As Tabernas e Tascas de antigamente

As famosas Tabernas e Tascas de antigamente são hoje recordadas em muitas localidades, comentadas e até recuperadas, para voltarem a ser o que eram. Eram verdadeiramente casas típicas e interessantes, mesmo ao ar livre.

Era nestes estabelecimentos que se servia o denominado petisco pobre e hoje o mais procurado por ser um “rico”, o denominado copito. Foram, naquele tempo, lugares obrigatórios do homem e a Igreja o da mulher. Já diziam os mais cé, ticos naquele tempo, quando estavam com a “Cardina”, que cada um tinha a devoção que queria e que aquele lugar era o melhor porque o Padre também bebia o seu copito ali ao lado deles. Agora para ser coisas a sério, lá vinha o tal provérbio… antes q’ azeda… que logo se beba… e depois ia-se à missa.

Quem viveu intensamente estes típicos espaços, sabe quanto custou esta mudança. O taberneiro foi antigamente um Padre autêntico. Quantas vezes, já no final do dia, à hora do fecho, aparecia sempre uma alma penada a chorar baba e ranho e que era um desgraçado, um triste e amargurado rejeitado “p´la familha” e era o vinho que o alegrava etc., aqueles mais rezingões que muitas vezes não tinham ordem de nem mugir em casa, ali eram uns fanfarrões. Mas todos os taberneiros naquele tempo tinham lábia e sobrolho franzido para os que o provocavam. Para acompanhar um copito, naqueles anos em que o Pitromax e o candeeiro a Pitrol eram as luzes psicadélicas daquele lugar, e bem recordo que era somente ali a venda da Pinga, hoje até chateia onde o vendem… bem, só falta nas Farmácias… O aconchegar o estômago, serviam alguns petiscos. O “bacalhau albardado” ou desfeito era o que tinha mais saída, era o conduto do pobre, petingas, queijo, carapaus, o atum e por vezes somente as pevides, azeitonas, os tremoços que com um cadito de pão lá matavam a fome. O hábito que muitos ainda se recordam: jantavam e não bebiam vinho em casa e lá iam beber um balde de 3, que era para assentar.

Mas a ida das mulheres às Tabernas era censurado naquele tempo, só iam lá por 3 motivos: buscar os maridos já “purdidos de Buadeira”, irem buscar uma pinguita p´ra pôr na comida, mas levavam garrafas de litro (?) e aquelas que até se davam ao luxo de beber mais que os homens e até há testemunhas disso ainda hoje… A Camila, dizem agora alguns? … e o resto? Ou julgam p´ra qué que os canitos daquele tempo faziam tantos recados? A troco de 2 tostões, e eu fui um deles, ir à taberna com um garrafão de 2 litros buscar pinga p´ra nha vizinha e eu dizia que era “pó mê pai” e lá vinha a gorja. Um dos taberneiros típicos conta que antigamente “as mulheres também conversavam na taberna” e usufruíam do seu convívio. Isto porque muitas vezes a taberna era ao lado da mercearia e por vezes tudo em conjunto, entre a ginjinha e “o cálce de augardente com mel” com a desculpa muitas vezes das constipações, lá ia. Com a evolução dos tempos e a vinda da televisão, poucos cafés havia e as Melodias de Sempre, Variedades e os célebres programas do Dr. Pedro Homem de Melo sobre folclore, começava a levar as mulheres um pouco envergonhadas a irem ver.

As telenovelas vieram dar mais um empurrão para o fazerem, e já nessa altura até começavam por petiscar uns carapauzitos e não só. Mais tarde, onde “elas” existiam, o lugar foi transformado hoje por um café ou um restaurante e hoje o idoso lá comenta: – Era aqui a nha tasca preferida… até cheirava a vinho… e ria-se. Um bafo antigo, intemporal, ressequido, incrustado naquele chão, nas paredes, no mármore do balcão, onde os copos eram lavados dentro de um alguidar ou na pia, sempre com a mesma água, onde o taberneiro ao fim do dia dizia ter ali 5 litros de … ÁUGA-PÉ. Já não há pipas de 50 litros a ornamentar as paredes, nem serradura para aparar as pingas de vinho transbordante em mãos de tremedeira, as cuspidelas e o gato a comer as espinhas. Não há sequer um papagaio a dizer asneiras, amestrado, como havia nas velhas tabernas, ou mesmo um rádio Grundig que, ao domingo, com os relatos da bola, deixava muitos de cabeça perdida ou mesmo adormecerem sentados naqueles bancos corridos, sem caírem para o chão, tal era o hábito, e muitos que ao verem aquela novidade diziam bem espantados: – Qu´é isto senhores… um caixote de meio alqueire a dar música e a falar… louvado seja Deus. O balcão de mármore era altar que dava guarida à balança de ranger reumático, sempre a pesar para o lado da casa. Era o retrato amarelecido do tempo em que os homens se acamaradavam ao balcão para beber vinho do pipo e petiscar pataniscas, fintando a solidão dos dias tristes e vingando os dias de trabalho do campo, sabe Deus. “Como era refrescante ouvir o zurrar de um burro quando o dono o aliviava de toda a carga ao desmontar-se e entrar pelo seu pé na taberna e passado umas horas terem que ser os compadres a colocá-lo em cima dele e quase como a ensinarem-no para o levar (o dono) para casa.” Isso, é qu´era o bonito o estardalhaço que a patroa fazia mais tarde.

