“Esqueletos ficam cá”

Depois das Festas da Cidade 2015, O Almeirinense publica agora a segunda parte de uma entrevista com o Vereador Eurico Henriques. Centra-se agora mais nas questões de fundo da cultura do concelho e revela o desejo que fiquem em Almeirim os esqueletos que estão a ser encontrados nas Escolas Velhas.

No plano pessoal, gosta desta tarefa que lhe está incumbida anualmente?
(Risos). Essa pergunta é engraçada porque todos os dias eu penso nisso. Eu acho que quando faço uma coisa, ou participo numa atividade, eu tenho obrigação de cumprir e responder concretamente àquilo que me é solicitado. Isto é já uma educação pessoal, é uma forma de estar na vida.
Como pessoa, e como cidadão, e neste caso como autarca, eu procuro cumprir com o compromisso que assumi. Eu fui convidado para estar na lista pelo presidente, Pedro Ribeiro, e assumi um compromisso, e a intenção inicial que eu pus era eu não ser pago pela Câmara. Eu estou como vereador sem tempo inteiro, mas com pelouros que é o da Cultura, Turismo e Património Cultural. E é gratificante este tipo de trabalho, só que é muito complicado, porque as solicitações são muitas, as exigências são muitas, e muitas vezes não conseguimos dar de imediato a resposta que seria necessária, e as coisas levam mais tempo do que aquilo que eu poderia desejar em termos de resposta.

Está satisfeito com a resposta que as pessoas têm dado? Qual é o resultado?
Nós começámos por ter este problema de haver pouca frequência, mas também essa pouca frequência aos espetáculos que se fazem tem a ver com a diversidade e também com o gosto das populações, e nós também temos de atender a isso. De qualquer maneira, estamos a verificar que está a haver um crescente de resposta. A nossa publicidade, aquilo que tem sido feito está a resultar. E isso para nós é muito agradável, porque fazer um espetáculo e que temos uma determinada despesa, e chegamos lá e estão lá 70 ou 80 pessoas não é muito e não satisfaz, mas quando estão 200 pessoas é uma grande felicidade, porque estão a responder. Não podemos é deixar de o fazer, considerando que vêm poucas pessoas. Iremos sempre fazendo, e pedindo, e informando e divulgando às pessoas para que possam assistir. Nós temos de ser mais cosmopolitas, também faz parte da vida.

E é para continuar esta aposta? Até porque demorará algum tempo.
Pois, disse bem, é uma questão de educação das pessoas. Nós temos de abrir, temos de permitir que as pessoas tomem conhecimento das coisas e continuar sempre a fazer. Nós fazemos um espetáculo e dinamizamos um espaço que é o cineteatro, e agora estamos também a fazê-lo com o Centro Cultural de Fazendas de Almeirim, e estamos também a negociar com Benfica do Ribatejo. As coisas têm de ir progressivamente. O que acontece é que a Câmara Municipal, ao fazer
um espetáculo, e cobrando o bilhete às pessoas, cobra uma determinada parte da despesa, a outra é da parte do serviço público que nós fazemos. Quanto menor for o peso da parte de serviço público para nós, melhor, porque em vez de fazermos dois ou três espetáculos, podemos fazer seis ou sete. Isto está numa relação da uma parte da oferta que nós fazemos e outra parte na resposta que as pessoas também nos dão em relação a essa oferta que estamos a fazer.

Já houve várias situações em que estavam marcadas mais do que uma atividades no mesmo espaço de tempo ou com um curto intervalo entre elas. Não é preciso evitar estas situações?
É engraçado esse pormenor. No ano passado, vi acontecimentos mais ou menos parecidos, e logo em janeiro eu tive o cuidado de dirigir um ofício dirigido a todas as coletividades que estão na minha área, dizendo que deveriam fazer a informação com tempo das atividades que iam realizar, porque muitas vezes não está em plano e aparece progressivamente. Precisava que nos dessem essa informação com tempo, não só porque disponibilizamos o espaço, como também cedemos muito equipamento para essas atividades, para não haver sobreposições. A Câmara podia dizer que não, mas eu acho que nós não devemos fazer isso porque assim estaríamos a impor condições e na Câmara nós não gostamos desse tipo de papel, as associações é que têm de ter essa noção de tempo.

Em relação à pintura do Francisco Camilo, o que achou?
O Francisco apresentou uma proposta à Câmara Municipal há cerca de um ano e pouco, o Presidente passou para mim e estivemos a ver e a acertar pormenores. E eu chamei-o para ver o que ele tinha, e ele trouxe o desenho que já tinha feito. Nós já tínhamos visto noutras localidades este tipo de murais urbanos, que têm um impacto considerável. Nós negociámos e eu achei de facto que ele tinha qualidade pelo trabalho que me mostrou, ainda mais um indivíduo jovem que estava a concluir o curso de Belas Artes em Santarém, e achei que ele devia ser apoiado e que este projeto tinha pés para andar. Deste modo, aceitámos a proposta dele, foi escolhida a parede do Largo Manuel Rodrigues Pisco porque tinha um maior impacto na entrada de Almeirim da zona sul, mas com uma condição: “eu dou-lhe o tema e você pinta como entender”, e o tema que eu lhe dei foi as caçadas reais ou montarias reais de Almeirim. O início da vila e do concelho de Almeirim foi com o início da Corte que vinha para cá porque eram momentos de lazer e a atividade privilegiada era a caça. Fazia parte do desenvolvimento e das origens de Almeirim. Ficou maravilhoso e agora é para repetir, Fazendas também já quer uma pintura, e com certeza que iremos fazer mais.

Já tem alguma ideia como vão ficar as sepulturas que estão a aparecer nas Escolas Velhas?
Portanto aquilo vai ser levantado e o material vai ser recolhido. A nossa ideia é que pertence a Almeirim e tem de vir para Almeirim, e nós vamos construir as condições para que fiquem cá. Poderemos ter ali no Centro de Interpretação Histórica de Almeirim uma parte de mostra desses materiais. Se em quantidade forem maiores, teremos de ter um espaço específico onde irão ser depositados. Mas a certeza é esta: O que é de Almeirim pertence a Almeirim, e tem de cá estar!

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