Amores de Antigamente

Maria do Rosário Freitas está viúva há três anos mas não esquece o homem da sua vida, nem o dia em que o conheceu: “Eu tinha 14 anos e ele 19. Eu comecei a gostar dele, ele começou a olhar para mim, íamos aos bailes e dançávamos juntos… Nem foi preciso falar em namoro, eu gostava dele e ele gostava de mim”, explicou Maria.
Os namoros de antigamente, tal como explicou, “eram muito diferentes de agora.
Íamos aos bailes e festas e nunca podíamos dar beijinhos nem nada, porque as mães andavam sempre atrás”. Como Maria era das Fazendas e o seu namorado vivia em Paço dos Negros, o casal passava entre oito a dez dias sem se voltar a encontrar.
Mas já naquela altura os namorados tinham os seus segredos e malandrices. No caso de Maria, a sua confidente era uma figueira que tinha nas traseiras de casa, onde o seu namorado escondia a bicicleta, e ali passavam algum tempo sempre que podiam.
Apesar de não se recordar da data de celebração do Dia dos Namorados, Maria recorda-se que esse dia era assinalado com pequenas lembranças e brincadeiras: “as raparigas bordavam um lenço ou uma coisa para o selim das bicicletas, e os rapazes davam uma coisinha que comprassem. Mesmo pouco, havia sempre qualquer coisinha para dar”.
Quanto aos namoros de hoje, esta almeirinense acha que “é demais. Se as pessoas gostam uma da outra, não é preciso tanta coisa. Porque dantes nós gostávamos mesmo, e agora é como os gatos, faz-se umas festas e depois aparece outra e vai-se embora”.
Depois de seis anos de namoro e 63 de casamento, Maria Freitas conta que o mais difícil foi o tempo da tropa: “Na altura não tínhamos telefone e as cartas só vinham de mês a mês. Mas tínhamos aquele amor um ao outro, e não se desligava de maneira nenhuma”.
Hoje, Maria continua a amar marido, e relembra os bons tempos passados, garantindo que nunca houve uma discussão em casa, “porque afinal o amor é tudo”…

José Felício Branco da Silva tem 83 anos e ainda não esqueceu como conquistou a mulher da sua vida: Apesar de serem vizinhos, interagiam muito pouco e, certo dia, quando José regressava do trabalho com o pai, viu aquela rapariga com a trouxa à cabeça, saltou da carroça e dirigiu-se a ela: “Olha lá cachopa, moramos ao lado um do outro, não podíamos ser namorados?”, ao que ela respondeu “Só se tu não quiseres”. E começou assim o namoro: “Ela tinha medo do pai, e quando chegava ao meu portão, parava. Ficávamos ali a conversar… um apalpãozito e ela mandava-me logo estar quieto, porque alguém podia ver. Mas um dia o pai dela chamou-nos e disse que se queríamos namorar, tinha de ser ao portão da casa dela”.
Quando José entrava em casa da namorada, ficava sentado entre os sogros: “Parecia que estavam a guardar o rebanho, não podia tocar-lhe nem dizer o que queria”, contou.  José Silva lembra assim todas as diferenças que nota para os namoros atuais, afirmando que “hoje em dia não há namoro. Dantes é que havia amor, porque quando um rapaz se chegava a uma rapariga, tinha-lhe amizade e era para ficar para a vida. Agora namoram pelo telefone, sem se verem nem nada”.
Apesar de não comemorarem o Dia dos Namorados, José lembra que ligava muito ao amor. Passou muitas horas a conversar ao portão, esperou por ela muitas vezes no meio do caminho, escreveu muitas cartas quando cumpriu mais de um ano de serviço militar em Angola… “e já naquela altura era malandro, escondia a bicicleta na seara de aveia e puxava-a lá para dentro, apalpão aqui, beijinho acolá, e ela sempre com medo do pai. Mas mesmo assim deixei cá uma filha”, contou José entre risos. Para este almeirinense, “o amor é a coisa mais importante que há no mundo”, afirmou, acrescentando ainda que, passados tantos anos, já não se lembra de muita coisa, mas continua a gostar da mulher “como no primeiro dia”.

 

.