Duas personalidades – Duas épocas: As Marquesas da Alorna e do Cadaval

A cidade tem dois espaços importantes que lembram duas personalidades. A Escola Secundária, construída em 1986 e a Biblioteca Municipal, em 1991. A Escola Secundária tem por patrono a Sr.ª Marquesa da Alorna. A Biblioteca Municipal ostenta o nome da S.ª Marquesa do Cadaval. Uma vez que se tem gerado alguma confusão entre estas duas personalidades convém fazer uma breve explanação sobre o que foram estas duas Senhoras.

A Marquesa da Alorna, de seu nome Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, nasceu a 31 de outubro de 1750. Era filha do 2.º Marquês da Alorna e 4.º conde de Assumar e de Dona Leonor de Lorena e Távora. No seguimento do processo contra os Távoras, considerados os mentores do atentado contra o rei D. José I, a sua família foi encarcerada. O pai na Torre de Belém e depois no forte da Junqueira. Ela, a mãe e irmã no Convento de Chelas. Nesta altura tinha 8 anos. Esta prisão ficou a dever-se aos laços de parentesco com os principais acusados: os Távoras.

No Convento apendeu a ler, escrever, compor música e poesia. Nesta permanência forçada, onde esteve 18 anos, desenvolveu o seu gosto pela poesia, tendo escrito vários poemas. De acordo com as normas sociais da época, conseguiu notoriedade pela qualidade do que escrevia e pela sua presença em saraus culturais. Ainda serviu como enfermeira e organista. A sua participação poética foi reconhecida e passou a ser designada por “Alcipe”.
Com a morte do rei D. José e a posse de D. Maria I, veio a libertação de todos os presos políticos, incluindo a sua família. Então optaram por virem algum tempo para Almeirim.
Regressados a Lisboa retomaram a vida social que tinham. Alcipe participou nos saraus e festas organizadas pelo pai e em outras, tornando-se conhecida pela sua capacidade oratória e poética.

Casou-se com o conde alemão Carlos Augusto Oeyuhausen, primo do conde de Lippe – este fora contratado pelo marquês de Pombal para reorganizar o exército português. Sendo o conde Carlos nomeado para ministro plenipotenciário português na Áustria, mudou-se para Viena. Nesta cidade mostrou a sua capacidade de relacionamento e qualidades poéticas o que a tornou conhecida e admirada. Pode dizer-se que foi uma personalidade de reconhecimento europeu uma vez que se destacou nas cortes de Espanha, França e Áustria. Como não se adaptou ao clima austríaco regressou a Portugal. Com a morte do marido, em 3 de março de 1793, voltou a Almeirim com os filhos, aqui permanecendo algum tempo, na quinta da sua família, a Alorna.

Atendendo o seu espírito e comportamento feministas, contratou uma mestra para ensinar as raparigas, filhas dos seus empregados e outras, a ler, escrever e coser. Com um espírito irrequieto e ávido de saber vai para Madrid em 1802, depois da morte do pai. De Espanha passa à Inglaterra. Volta a Portugal em 1809, mas por pouco tempo. O seu irmão partira com as forças francesas no comando da Legião Portuguesa, sendo considerado traidor. Este facto obrigou-a a sair do país e voltar a Inglaterra, onde permanece até 1813. Depois da morte do irmão regressa e desenvolve esforços para conseguir a sua reabilitação. Como era bastante admirada, quer pela sua posição social que pelos conhecimentos e dotes poéticos, mantém uma posição ativa e interveniente. Depois de conseguida a reabilitação do irmão assume o título de Marquesa da Alorna. Foi agraciada pela rainha D.ª Maria II com a Ordem de Santa Isabel sendo também distinguida, na Alemanha, com a Ordem da Cruz Estrelada.

A Marquesa do Cadaval, de seu nome Olga Nicolis di Robilant, nasceu em Turim a 17 de janeiro de 1900. Teve uma vocação especial pela música, destacando-se no piano. Serviu na 1.ª Guerra Mundial como voluntária da Cruz Vermelha, tendo a especialidade de enfermeira radiologista. Aí conheceu D. António Caetano Álvares Pereira de Mello, marquês do Cadaval, com quem casou, passando então a ter o nome de Olga Nicolis de Robilant Álvares Pereira de Mello. Já em Portugal tornou-se presidente da Sociedade de Concertos, fundada por José Viana da Mota, no ano de 1917. Com o falecimento do marido assume a direção de todas as suas propriedades.

Em Almeirim estabeleceu um acordo com a Câmara Municipal para a cedência de terrenos destinados à Escola Preparatória – Escola Febo Moniz. Neste processo o acordo incide sobre os terrenos da sua propriedade situada entre as ruas Condessa da Junqueira e dos Aliados – formada pelos prédios “Bacelo do Prazo”, “Vinte Astins” e “Manetas”. Fica estabelecido que o total do prédio, que tinha cerca de 120.000 m2, seria destinada a urbanização. A Câmara faria as infraestruturas de águas, esgotos, ruas e jardins. Deste seria destacada uma área de 25.000 m2 para a construção da Escola, a ser doada. O restante seria vendido em lotes para construção de moradias e prédios. Será nesta área que se edificará a Biblioteca Municipal, que, por deliberação municipal dos anos de 1991, passa a ter o nome de Biblioteca Municipal “Marquesa do Cadaval.

Nos anos oitenta do século passado faz a doação de terrenos, na freguesia de Santo António da Raposa, para construção de moradias a preços reduzidos, destinando-se a atrair moradores para a aldeia. Faleceu em Lisboa a 21 de dezembro de 1996.

Não deixa de ser digno de respeito esta dupla de mulheres que marcam dois espaços importantes na cidade: uma Escola e uma Biblioteca. Um agradecimento especial para elas.

 

Eurico Henriques – Historiador

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