“Pessoas já se sentiam inferiores porque não sabiam ler nem escrever”

PROJETO Margarida Bento e Ana Margarida Vinagre são as mentoras do projeto que O Almeirinense foi conhecer o projeto que a Associação ProAbraçar está a desenvolver na alfabetização. Depois de seis meses, o número de alunos triplicou.

Como surgiu o projeto da alfabetização?
O projeto surge integrado num Centro de Educação para Crianças, Jovens e Adultos da Associação ProAbraçar, que é o API, Abraçar para Incluir. Uma das áreas é a alfabetização e em fevereiro de 2018 tivemos formação através de um organismo internacional, que é a “Alfalit”, que nos concedeu os materiais e começámos com as nossas turmas nesse mês. Nós temos dois tipos de público alvo: as pessoas que não sabem ler nem escrever, mas também temos outros que fizeram, por exemplo, a antiga quarta classe mas que, com o tempo, nunca mais desenvolveram a escrita e a leitura e que, neste momento, estando reformados e também para ocupar o tempo, desenvolveram a escrita e a leitura que tinha ficado parada.

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Qual está a ser a aceitação?
Nós divulgamos, mas sentimos que tem sido muito boca a boca que a mensagem tem sido passada. Temos crescido porque começamos com quatro alunos e neste momento temos 12, em duas turmas de seis. E acho que estão a gostar porque são assíduos e estão cá sempre. Acho que a aceitação está a ser muito boa.

No início as pessoas sentem-se constrangidas?
Inicialmente, eles chegam envergonhados porque há coisas básicas como ler uma carta, preencher documentos da escola dos filhos, o que para eles é muito difícil porque não conseguem ler nem escrever e vêm mesmo com o desejo de ultrapassar essa dificuldade. Com pequenos passos e com motivação consegue-se. Na minha turma tenho alguns que querem tirar a carta de condução e temos como objetivo isso.

E este projeto destina-se a pessoas com que idades?
Nós tivemos aqui situações de pessoas com 18, 25 e depois … 40, 60. É um grupo muito heterogéneo.

Que balanço fazem destes seis meses?
O balanço é muito positivo porque estas pessoas já se sentiam inferiores porque não sabiam ler nem escrever. Aqui têm alguém que lhes dedica tempo, os ensina, que os motiva … e isso é muito recompensador. Para nós é muito gratificante, até parece terapêutico.

Há pessoas de etnia cigana? Algumas que até tiveram problemas com justiça?
Quando as pessoas chegam, faz de conta que não há passado. Nós também queremos integrar, pois um dos objetivos da Associação é combater a exclusão social, integrando as pessoas independentemente da história de vida, nós estamos cá para ajudar naquela área.

Recentemente fizeram obras também para melhorar esta valência?
Sim, precisávamos de melhores condições e aí termos mudado de espaço. Nós estamos a abrir uma forte vertente na área da educação, não só a alfabetização, vamos abrir em setembro um centro de estudos. Este projeto não é só para carenciados, é para toda a comunidade para também trazer alguma sustentabilidade à Associação. Todo o trabalho para as famílias carenciadas é gratuito.

O projeto Abraçar Para Incluir (API) tem várias vertentes?
No verão (julho e agosto, tem a oficina de Estudo. No início de setembro vamos inaugurar o Centro de Estudos com transporte, almoço e acompanhamento escolar. Temos a escola de música, que também pode funcionar à parte, e vamos ter atividades de ocupação de tempos livres nos momentos em que não há aulas. Queremos dar ênfase à multimédia, expressões dramática e plástica.

Com tantos espaços que já existem, o que vos diferencia?
Nós queremos trabalhar com grupos pequenos porque a qualidade tem que passar por um número máximo de 10 pessoas por sala. Queremos também ter um ambiente familiar, ou seja, queremos que a criança chegue aqui e se sinta em casa, onde é ouvida, respeitada e acompanhada.
O espaço está organizado com uma sala de estudo flexível, onde a criança, com orientação do professor, organiza o seu estudo.
Vamos ter acompanhamento do 1.º ao 6.º ano, cozinha partilhada, com a criança a organizar o seu lanche, limpar o que suja…

Ensinar a educar?
Sim, trazer às crianças responsabilidades, ensinando-as a ser autónomas. Também vamos dar grande revelo à inteligência emocional, é algo que acreditamos que pode ajudar a ter sucesso a nível académico.

Isso entra também com a psicologia?
Sim, é também uma área de que gostamos muito.

