Escrever sobre Almeirim – Uma questão de Património Cultural por Eurico Henriques

Se escrevi antes que havia afirmações e escritos que não correspondiam à verdade dos factos e à interpretação correta dos mesmos, agora há que continuar no esclarecimento do que afirmei.

Um dos caminhos para o estudo e pesquisa, com a devida divulgação, é a existência da Dúvida. Já o antigo Descartes falava nesse método. Vem ao caso a questão da Misericórdia de Almeirim. Há referências várias, pelo menos desde o século XVIII, à existência da Casa da Misericórdia e rico Hospital, em Almeirim. No entanto nos estudos e pesquisas que tenho realizado apenas encontrei a indicação de um Hospital no ano de 1514. O rei D. Manuel I, nesse ano, mandou pagar uma determinada importância ao Almoxarife do Hospital de Almeirim, referente a despesas dos anos de 1512 a 1514.

Percorrendo os assentos do Tabelião de Notas de Almeirim, entre os séculos XVII e XVIII, não surgiu qualquer informação, registo ou nota que fizesse alusão à Misericórdia ou Irmandade. No entanto foi possível identificar variadíssimas notas referentes às Irmandades, ou Confrarias, então existentes. Já sabemos que no ano de 1528 foi criada a irmandade de S. Roque e S. Sebastião, posteriormente vai aparecer com a designação de irmandade do Senhor S. Roque. Durante os anos de seiscentos surgiram as irmandades de Nossa Senhora da Purificação, do Divino Espírito Santo [é possível que já funcionasse no final do século XVI], das Almas e de Nossa Senhora do Rosário. No século dezoito acrescentam-se as Irmandades do Santíssimo Sacramento, do Senhor Jesus dos Paços, de Nossa Senhora do Calvário e a Ordem Terceira de São Francisco, também designada como Venerável Ordem Terceira da Penitência.

Atendendo à população do concelho, com a área restrita da freguesia de Almeirim, que estaria pelos 302 vizinhos [fogos], sendo maiores 881 e menores 94, como refere o Prior Gaspar Coelho da Silva, na resposta ao inquérito sobre a situação e danos ao tempo do terramoto de 1755, podemos verificar da força do associativismo da época e do conjunto de irmãos que deveriam distribuir-se pelas mesmas. De acordo com os registos havia os que faziam parte de mais de uma irmandade. Nesta relação do Prior de Almeirim não há qualquer referência a uma Irmandade da Misericórdia, embora não refira a do Espírito Santo. Sucedia então que a Ordem Terceira, criada por Breve do Papa Bento XIV, se tinha instalado sobre os bens que pertenciam à dita Irmandade do Espírito Santo. Não encontrei, ainda, as razões desta alteração. Só em 1836, na relação do Prior de Almeirim, José António de Oliveira Barreto, é que surge a informação sobre a situação referida. Na Corografia Portuguesa do padre António Carvalho da Costa, de 1712, refere-se que tem Casa de Misericórdia e rico Hospital, obra de D. João III. Ora, como já referi, nos registos de escrituras, doações, procurações, cartas de perdão, empréstimos, testamentos e outros, efetuados pelo Tabelião de Notas e do Público da vila de Almeirim, neste ano, nos anteriores e nos seguintes não há qualquer referência a esta instituição. O Padre Inácio da Piedade de Vasconcelos, autor da História de Santarém Edificada, no título da vila de Almeirim, repete estas informações. O que já não diz o Prior em 1758. Já no século XIX, ano de 1858, o médico do partido municipal, Tiago do Couto, refere que não havia qualquer Misericórdia nem Hospital, nem sequer memória de alguma vez ter existido. O mesmo sucede com informações do Administrador do Concelho para o Governador Civil. Nos seus Subsídios para a História da vila de Almeirim, Frazão de Vasconcelos, em 1965, repete o que surge na Corografia Portuguesa, há Misericórdia. Mas onde estaria? Atendendo às informações factuais não se encontra nenhuma que o refira. Acrescentemos que a Universidade Católica deu início a um trabalho de investigação aprofundado sobre as Misericórdias. O seu Centro de Estudos de História Religiosa publicou em 2005 a História das Misericórdias portuguesas. No volume IV, sobre o período de D. João III a D. Henrique, não há qualquer referência a uma Misericórdia em Almeirim, embora surjam todas as que já existiam no país.

Como conclusão e de acordo com o que já tive a oportunidade de escrever [Henriques, 2006] não houve nenhuma Irmandade de Misericórdia em Almeirim. Defender o Património e a Cultura é procurar a verdade e não esquecer o tempo em que vivemos.

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