“A música de boa qualidade é uma aliada no desenvolvimento das crianças”

Mário Figueiredo tem 40 anos, é professor de educação musical de 2º ciclo, mas onde se revê é na formação de crianças dos 12/24 meses aos seis anos. O professor reconhece que há uma preocupação por parte dos pais em oferecer aos seus filhos os estímulos proporcionados pela música e que vão enriquecero processo ensino-aprendizagem das crianças.

Como nasceu o gosto pela música?
O gosto pela música é algo que se deu com o contacto que tive através das influências a que fui sujeito neste percurso de crescimento. Os “culpados” por este gosto deve-se aos meus tios maternos (João e Paula), que tocam ambos guitarra. É evidente que o gosto não se obtém por osmose, mas a proximidade com este instrumento e as brincadeiras musicais que existiam e existem nas reuniões familiares causaram um impacto que deixou “marcas” bastante positivas por sinal! Aqui surgiu também o gosto pelos instrumentos musicais, mas o verdadeiro culpado do gosto pela música cantada é a minha mãe, desde sempre a ouvi cantar. Uma memória bem presente de infância era que, todos os sábados de manhã se colocava o gira-discos a tocar e se dava início às limpezas de fim de semana com a vocalista lá de casa sempre a acompanhar. E assim nasce o bichinho da música.

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Qual foi o primeiro instrumento que experimentou?
O primeiro instrumento que experimentei creio que foi a guitarra, isto de um modo consciente, claro, porque como todas as crianças tive contacto com os tradicionais instrumentos infantis, como a flauta de bísel, o tambor, a pandeireta, etc. Mas aquele que foi o primeiro instrumento, sem dúvida que foi a guitarra, pelo facto da proximidade, como referi anteriormente.

Recorda-se do que foi e qual a reação de quem ouviu?
Dessa altura não tenho memória, mas recordo perfeitamente quando comecei a pedir ao meu tio que me ensinasse acordes e ritmos. Comecei a tocar num verão, no final dos anos 80, e cada vez que apanhava o meu “professor” disponível queria aprender sempre mais, é preciso perceber que ainda não havia youtube nem internet, por isso tinha de recorrer às minhas fontes musicais. No final desse verão já tocava várias músicas e as reações eram sempre de incentivo, em especial pelos ouvidos amáveis da minha mãe.

Mas quando percebeu que podia ser um modo de vida?
Como muitos miúdos que frequentam o ensino regular, ainda não sabia bem o que queria fazer e estava a concluir o ensino secundário, e após realizar as habituais sessões de orientação com a psicóloga escolar e fazer alguns testes psicotécnicos, apurei que tinha aptidão para a música, algo que não era estranho de todo, mas daí até seguir música ainda demorou. Concluo o ensino secundário e nessa altura já tocava trompete na igreja, como na altura não tinha possibilidades de prosseguir os estudos a nível superior, fui trabalhar e iniciei os estudos no Conservatório de Música de Santarém, neste período comecei a encarar a sério esta possibilidade, e após entrar, fiz duas acumulações (dois anos num só), passados dois anos, e incentivado pela família, concorri ao ensino superior e fiz os pré-requisitos para o curso de música na Escola Superior de Educação de Leiria-IPL.

E a formação associada a esse gosto foi surgindo naturalmente com o passar dos anos?
A formação sempre foi a necessidade de aprender mais e diversificar as aprendizagens pelos instrumentos que gostava e gosto. Durante o meu percurso no Conservatório inscrevi-me numa escola de música também em Santarém para explorar as práticas de teclado (piano). No Conservatório tive a oportunidade de trabalhar com dois excelentes professores de trompete, onde desenvolvi bastante e através dessa prática instrumental tive a oportunidade de tocar com bastantes músicos que hoje estão no panorama musical português. Durante o curso, ainda fiz uma formação ao nível da música na infância com Pierre Van Hauwe, que era um dos grandes vultos da pedagogia musical, discípulo de Carl Orff.

Mas seguir profissionalmente com um grupo ou a solo nunca foi objetivo central? Porquê?
Durante o curso ainda surgiu essa possibilidade, mas devido a estudar e trabalhar tinha pouca disponibilidade para investir nesse percurso, apesar de ter feito algumas interpretações como trompetista, decidi investir enquanto professor e formador de instrumentistas e mais tarde na formação musical na infância.

O Mário trabalha muito com crianças. Que importância tem a música no desenvolvimento das crianças?
A minha formação de base é professor de educação musical de 2º ciclo, mas onde me revejo é na formação de crianças dos 12/24 meses aos seis anos. Na minha opinião, é o período do desenvolvimento do ser humano em que se deve iniciar o despertar para a música.
A música possui um papel importante na educação das crianças. Ela contribui para o desenvolvimento psicomotor, sócio-afetivo, cognitivo e linguístico, além de ser facilitadora do processo de aprendizagem.
A musicalização é um processo de construção do conhecimento, favorecendo o desenvolvimento da sensibilidade, criatividade, sentido rítmico, do prazer de ouvir música, da imaginação, memória, concentração, atenção, do respeito pelo próximo, da socialização e afetividade, também contribuindo para uma efetiva consciência corporal e de movimentação.
Cantando ou dançando, a música de boa qualidade proporciona diversos benefícios para as crianças e é uma grande aliada no desenvolvimento saudável das crianças.

Que balanço faz do trabalho que tem efetuado com elas no nosso concelho? Temos talentos?
O balanço tem sido bastante positivo, daí a continuidade do projeto desde 2001. O maior feeback é sempre dado pelas crianças, e é isso que para mim é gratificante, depois vem o reconhecimento e confiança no trabalho que faço por parte dos pais, que continuam a investir nesta área da formação como até aqui. Consigo também observar que há uma preocupação por parte dos pais em oferecer aos seus filhos estes estímulos que vão enriquecer, sem dúvida alguma, o processo ensino-aprendizagem das crianças.
Para concluir, posso afirmar que existe muito talento nestes “pequenos/grandes” músicos!

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