“Gosto muito da minha profissão e não me imagino a fazer outra coisa”

Catarina Penteado não tem histórico de praticante de desporto, mas por ironia do destino é, hoje em dia, uma mulher que vive para o Desporto. Formou-se em fisioterapia e trata as mazelas de dezenas de atletas.
Em entrevista a O Almeirinense, Catarina conta pormenores do que vive nos relvados e no posto médico. 

Como e quando surgiu o gosto por ser fisioterapeuta?
A minha formação é em fisioterapia, e o gosto por esta área manifestou-se naturalmente no meu ingresso ao ensino superior.

Por influência de alguém?
Não. Nunca tive contato direto com a fisioterapia até ao momento da escolha do curso. Embora o interesse pela área da saúde tenha surgido desde muito cedo, a fisioterapia em particular foi um tiro no escuro que acabou por se revelar certeiro. Hoje sei que foi a opção correta pois gosto muito da minha profissão e não me imagino a fazer outra coisa.

E a entrada no futebol como se deu?
O futebol sempre esteve presente na minha vida pessoal e familiar, e a minha intervenção nesta área foi uma consequência directa dessa ligação familiar.

E o ingresso no U. Almeirim como surgiu?
A minha família está fortemente ligada ao União, nomeadamente através do meu pai e do meu irmão. Quando terminei o curso surgiu o convite para integrar o departamento clínico do clube, onde passei a intervir ao nível dos escalões de formação, mas a conhecida situação do União acabou por motivar a minha saída para o Fazendense. Na época passada, com o surgimento do projeto VIVER UFCA, fui convidada integrar esta nova fase da vida do União e resolvi voltar e contribuir com o meu trabalho para o clube da minha terra.

Que tipo de formação tem?
Licenciei-me em fisioterapia pela Escola Superior de Saúde Dr Lopes Dias – Castelo Branco em 2008. Desde então que exerço como fisioterapeuta numa clínica em Coruche, em clubes de futebol e em contexto geriátrico numa casa de repouso em Fazendas de Almeirim.

Quais são os seus objetivos?
Os meus objetivos passam por continuar a exercer na minha área e, se possível, sendo útil à minha comunidade. Agrada-me a multiplicidade de áreas que a minha intervenção abrange atualmente, nomeadamente pela intervenção de primeiro contacto que a componente desportiva me proporciona. Essencialmente espero poder contribuir para a prestação de cuidados de saúde de qualidade e, particularmente para a afirmação da importância da fisioterapia ao nível do desporto distrital.

Sente que há alguma relutância pelo facto de ser mulher e estar num mundo que é dominado pelos homens?
Nem por isso. Sempre fui bem aceite nos clubes onde trabalhei, embora reconheça que quando comecei não era muito comum encontrar uma mulher neste contexto. Hoje em dia a situação alterou-se e, cada vez mais, as mulheres estão presentes no mundo do futebol o que reflete o gradual reconhecimento das suas competências e remete a questão do género para segundo plano.

Já ouviu comentários desagradáveis?
Há sempre comentários desagradáveis no contexto desportivo, independentemente de se ser mulher ou não. É preciso aprender a conviver com eles ou mesmo a ignorá-los.

E positivos?
Felizmente, mesmo quando há surpresa inicial, acabam sempre por surgir comentários positivos ao meu desempenho e até à forma como lido com os jogadores em termos da minha posição perante a equipa e do meu papel dentro do departamento clínico.

E das mulheres ou namoradas dos jogadores?
É inevitável que as mulheres dos jogadores estranhem ou sintam alguma relutância à presença feminina na equipa, e claro que já aconteceram situações menos agradáveis. Mas, regra geral, elas aceitam a minha presença e compreendem que, apesar da informalidade do futebol, a minha intervenção é profissional e o facto de ser mulher acaba por ser irrelevante.

Qual foi a primeira reação dos jogadores quando viram que este ano teriam uma “mulher massagista”?
Esta é a minha sétima época desportiva, pelo que a maioria dos jogadores já trabalharam comigo nos escalões de formação ou pelo menos já me conheciam neste contexto, por isso a reação foi positiva.

Um massagista é muitas vezes confidente dos jogadores e peça fundamental no sucesso das equipas. Os jogadores falam muito consigo?
Claro que sim. O posto clínico é um local de eleição para os jogadores conversarem e eu faço parte dessa partilha.

Mesmo de assuntos fora do futebol?
O tempo que passamos juntos acaba por proporcionar a criação de laços e, nalguns casos, os assuntos de que falamos suplantam o âmbito futebolístico.

Qual foi o caso mais estranho que apanhou com um jogador?
Não por serem estranhos, mas os casos que se destacam são as lesões graves, nomeadamente ao nível dos joelhos, ruturas musculares ou fraturas e que se contrapõem aos casos engraçados que acontecem nas camadas jovens como o jogador que fez uma entorse ao sair da cama ou até aquele que se enganou no pé que referia como lesionado.

Algum jogador simulou estar lesionado? Em que circunstâncias?
Por vezes acontece. Faz parte da função do departamento clínico ajudar a equipa a reorganizar e “ganhar tempo” no decorrer do jogo e a simulação de uma lesão acaba por acontecer com a cumplicidade do fisioterapeuta.

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