Instituições

Quando me perguntaram se queria escrever esta crónica entrei em pânico. Sim, sou um gajo nervoso. O desafio era escrever sobre Almeirim, o que aparentemente é fácil, afinal vivo cá há 34 anos, mas por onde começar? Em 1991, com a elevação a cidade? Não, é melhor recuar. Começar em 74, é isso! Não, também não é suficiente. “Que se lixe, vou all in!”, pensei, “vou a 1580 e começo pelas Cortes de Almeirim!”. Foi quando dei por mim a investigar sobre o episodio de violência doméstica na família do D. Afonso Henriques que percebi que a coisa estava descontrolada (eu avisei que sou nervoso). Limpei os suores frios, desarmei a posição fetal em que já me encontrava e decidi: vou falar sobre as instituições de Almeirim!

Pois bem, que melhor maneira de começar do que por um verdadeiro marco da nossa memória coletiva: a Mode Sport! Antes de existirem as Decoiso e as Sportzinhas, havia na Rua Dionísio Saraiva um senhor que sabia exatamente qual o modelo de Reebok que precisávamos. Na montra os equipamentos dos três grandes, com o do Benfica em destaque (pelo menos é assim que me lembro) davam as boas vindas aos visitantes. Lá dentro, um canito a ladrar interrompia o Sr. Armando enquanto ele perguntava pela família. “Vem ver de umas sapatilhas” dizia a minha mãe ao sr. Armando, antes de passar pela porta interior que ligava ao outro lado da Mode Sport, o lado das mães.

De sorriso orgulhoso e caixa de Asics debaixo do braço, atravessámos a rua até à Plural. Afinal de contas estamos em Setembro e apesar de no dia anterior já termos ido às Cortes cumprir o importantíssimo ritual da Escolha da Mochila, ainda havia que ir buscar os manuais do ano letivo. Como sempre, a minha mãe passa aquilo que me parecem 16 horas a analisar a montra do Ponto Negro e eu aproveito para ir à Casa Lino ver as aparelhagens na montra, já que não posso ir sozinho para o salão de jogos do Grupo 4. Bom, pelo menos já não temos que ir à Acácio.
Nesse dia ainda íamos ao Galinheiro comprar uma prenda de anos para a minha prima e a perspetiva de alguma coisa pingar para mim entusiasma-me, por isso nem me lembro de voltar a referir como era importante para a família eu ter um carro telecomandado a gasolina quando passamos pela loja de modelismo do Centro Comercial Varela. No banco de trás do carro, que partilho com um caixote de cartão cheio de legumes do Sr. Amaral, vou abrindo os cromos da bola que fomos buscar à Palitrónica. “Repetido, repetido, repetido… Olha, este o Gil não tem! Quando formos à Minuska comprar foguetes levo-lhe! Tenho só que ir ao Roxo pra ver se já me remendaram a bicicleta”.

Algumas das minhas melhores recordações da nossa cidade estão ligadas a essa verdadeira instituição que é o Comércio Local. Muitas fecharam, outras abriram, mas todas vivem acossadas pelas gélidas grandes superfícies e virais franchises que enchem os bolsos dos Belmiros desta vida. Mais do que lojas, são pessoas, são nossos vizinhos! Eu apoio o comércio local. Até porque não há Fás como os do Velho.

 

Filipe Torres –  Engenheiro Civil