da Barra [1812]. Div.1, Sec.14, Cx. 293, Doc. nº 03. (32) Fórmula pela qual também foi designada a freguesia de Santa Marta de Moncão. (33) AHM, op. cit., Div.1, Sec.14, Cx. 293, Doc. nº 02. (34) SERRÃO, op. cit., pp. 89-90. (35) MARBOT, op. cit., p. 96. (36) SERRÃO, op. cit., p. 90.

Gustavo Pacheco Pimentel
Investigador

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