Pampilho ao Alto LVVI

O João Carvalho nascera nos idos anos 50, de um relacionamento furtuito de sua mãe com um garboso ribatejano que cumpria serviço militar em Lisboa. Como tinha noiva na terra, o militar não assumiu a responsabilidade. A pobre Maria lá teve a criança que criou com a ajuda dos patrões. Orgulhosa como era, não voltou a falar ao Magala, e este jamais conheceu a criança de que era pai, não sabendo sequer o seu nome, ou o dia em que nascera; mas a Maria deu ao filho o nome de João Carvalho tal como o do pai.

O menino fez-se homem herdando a simpatia da mãe e o charme natural do pai. Trabalhou em várias profissões mas por recomendação do padrinho (o patrão da Maria) foi chauffeur de uma família abastada de Lisboa, e, passado algum tempo casava com a filha da patroa que não resistiu aos seus encantos. Era agora um homem abastado, mas de certo modo infeliz pois a esposa não lhe podia dar filhos.

Não perdia a oportunidade de dar a sua escapadela, amorosa. A esposa lá foi aguentando as traições do marido, mas um dia requereu o divórcio. Após o divórcio, o Sr. Carvalho (assim era chamado) já entrado na idade lá foi vivendo modestamente, pois da partilha por divórcio apenas lhe coubera um terreno em compropriedade com outros 15 herdeiros. Os bens da esposa, eram na realidade da mãe dela. Entretanto, o militar João Carvalho regressara a casa e, guardando completo segredo das suas aventuras amorosas em Lisboa, casou com a primitiva namorada. Deste casamento nasceram três filhos. Trabalhou duramente nos campos e conseguiu um património em prédios rústicos de considerável valor.
Quando faleceu no estado de viúvo os seus únicos e universais herdeiros foram apenas os seus três filhos legítimos, pois que, ele jamais dissera fosse a quem fosse que tivera um filho fora do casamento. Este filho que tivera em Lisboa, acabou por falecer no estado de divorciado sem descendentes ou ascendentes , testamento ou disposição de última vontade. Neste caso os seus herdeiros seriam precisamente os seus três irmãos consanguíneos, ou seja, aqueles que tinham nascido do casamento do pai com a primeira namorada.

Onze anos após a morte de João Carvalho, os outros 15 comproprietários acabaram por vender o prédio e foi aí que houve a necessidade de chamar à herança os herdeiros de João Carvalho tarefa que só foi possível com a intervenção do Ministério Público. Foi uma completa surpresa para estes a notícia da existência de um irmão que desconheciam por completo, e que, para cúmulo lhes deixava uma herança.
O João Carvalho “pai” certamente para não ter mais um herdeiro a concorrer com os filhos legítimos não lhes deu conhecimento da existência daquele irmão, mas o destino mesmo após a morte, encarregou-se de lhe dar uma bofetada sem mão.

Afinal, foi o filho negado a proporcionar uma herança aos irmãos que não conhecia. João Carvalho “o militar” deve ter dado voltas na tumba.

Ernestino Tomé Alves
Advogado

.