Mário André: um enfermeiro que se tornou artista de BD

Concurso Nacional de Banda Desenhada, o Amadora BD contou com a participação de Mário André, antigo massagista do Sporting CP, que expôs quatro pranchas A4 alusivas ao trabalho de um repórter com o título “Os Muros”.

Na linha de um conceito de BD de intervenção, André – como assina, ou Kustom Rats, a sua marca que sempre imprime nos seus “fanzines” para não esquecer os tempos de motard – desenha a história de um repórter que ao fazer a cobertura da epopeia dos refugiados, percebe que o significado dos muros foi alterado. Se antes da queda do Muro de Berlim existiam 16 muros no mundo, depois da sua queda, o número subiu para 64. E agora os muros servem não para deixar sair, mas para não deixar entrar.

Enfermeiro, especializado em reabilitação, trabalhou no velhinho Hospital de Santarém, no Centro de Saúde de Alpiarça, n’ Os Águias, no União de Almeirim. Um dia foi fazer um part time para o Sporting e depois, pelas mãos do selecionador nacional, Carlos Queirós, ali ficou a tempo inteiro durante 23 anos. Hoje diz que “o futebol está arrumado e jogo, só vejo os grandes”!

E, afinal, o desenho? “Bom, sempre tive jeito para o desenho mas não tinha tempo! Uma vez, nas aulas de Biomecânica, fiz um livro com os desenhos da matéria. Roubaram-me o livro! Mas agora que estou reformado, tenho tempo e esta é uma atividade que funciona como terapia porque me obriga a ter horários, a fazer pesquisa”.

Mário André está sempre à procura de novas ideias e investe na sua formação. Fez um curso sobre a linguagem da BD na Next Art, com Pedro Moura, e agora está a fazer outro no Museu Bordalo Pinheiro pelo Penim Loureiro. Gosta de desenhar com o preto, branco e cinzento. Há quem use muito a cor e quem transforme cada vinheta numa obra de arte. “Talvez seja influenciado pela banda desenhada que lia na infância. Nem sei quanto tempo levo para desenhar uma vinheta; posso levar dois ou três dias a fazer quatro vinhetas! O meu professor diz que sou preguiçoso! Diz que levo tempo e depois faço tudo depressa!”- confessou Mário André. Os temas abordados são sempre de cunho social e têm muito a ver com a sua vivência: a ecologia, a política, os desfavorecidos. Não é um realista na sua mensagem; é antes um cínico que usa e abusa do vernáculo – “Transmito o que sinto e cada um que sinta o que quiser” – rematou.

Não se vive desta arte. Embora os custos não sejam elevados, há sempre um investimento inicial. No caso de Mário, que não quer apostar no digital, para já, este processo criativo nem sai muito caro. Embora considere que o futuro passará pelas novas tecnologias. Diz Mário André que o que sai caro é divulgar a obra. Produzir um livro é difícil, dispendioso e reservado para os autores de banda desenhada já muito reconhecidos. “Entre nós, temos muito o lema do “do it yourself” e por isso apostamos nos “fanzines”, pequenos cadernos integralmente produzidos por nós, que oferecemos. E aqui é que está a continuidade da BD, assim como nas novelas gráficas. Neste momento, estou a reunir material para o próximo fanzine. O meu primeiro é baseado na escrita de Bukowski. Perguntou-me sobre o futuro da BD. Pois passa por aqui. O fanzine é uma forma de continuidade desta expressão e bem que podia ser trabalhado nas escolas, como método pedagógico que alia o desenho à escrita e à pesquisa. ”- concluiu Mário André.

O panorama da Banda Desenhada nacional é bom. Embora este meio seja pequeno, já existem grandes nomes, como Francisco Sousa Lobo, que ganhou um prémio. A BD está a renascer.

Casado, dois filhos e uma neta, vê no filho Diogo o gosto e o jeito. Tem por mestres Moebieus ou Alain Moore mas é no desenho do chamado “comics underground” de Robert Crump que se revê. Depois do Amadora BD, Mário André tem já algumas propostas para expor, que oportunamente divulgará.