Banda Marcial de Almeirim esteve para fechar e precisa de ajuda

José Sardinheiro foi executante de bombo no início da década de 80. Agora, está de regresso à associação mais antiga do concelho, a Banda Marcial de Almeirim.
A instituição viveu e ainda vive grandes dificuldades financeiras e falta de novos elementos. O dirigente abre o coração e pede ajuda aos almeirinenses.

O que é que o fez aceitar este desafio e regressar à banda para presidir à direção?
Tenho como ponto de partida o gosto por esta associação, é a coletividade mais antiga do concelho e embora a saúde já não seja muita… Estou cá! Quando cá cheguei fiquei um bocadinho desolado com a situação da banda, vi as paredes negras, infiltrações, ar condicionados avariado, estão cá três e não sei se algum trabalha, instrumentos… uma quantidade deles a precisar de uma revisão profunda, para que nós possamos ter confiança para entregar um clarinete a um aprendiz, custa 300 euros! Ver tudo a precisar de tinta, mas não vamos gastar tinta sem o telhado estar arranjado, o próprio soalho no tempo do Grande Lavoura, era envernizado e agora aquilo está a precisar de uma afagadela, encher aqueles buracos e depois ser afagado novamente e tratado como deve ser. Há muita coisa e o dinheiro é sempre pouco, sem a ajuda da Câmara era impossível, a banda tinha que fechar a porta.

Agora está a salvo dessa situação?
Está, vai andando. Pode não haver remanescente suficiente para aquilo que nós gostaríamos, mas vai andar!

Mas se não fosse a Câmara fechava?
Fechava, não tinha hipótese. Ainda temos um contra, houve um atraso no lançamento das contas, neste momento o cobrador anda a receber as quotas de 2014 e temo-las desde que entramos, já estão lá preparadas as de 2015 e vamos aos poucos arrumar a casa… Há pessoas que, apesar de ser uma coisa simbólica, um euro mensal, há pessoas que vão pagar, penso que a maioria vai pagar, mas vão aparecer alguns que não vão pagar e aquela era a única verba fixa que nós temos da banda e faz-nos bastante falta. Eu gostaria de fazer um apelo aos sócios nesse sentido, para que paguem a pouco e pouco, mas que ajudem a banda, pois atualmente é a unica receita, que mensalmente não chega para pagar à senhora da limpeza, água, luz e telefone, só para receber chamadas. Pedimos ao Sr. Félix para passar várias vezes, de modo a suavizar os custos para os sócios.

Falávamos nisso, que era a coletividade mais antiga. Porque é que terá havido este afastamento todo da população, das pessoas com a banda?
Eu quando lá cheguei, até comparei a banda com uma caldeirada… nós fazemos umas batatas cozidas com brócolos, mete-se um bocado de bacalhau e um ovo. O ovo está inserido na caldeirada, mas não está ligado. Agora, se nós fizermos uma caldeirada diferente, que abra o ovo, há uma ligação, há uma envolvimento e eu penso que neste momento não há. Já se falou na direção em sair com a banda, nem que seja uma hora, por exemplo ao sábado ou domingo de manhã, havendo um percurso por nós planeado… Vamos ativar a bandinha porque a malta que lá esteve contrariou um bocadinho isso, não sei porquê, mas é uma banda para mostrar que existe a banda. Que estamos ali.

Precisamente nesse aspeto, deste afastamento, sente que é preciso uma aproximação muito grande?
Sim, é. Sem dúvida nenhuma que é. Temos de mostrar a todo o momento, mesmo nas freguesias, que temos a banda, porque eu ainda a semana passada ouvi uma coisa que me custou bastante. Quem faz as festas da Raposa é o grupo de Muge, porque a banda de Almeirim leva muito dinheiro e porque é que leva muito dinheiro? Nesta altura não temos músicos, não vamos assegurar qualquer serviço da banda desde que não haja o mínimo de dignidade, então temos de reforçar a banda, temos que chamar músicos de fora para reforçar a banda, enquanto os aprendizes não reunirem as condições necessárias para cumprir.

Isso é que leva que, se calhar, cobrem um preço mais elevado?
Exatamente. Neste momento, por exemplo, no concerto das festas da cidade, corremos o risco de perder dinheiro em relação aquilo que a Câmara deu, mas vamos lá estar e vamos assegurar esse serviço, porque se a gente entrasse para aqui e dissesse assim: “Nós não podemos assegurar isso”, a artilharia volta-se já contra nós… (risos). As marchas de Benfica é outro caso, eu disse logo à senhora quando ligou que “não tenha problema que nós vamos assegurar esse serviço” e temos que assegurar. Foi praticamente rejeitado aquele encontro de Bandas, precisamente por causa disso, não sei quanto é que eles estavam dispostos a dar, mas com esta falta de músicos tínhamos que gastar 600 ou 700 euros só com reforços! Se nós tivéssemos um número que músicos que assegurasse… Agora saíram, estão alguns a estudar para os exames, mas os que estão aqui, dão conta do recado! Poucos mas bons!Também deparamos uma situação: de elementos em que uns estão a favor do maestro, de elementos da direção… Nós estamos aqui 34 ou 35 músicos, saíram sete, mas nós conseguimos assegurar um bom serviço! Com dignidade!

Bem, tem ali alguns problemas sérios…
Temos, temos. Agora temos que nos mexer porque foi uma das coisas que eu perguntei na primeira reunião, como é que estava a escola de música e foi-me explicado que há dois anos não entra um aprendiz. Quem vai alimentando a banda é a escola de música, se temos dois anos que não entra um, pelo que consta há alunos e houve alunos, mas não podemos estar dois anos sem este alimento precioso para a Banda Marcial de Almeirim. Eu gostaria, quando saísse, de que as pessoas estivessem mentalizadas que os músicos que lá estão não são músicos do presidente A, ou do presidente B ou do diretor X, são músicos da Banda Marcial de Almeirim.
É preciso voltar a devolver essa importância que era ser músico da Banda Marcial de Almeirim e representar a banda. Isso perdeu-se?
Com certeza, naturalmente. A juventude vai adquirindo muitos vícios e às vezes perde-se o essencial, isto é como os nossos filhos. Nós educamos os nossos filhos e depois o que é que a gente constata? Que não é assim, é desta maneira. A própria sociedade absorve-os e consegue num ano afastá-los daquilo que nós andamos a dizer-lhes há seis ou sete anos. Ali é a mesma coisa, é a mesma maneira. Os músicos representam a Banda! Não esta ou aquela pessoa.

O atual presidente foi também músico nos anos oitenta?
Em 1983, 1984. Portanto, foi há 33, 34 anos. Mas desanimei, por exemplo, toda a gente sabia que o Juvenal andava lá e não era para ficar na banda, era para aprender a tocar saxofone e depois andava a tocar cá fora. E então comecei a desanimar, quer dizer, eu estou aqui e não há tempo para mim, para a música, e os outros… Ao longo do tempo houve sempre isto… Mas ainda fui a Coruche, à Glória, à Feira do Ribatejo.

Mas tinha jeito?
Não é preciso grande jeito, era a desenrascar.

Não desafinava?
Não muito.

É um instrumento importante porque dá ali a entrada à Banda…
É, mas o maestro com os sinais que ele dá, na altura e tal … “é agora”.

Aí não falhava, como a indicação do maestro?
Normalmente não. (risos)