Pampilho ao Alto XLIX

No relacionamento pessoal, próximo ou distante, há reações e manifestações que apesar de useiras ainda me deixam perplexo. Refiro-me ao estafado caso Sócrates! Como qualquer cidadão que se pretende informado, não deixei de acompanhar pelos meios de comunicação social o evoluir dos acontecimentos correlacionados com a prisão preventiva e trâmites subsequentes de alguém que tinha sido Primeiro Ministro.

Claro que, mesmo na preocupação de selecionar a informação dita isenta (porque na realidade nenhuma é) sempre chegava à conclusão que, descarada ou encapotadamente uns tantos procuravam cruxificar Sócrates, enquanto outros o defendiam com unhas e dentes. Os primeiros pela necessidade de vender jornais, os outros por solidariedade, gratidão por favores recebidos, ou cegueira partidária. Mas, apesar de tudo isto ser sobejamente conhecido, a minha perplexidade advém da reviravolta na posição de uns tantos defensores de Sócrates que ainda ontem o defendiam com unhas e dentes e agora lhe cospem como se de um ser abjecto se tratasse.

Os que, com razão, clamavam que o julgamento de qualquer arguido (e Sócrates não é excepção) se faz no Tribunal e não na praça pública, são agora os mesmos que lhe atiram pedras como se de cão danado se tratasse. Deste rol de infiéis amigos e amigas, constam até nomes de alguns e algumas que usufruíram das alegadas falcatruas de Sócrates “e sus muchachos”. Não sei em que dimensão ele considerava “estes seus amigos”, tanto os de partido como os pessoais, mas deve ser um tremendo amargo de boca verificar que quem tinha a obrigação de ser solidário, ao mínimo sinal de afundanço do barco o abandona e atira pedregulhos para o casco para que mais eficaz e rapidamente se afunde. Apesar de estafadas, por corriqueiras, estas manifestações de traição e abandono do amigo de ontem ainda me causam perplexidade; sobretudo quando provêm de pessoas que têm o dever de ser gratas e intelectualmente honestas. Sócrates é arguido num processo judicial, e, como tal, ainda não foi acusado.

Segundo a tal comunicação social, existem fortes indícios e provas de ter cometido os crimes sob investigação, mas até à acusação, julgamento e trânsito em julgado da decisão que o condenar ou absolver, será apenas e só arguido ou acusado. Deixemos ao Ministério Público as acusações, e aos Tribunais os julgamentos assim se fazendo a Justiça Justa. Tudo o resto é folclore mediático. Fiquem bem, de Pampilho ao Alto.

 

Ernestino Alves – Advogado

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