Morreu o artista plástico José David

Foi agraciado com a medalha de valor e mérito pelo Município de Almeirim, em 2017.

A energia que residia nele tornou-o grande. Muito por causa dos imponderáveis da vida, a sua, começou cedo, ditada pela trágica morte do pai. Chegou a pintá-lo vestido de forcado, numa pose afirmativa e garbosa. Quem fosse petiscar ao café do Ramiro, via-o emoldurado por entre adereços regionais, numa das paredes da sala dos fundos.

A pilha biológica que herdara do “Cartaxeiro”, e da sua amada mãe, empurrou-o para a vida. José é o mais velho dos três irmãos Pisco David. Cedo aprendeu a contornar os derrotes da vida e o trabalho nos cafés da vila eram, claramente, uma condição transitória. O seu mundo não cabia no “Café do Zé das Cabras” onde tirou bicas entre desenhos da clientela, nem no matricial bairro da Tróia [que também foi do Velhaco]. Aventurou-se para Lisboa, serviu na restauração, “trabalhou onde houve trabalho”, mas sempre com a sedução da Pintura.

Nessa época, em Almeirim poucos se interessavam por artes plásticas. É com o Poeta Francisco Henriques que vê os primeiros livros sobre Pintura. O respeito mútuo que os acompanhou ao longo da vida, permitia ao homem das letras, mostrar as páginas que vedava aos olhos dos seus filhos; os nus da pintura clássica. A memória dessa lembrança distante fê-lo sorrir, e ao fazê-lo, os olhos semicerravam e o seu bigode “à Nietzsche”, matizado pelo fumo do tabaco de enrolar, subia-lhe até às bochechas. A “máquina de fazer cigarros”, que sempre o acompanhava, trazia-a junto com outros pertences, numa bolsa de couro que pertencera a um carteiro brasileiro. A original, gasta pelo uso, serviu de molde a uma segunda, cosida à mão, por artífice da terra. Era de desenho simples e de cor natural, como ele gostava. Um dia abriu-a e tirou de lá o catálogo da sua última exposição em Paris [Centro Cultural Calouste Gulbenkian] e um pequeno livro, uma edição francesa de uma entrevista a Francis Bacon. Não era a primeira vez que nos deixava livros. Os livros eram a base da sua ampla cultura, cultura que partilhava connosco em longas conversas dominicais.

Regressava a Almeirim [sempre que vinha a Portugal] para visitar a mãe e os irmãos. Nutria pela matriarca [e que belo retrato – Catrola – nós vimos dela no atelier da rua da Nova de S. Mamede] um singular respeito que ultrapassava a natureza da relação, ao reconhecer nela uma força gigantesca que lhe terá valido para criar os filhos. Referia-se ao irmão do meio com a mágoa de quem o vê escravo do trabalho que escolheu para si. Quando ia almoçar ao restaurante do Ramiro, lamentava o tempo que o irmão gastava a aturar a clientela quando o importante era ficarem ali, descansados, a falar das coisas da vida. Porque a mãe ficara aos cuidados da Anica – a mais nova – sua única irmã, era na casa desta que o Pintor permanecia mais tempo. A morte da Ana, sem aviso, deixou-o profundamente abalado, tanto como a partida da mãe, o seu maior farol.

A incompreensão e a inércia dos homens aborrecia-o, tal como a falta de cultura. Talvez visse em si a prova de que, embora nascido num meio pequeno e rural, nada o terá impedido de se tornar um cidadão do mundo. E mais, o José David não tinha tiques de quem, por força de viver na cidade das luzes, trazia para a conversa aqueles galicismos típicos do emigrante aculturado. Quanto a mim, este ribatejano de olhar vivo, tez morena, suíças e bigode farto, por força da sua personalidade, nunca perdeu as raízes.

Cresceu artisticamente nas artes gráficas e na publicidade e foi esse o caminho natural para chegar à Pintura, criando capas para livros, muitas para obras-primas da Literatura [como “Crime e Castigo” de Dostoiévski, “La Peau de Chagrín” de Balzac], Trévisan, Kafka, Lobo Antunes, etc.
Fez a tropa em Macau, e por lá se iniciou nas exposições dignas de assento [1962, Leal Senado] e daí até à mostra na Galeria Monumental [Lisboa, 2017] muita pintura aconteceu.