Naqueles lugares, lá aparecia o tocador gaita-de-beiços, flauta, harmónio ou concertina e até os Zés Serralheiros a tocar Guitarra, para muitos apreciado e para outros até como caixa de fazer oó. Consta que no século XVIII o fandango era dançado por homem e mulher em pé de igualdade. No entanto, o facto de ele ter sido adotado pelos convivas das tabernas, que o dançavam sobre as mesas ao som do harmónio e ao toque dos ‘copos’, e interpretado como um dos motivos que conduziu à masculinizarão da dança. Hoje, o fandango é uma dança exclusiva de homens, que deixou de ser apanágio das tabernas e bailes da aldeia para se transformar numa manifestação de espetáculo folclórico. A Taberna era o grande ponto de encontro de convívio dos trabalhadores e mais tarde dos Ricos Senhores. Depois do almoço, que ao domingo começava logo de “manhin” com o mata-bicho, lá para o meio-dia era bem melhor, agora de barriga cheia alguns vestiam o seu fato domingueiro e dirigiam-se ali para o Largo dos Charcos, Fonte dos Namorados ou mesmo o Largo do então Jardim. Entretanto, os homens iam fazendo a sua peregrinação às tabernas próximas; os copos iam-se enchendo e esvaziando. Uma ou outra laranjada, pirolito ou limonada ia saindo também, na sua maior parte para as raparigas, que iam consumi-las no seu grupo lá fora e vinham depois devolver as garrafas e os copos, menos os berlindes. Bebia-se, conversava-se, caminhava-se para um lado e para o outro, com os problemas da vida postos para trás das costas. A mesita, já tradicional, a um canto onde, por vezes, a bisca ou o 7 e meio era interrompido pelo acender do cigarrito de Onça e logo d´ infiada um copito, e assim se passava o dia.
– Uma ginja, se fizer favor! A velhota D. Pina nos anos 30 levantava-se a custo com a curvatura da bengala a imitar a das costas cansadas, e lá aviava sempre com os mesmos modos.
– Com ou sem elas? – Com elas s´faz favor.

E a caneca de alumínio interrompia a sesta do lavatório, esvoaçando por cima do monte de latas d´atum, das chóriças, da marmelada e das caixas de fósforos para, num ritual de mergulhar no frasco de boca larga, baço do licor e com a mão toda por lavar onde uma cuspidela, por vezes, servia para ter mais “gadanhos” e lá extraía a ginja com elas. Era ali à esquina, na Pontinha, onde mais tarde o Sr. Zé da Quinta também foi taberneiro. A muitas dessas Tabernas faço hoje referência. Se por acaso faltar alguma, bebam um copo ao meu esquecimento… Todos eram Senhores (as), por isso ficamos em sentido, de copo na mão: J´quim Correia, Zé Carapinha, J´quim d´Ad´lina, Pão Alvo, Manel da Julha, Zé das Cabras, Jaime Marmelo, Toino da Cunha, Fausto, Calafata, Marí D´Alpiarça, Rita Pirua, mais tarde a sua Filha, Bexiga, Queijo e Esposa, Zé Tranca (Fulgêncio), Maria Pina, Manuel Alves, Zé da Quinta, Zé Clara, J´quim da Loja, A mãe do Sr. Leonel “Mindrique”, Matias, Carlos Alves, Trapalhadas (Pensão Cação), Lua e Sol, Roque (tio do Roque Paraquedista), Cegonho, Chico de Alpiarça, Serapião, Maurício Matias, Fardilha, Maximiano (Avô do Chico Cego), As Maurícias, Laracha, Botas, Monarca, J´quim Gameiro, Manuel Batata, Toicinho, J´aquim d´Alagôa, Manuel Carvalho, Amândio Videira, Fernão Pires, Casimiro André e sua mãe, Pangaia (Rei dos Bichos) Zé Moreno, Serapiões (Rua de Salvaterra) Toicinho e mais alguns etcs.

Lugares destes que o tempo e a memória apagaram, e por vezes nos dias de Procissões, encostavam as portas e deixavam um pouco de luz lá de dentro para que algum peregrino viesse buscar a pinga benta para poder continuar e, por vezes, algum por lá ficava mesmo com a capa roxa como se quisesse dizer, “Eu gostava de ir, mas o cheiro das velas agonia-me”…

 

Augusto Gil