 

Pastor Jorge Humberto, a Associação ProAbraçar é uma associação sem fins lucrativos constituída em 2015, formada por um conjunto de voluntários, técnicos e profissionais. Que balanço faz das várias atividades que tem tido?
A Associação Proabraçar foi criada oficialmente em maio de dois mil e quinze, como resultado da evolução do então Projecto Abraçar que surgiu no ano 2007. Na origem do projeto abraçar esteve o trabalho de Ação Social, realizado na área da toxicodependência e alcoolismo, direcionado aos jovens do nosso Concelho, conhecido como o Café Convívio. Em bom rigor, o trabalho que a Assembleia de Deus tem vindo a desenvolver na área social no conselho de Almeirim acontece há cerca de 17 anos. As atividades de intervenção Social desenvolvidas ao longo destes anos são inúmeras e bastante diversificadas. A avaliar pelo efeito das mesma na melhoria das condições de vida testemunhado por muitos beneficiários, verificamos com alegria que, apesar dos muitos condicionalismos, não temos trabalhado em vão.

Como tem sido a aceitação na comunidade?
Hoje o projecto Proabraçar é uma referência na intervenção Social no nosso conselho e esse fato deve-se ao reconhecimento que o mesmo tem tido transversalmente em todos os sectores da Comunidade Almeirinense. Os parceiros sociais e a população em geral ao longos dos anos e de diversas formas, têm manifestado o seu reconhecimento acerca do contributo que o projeto Proabraçar tem dado, para que os contextos de carência vividos por muitas pessoas fossem alterados. O ponto mais alto deste reconhecimento foi feito por parte da autarquia, na pessoa do Sr. Presidente Pedro Ribeiro, quando, em abril de 2017, atribuiu ao projeto Proabraçar a Medalha de Valor e Mérito, Grau de Ouro, como reconhecimento da prestigiosa contribuição que a associação tem dado para o engrandecimento do concelho de Almeirim .

Quais os eixos principais da vossa atuação?
Ao longo destes anos, a nossa visão de ação foi a de contribuir para uma sociedade inclusiva, sendo um instrumento de apoio social ativo que acrescentasse valor e impacto social na nossa Comunidade. Tendo este princípio como pano de fundo, entre outras, procuramos desenvolver as seguintes áreas de intervenção Social: Apoio à Família; Apoio à Integração Social e Comunitária; Equipa de Intervenção Direta; Apoio e Encaminhamento à Problemática do Alcoolismo e da Toxicodependência; Ajuda Alimentar; S.O.S Idoso; Promoção de Ações de Sensibilização para trabalhar competências pessoais e sociais; Alfabetização de Adultos; integração de refugiados.

Sente também que hoje em dia há uma aproximação grande com os almeirinenses?
Nunca sentimos que houvesse por parte da comunidade de Almeirim algum tipo de resistência, de reservas ou indiferença relativamente ao nosso trabalho, até porque numa cidade como a nossa, é natural que a grande maioria das pessoas se conheçam, e esse facto acaba por esbater qualquer distância. Mas é legítimo considerar que com o decorrer do tempo se vá construindo um histórico relativamente ao nosso trabalho e que em função disso se estabeleça uma maior confiança, e que isso resulte no que acontece hoje, ou seja, um reconhecimento e uma aceitação total do nosso trabalho por parte dos Almeirinenses.

Nisso o Pastor é um dos maiores responsáveis?!
Não, absolutamente não. A minha função é garantir que o foco da nossa missão seja mantido e captar os recursos necessários para que a mesma seja concretizada. Os grandes responsáveis pela dinamização e afirmação do projeto Proabraçar são os muitos voluntários que, ao longo dos anos, têm dado o seu tempo de forma altruísta e solidária para com os mais desprotegidos socialmente. A este propósito gostaria de aproveitar a oportunidade para enaltecer o fantástico trabalho de liderança efetiva, e manifestar o nosso reconhecimento e gratidão ao casal Nelson e Katia Feijao, pelo trabalho desenvolvido ao longo anos ao serviço do projeto Proabraçar, pois sem o empenho e a dedicação que têm demonstrado, ao abraçar como abraçaram este projeto, é certo que não teríamos conseguido chegar tão longe.

Quais os grandes desafios para o futuro próximo?
A nossa consciência social está alicerçada no paradigma de que as sociedades são dinâmicas e suscetíveis de se verem confrontadas com novas áreas de intervenção social. Isto significa a capacidade de sermos capazes de desenvolver uma análise crítica da sociedade onde estamos inseridos, para desta forma e diante de novas necessidades, sermos capazes de ser uma resposta objetiva diante dos novos desafios com que formos confrontados.


Alfalit

A Alfalit Internacional é uma organização sem fins lucrativos que desde 1961 já alfabetizou mais de 7 milhões de pessoas em todo o mundo e serve 22 países com o seu Programa de Alfabetização de Adultos, Educação Básica, Nutrição e Desenvolvimento Comunitário.

A metodologia e material educacional da Alfalit já foram reconhecidos duas vezes pela UNESCO, em 1983 e 1992.

O 1º Prémio da Alfabetização Mundial foi entregue à Alfalit do Peru em 1983, onde foi referenciada a qualidade e a originalidade dos seus materiais didáticos e programa de leitura complementar, e em 1992 a Alfasic da Guatemala…

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