Três décadas de vida na fábrica da Czarina

Czarina, a antiga fábrica de confeções em Almeirim ainda se encontra presente na memória de muitos. Eram cerca de 300 trabalhadores, a maior parte mulheres, na empresa que laborava no centro da cidade, na Rua Condessa da Junqueira. Muitas das antigas funcionárias casaram e tiveram filhos durante o tempo em que trabalharam na empresa que se situava em frente ao pavilhão municipal, é o caso de Doroteia Pena.

Doroteia, antiga funcionária da fábrica tem hoje 65 anos, trabalhou na Czarina até a fábrica fechar e testemunhou momentos felizes em entrevista para o nosso jornal.

Quantos anos trabalhou lá?
Eu trabalhei lá perto de 30 anos. Entrei com 21 anos e sai a fazer os 50, saímos em março e eu fazia os 50 em abril. Foi o trabalho que eu sempre tive e que os patrões que tive sempre e saí porque a fábrica fechou.

Porque é que a fábrica fechou?
A fábrica fechou porque não havia encomendas e trabalho suficiente para manter a fábrica a funcionar e depois foram saindo cada vez mais pessoas e acabaram por ficar pouquinhas e eu fui das últimas a vir embora.

O que é que fez quando a fábrica fechou?
Depois de fechar, já não fui trabalhar mais. Entrei no desemprego e depois reformei-me aos 55 anos, foi a reforma antecipada. Estou reformada há 10, eu acho que a fábrica fechou em 2001, fechou há 16 anos, porque estive no desemprego e nesses anos ainda descontei algum tempo.

Como é que se integrava com as suas colegas?
Isso eu gostei muito. A fábrica teve altos e baixos, mas foi um convívio muito bom. Passei lá a minha juventude toda, casei, tive o meu filho, só saí com essa idade e fiz muitas amigas. Foi muita juventude que lá esteve e não foi só de Almeirim, empregou cerca de 300 pessoas, muitas jovens, deu trabalho à juventude de aqui e de Fazendas, de Benfica, de Alpiarça, de Muge, de Santarém, de Paços dos Negros, de muitos sítios. Quando eu entrei, já estavam lá pessoas mais velhas e depois fui acompanhando jovens que iam entrando, só que eu não estive na parte da costura, eu estava na parte de engomar, eu e mais seis colegas, mas a secção era à parte. Eu habituei-me muito aos meus patrões, habituei-me muito a lá estar e depois não fui capaz de sair para ir para lado nenhum, gostei, gostei de lá estar e tive muita pena que a fábrica acabasse, porque se não acabasse eu estava lá até ter a reforma. Era um convívio muito bonito, tínhamos a nossa pausa do lanche e depois fazíamos os nossos convívios, foi muito bom!

Quais é que eram os tipos de trabalhos que realizavam lá na fábrica?
Era uma fábrica de confeção, havia muitos tecidos, havia uma secção de corte, para fazer os moldes e depois havia outra secção de costura e depois havia já a secção de engomar e de embalar que era onde eu estive sempre. O tipo de trabalho, no início, era camisas de homem, depois começamos a fazer também roupa para a Suécia, mas eram roupas de trabalho em série para fábricas, para equipamentos de mineiros e esse tipo de roupa. Ainda fizemos roupas de senhora também. O nosso trabalho era exportado e depois a concorrência também teve influência para faltar também trabalho, porque faltou, embora nós tivéssemos muito trabalho, depois começou a não render, não dava, houve pessoas que quiseram sair ou não podiam ficar, e eu como estava aqui pertinho de casa, gostei de lá estar.

Quais os maiores clientes que a fábrica tinha em termos de marcas?
Como tinha dito, era mais coisas para exportação, fazíamos para a marca Melca, não me lembro muito bem, mas acho que também fazíamos para a Maconde.

Eram mais senhoras ou senhores a trabalhar na fábrica?
Os homens eram mecânicos e choferes que vinham para levar a mercadoria para Lisboa e iam levar as encomendas. Era só senhoras, homem eram poucos.

Sabemos que em 2015 foi realizado um almoço com todos os trabalhados da fábrica, como foi rever as suas antigas colegas?
Pois foi, foram duas amigas minhas, eu ajudei, mas a iniciativa foi delas as duas. Gostámos muito. Foi muito bonito e gostámos do reencontro de pessoas que nunca mais vimos, eu nunca mais vi certas pessoas, pelo menos as de Vale Figueira, de Muge, nunca mais vi essas pessoas e foi bonito. Pode ser que para o ano as minhas amigas queiram fazer novamente, porque dá um bocadinho de trabalho, este ano não calhou.

Ainda hoje tem amizades que surgiram na fábrica?
Muitas. Adoro algumas, quando as vejo, emociono-me, porque recordo muito e o meu nome não é muito comum e então elas nunca me esquecem. Damo-nos muito bem e vou dizer-lhe que tenho muitas saudades, às vezes tínhamos altos e baixos como já lhe disse, mas eu sentia-me lá bem, chegava lá, era o meu trabalho, tanto gostei que nunca fui capaz de ir para mais lado nenhum. Fiz muitas amigas, dávamo-nos muito bem e desde as chefes de secção ainda hoje encontro duas senhoras e vou dar-lhes um beijinho, foi muito bom. Foi pena, porque Almeirim teve esta fábrica que ajudou muito a nossa gente.