Pedro Bento numa das mais duras Prova do mundo

Pedro Bento, atleta de BTT de Almeirim em representação da secção de desportos de Montanha dos 20kms e da Ribabike participou numa das provas mais duras do mundo de BTT, o IRONBIKE em Itália.

Pedro, como correu esta experiência?
A experiência correu muito bem porque foram atingidos todos os objetivos a que me propus: diversão, chegar ao final da prova sem me lesionar e terminar a prova como finisher.

Quais foram as maiores dificuldades?
Passei por várias dificuldades mas de todas destaco a do Monte Bellini na 2ª etapa onde tínhamos de subir aos 2800m de altitude e percorrer 140km em menos de 15h. Nessa etapa durante a subida, já perto de 8h de prova, comecei a sentir-me fraco devido a uma má alimentação, quando cheguei aos 2600m parei junto do abastecimento já quase em estado de hipotermia porque as temperaturas rondavam os 5ºgraus e tinha estado a chover. Nessa altura escondi-me atras da roda do jipe devido ao vento e ao frio e acabei por adormecer de cansaço e fraqueza, quando um atleta me tocou no ombro a perguntar se estava bem e se ia continuar. Respondi que sim e rapidamente me meti ao caminho para terminar a subida, demorei quase 15’ para fazer 200m a subir com a bicicleta às costas. Depois disso iniciei a descida, onde existia algumas zonas onde tínhamos de descer sobre a neve com precipícios enormes, a organização ainda teve o bom senso de meter uma corda para nos segurar-mos ao passar junto ao precipício. No final da descida, perto das 11h de prova, parei novamente num abastecimento, onde se encontrava pessoal médico que me aconselhou a abandonar devido ao meu estado, mas na brincadeira disse-lhes que era português e que não estava ali para desistir e voltei novamente para a prova. Desde as 10h de prova que não conseguia comer e fiz o resto da etapa sem me alimentar, terminei a etapa com 14h30’ a 30’ do tempo limite de prova. No final da etapa o pessoal médico veio dar-me os parabéns por ter terminado a etapa, e dizerem-me que tinham falado entre eles que eu não ia conseguir.
E a etapa do monte Chaberton em que tínhamos de subir até aos 3200m, o que fazia com fosse muito difícil respirar. Foram 3h de subida em que a ultima hora da subida foi toda feita a empurrar a bicicleta em inclinações sempre a rondar os 15-20%, em pedra solta. Nem mesmo os 1ºs subiram montados na bicicleta.
Mas todos os dias tínhamos dificuldades diferentes e a própria rotina do dia a dia da prova era bastante difícil: acordar, tomar pequeno almoço, etapa da prova, chegar depois de 10h de prova e ter de ir tomar banho, lavar a roupa, limpar e afinar a bike para a etapa seguinte, montar tendas, jantar, ir ao briefing da prova e só depois podermos descansar. Eram sempre dias muito longos.

É mais que um limite à condição fisica? Também psicológica?
Muito mais do que isso, nesta prova a questão psicológica é muito importante. Não é fácil estar completamente esgotado fisicamente ao fim de 10h de prova e ter de continuar a arranjar forças para continuar e chegar dentro do tempo limite. O fato de durante 8 dias consecutivos termos de dormir em tendas, acordar sempre entre as 4h30 e 5h30 da manha para depois pedalar e empurrar a bicicleta durante mais de 10h seguidas, faz com que seja necessário ter um psicológico muito forte também. Essas forças vêm sobretudo da capacidade psicológica. Por exemplo: no final da quarta etapa adoeci, tive febre e diarreia durante a noite e só alinhei mesmo à partida devido ao fator psicológico porque a condição fisica estava mesmo a zero.

A camaradagem é grande?
O espírito de camaradagem é muito grande sobretudo fora da prova, no final das etapas. Durante a prova o que se nota mais são palavras de incentivo e de apoio entre os atletas, porque como estamos todos a correr contra o relógio não podemos parar muito tempo para dar apoio a atletas que não conhecemos, porque esse tempo pode ser precioso para continuarmos em prova. No entanto, existem sempre exceções como por exemplo se encontrar-mos um atleta ferido com gravidade aí paramos e tentamos ajudar. No caso de nós portugueses existiu sempre muito espírito de apoio e camaradagem quer antes, durante e depois da prova.

E o nível competitivo é muito elevado?
O nível competitivo é bastante elevado, basta ver que a prova foi ganha por um atleta profissional das Honduras (Milton Ramos). Participaram vários atletas da elite mundial de maratonas, e além disso mais de 70% dos participantes eram repetentes nesta prova, o que lhes dava grande vantagem porque já sabiam as dificuldades que iam enfrentar podendo assim realizar uma preparação bastante específica. Conheci um atleta Italiano que estava a fazer o Ironbike pela 9ª vez, e outro que já o fazia pela 3ª vez e que ainda nunca tinha terminado.

Colocou várias fotografias com outros atletas portugueses. Já os conhecia? ou conheceram-se lá?
Não conhecia nenhum atleta, apenas nos encontrámos lá. Tinha tido apenas um contacto com um dos atletas numa prova que realizámos na Serra da Estrela. No entanto, no total, a comitiva Portuguesa reuniu um total de 6 atletas tendo 3 deles abandonado a prova logo no final da 2ª etapa. Mas a camaradagem foi sempre exelente e ajudámo-nos uns aos outros durante toda a prova, quer durante e depois da mesma. Em certas situações o atleta portugues que chegava em 1º na etapa montava as tendas dos restantes para podermos estarmos todos juntos e ajudar na poupança de esforços. Este tipo de prova ajuda a fortaleçer e a arranjar novas amizades, e foi o que aconteceu entre nós.

Quais as maiores experiências que retirou desta experiência?
Uma das maiores foi sem dúvida andar pelos Alpes Italianos e ver paisagens de sonho que só se conseguem ver a pé ou de bicicleta. E em segundo a experiencia de conhecer pessoas diferentes e de várias nacionalidades e de ver que quando todos estamos no mesmo barco a lutar contra as mesmas dificuldades, todos compreendem o que estamos a sentir e todos tentam ajudar da forma que podem e que conseguem.
É nas grandes dificuldades que muitas vezes sobressai o lado bom das pessoas e neste tipo de provas isso nota-se bastante.

Qual o próximo desafio?
O próximo desafio ainda está em estudo mas já tenho algumas opções: Brazil Claro Ride; TransAndes no Chile ou Yack Attack no Nepal. Vamos ver, vai depender muito da questão monetária porque estas provas são todas pagas por mim. Apenas tenho alguns apoios pontuais ao nível da nutrição e da mecânica, por isso, quero agradecer à PAVA NATURA Ourém e RIBABIKE Almeirim, que foram os meus apoios.

 

 

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