Ainda em Paris, e numa reportagem sobre artistas da sua geração que deixaram o país nos anos 60, Valdemar Cruz (para a revista Única do Expresso [2008]) sintetiza a sua obra assim: “José David já andou à volta dos touros, já pintou paisagens e minotauros. Agora faz auto-retratos de costas”. Afetivamente também abordou o rosto – o seu – a óleo, ou a tinta-da-china sobre papel pesado e tempos houve, em que, através da mão inquieta, saíam peixes, pássaros, limões, ”scène d’atelier”, “fleur et poisson” ou “domadoras de peixes”. Sobre ele, Rogério Ribeiro [Catedrático na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e seu amigo] escreveu: “Paris recebeu uma elite de artistas que, com os pés lá e o coração aqui, demandavam o espaço de respirar, de aprender, da liberdade necessária. José David apostou e bem. Partiu e demorou vinte anos a voltar”

Um dia encontrámo-nos com ele, por acaso, em Madrid, à entrada do Prado – [estavam comigo o João Vitor Costa e o Catrola] tínhamos ido ver os Mestres espanhóis que todos admirávamos. Também por acaso, cruzei-me com ele [e com a Françoise] na Gulbenkian, em Lisboa. Mas não mais me cruzei com ele noutros museus ou exposições imperdíveis, teria sido, para mim um privilégio poder ouvir os seus comentários avisados enquanto dissecávamos as obras. Tanto quanto sei, viajava para não perder uma boa exposição, e dessas, falava-nos apaixonadamente, não se coibindo de dizer, caso se desiludisse com a expetativa; – Não gostei nada daquilo!

Conservou até ao fim um amor incondicional à sua arte, trabalhando afincadamente bem cedo pela manhã, com luz natural, que o acercava pela esquerda, como convém aos destros. Fazia e refazia as telas até encontrar o que procurava…. sabes, isto é assim: – Quando estamos cansados e prestes a desistir… o que procuramos, aparece!

“Encorajei-o a seguir sem temor o seu Ideal. Uma grande responsabilidade moral para mim, em caso de insucesso; mas assumi-a conscientemente, pois nem por um momento duvidei do seu êxito”. A premonição de Francisco Henriques, que o conheceu jovem, estava certa.

Uma simples rosa vermelha descansava sobre o peito do Artista, coberto pelo mais singelo dos mantos, sem adornos ou pormenores… como ele desejaria. A Françoise David, sua doce companheira, Carlos [o seu único filho] e a nora estavam unidos nesta despedida (O Expresso, por Daniel Ribeiro, faz-lhe um merecido elogio) e eu, perante este imperativo, fui despedir-me do José David a Lisboa; – Olá, Zé David!

“Depressa se vai a primavera, choram os pássaros e há lágrimas nos olhos dos peixes” [Bashô], lia-se nas pajelas disponíveis junto ao livro de condolências. A ilustrá-las, um “auto-retrato de costas”, como se o autor acabasse de se virar e se despedisse de nós com um – Até já!

JOSÉ DAVID

José David [Almeirim, 1938] morreu em Lisboa a 3 de agosto de 2018, era sexta-feira e o país estava a arder. Seria velado, dois dias depois na Capela de S. Francisco de Assis e cremado. Deixa-nos uma obra considerável, dispersa por instituições e coleções particulares e ainda não catalogada.

O Município de Almeirim convidou-o para mostrar parte da sua obra, aquando da inauguração da Biblioteca Marquesa de Cadaval [1991] e mais recentemente [2008] na Galeria Municipal. De ambas as exposições se produziu catálogo e na primeira delas “Achegas para uma retrospetiva”, foi possível apreciar parte do seu percurso criativo. Foi ainda editada uma serigrafia de autor e a Autarquia possui no seu património três pinturas do artista. Foi agraciado a 25 de Abril de 2017, por proposta do Executivo Municipal com a Medalha de Valor e Mérito [Grau Ouro].

 

Autor: Fernando Veríssimo

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