Zé Bonito há 52 anos a fotografar

Zé Bonito já completou meio séculos a tirar retratos. Há no concelho várias gerações que só conheceram um fotógrafo que começou como barbeiro. Hoje mostra-se desiludido com o rumo que o sector está a levar, acreditando ainda assim na recuperação.

Como começou?
Eu aprendi fotografia em Grândola, não foi de qualquer maneira, e depois quando casei vim para Almeirim e como não existia aqui nenhum fotógrafo, fiquei eu.

Já existia um gosto pela fotografia? Por isso é que foi aprender?
Foi de repente. Um colega de Grândola chegou a mandar-me uns rolos para eu vender em Muge (era aí que eu vivia). No casamento de uma prima minha eu pedi uma máquina emprestada a esse colega de Grândola e fiz as fotografias. Ele disse “ você tem que ser fotógrafo, você tem jeito para isto”. Pronto, foi assim.

O que é que tinha feito antes?
Eu era barbeiro (sorrisos). O meu pai era barbeiro e eu segui-lhe as pisadas.

Depois do casamento da prima, as coisas foram crescendo?
Foi até hoje. Cheguei a ir ao palácio fotografar a Marquesa e as gerações seguintes até agora. Depois da morte da Marquesa, a senhora Condessa continuou a vir aqui, já cá vieram os filhos.(pausa) Fui tentando aprender sempre.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo?
Saber olhar as coisas e a luz ajuda. Para ser um bom fotógrafo é preciso ter técnica, que se vai adquirindo embora uma parte nasça com as pessoas.

A fotografia mudou muito neste 52 anos?
Mudou muito… o analógico é sempre o analógico. Aguentava tudo. Enquanto sobre o digital eu costumo dizer que é uma porcaria, porque vê aquilo que nós não vimos. Dou em exemplo, uma noiva tem um fato branco e se tiver uma coisa vermelha pronto nós não conseguimos ver, mas fica na fotografia… hoje é mais fácil

É mais fácil ser um bom fotógrafo?
Não, é mais fácil ser fotógrafo, bom não. Eu e os colegas da mesma idade íamos para um casamento e levávamos rolos de 12 fotógrafos e tínhamos que os ter todos. O fotógrafo quando ia tirar a fotografia tinha que a ter na cabeça. Hoje não… e eu chamo-os de “fotografezitos”, porque são como amadores! Em vez de tirarem 1, 2 ou 3 fotografias vão para um casamento e tiram mil fotografias e duas mil para quê? Espreme-se aquilo e fica em nada. Também o que mudou é que o fotógrafo não tem nada que fazer, tem é tecnologias, os amadores fazem tudo em casa, as impressoras e até o estado se pode dizer que é o nosso maior concorrente.

Diz isso porque antes tinha que se tirar as fotografias tipo passo?
Sim, mas eu não admito que seja assim. Se chegar lá um estrangeiro que reside em Portugal para renovar o passaporte tem que vir ao fotógrafo se for um português pode tirar lá. Depois temos o bilhete de identidade que devia ser facultativo levar ou não as fotografias. No cartão de cidadão até existe uma coisa, uma pessoa se tiver acamado eu vou lá tirar a fotografia… já tenho ido. Se eles não conseguirem tirar a um bebé, ele tem que vir aqui. Então, se serve para umas coisas
porque não serve para outras? O estado está a roubar o nosso trabalho.

A nossa geração deixou também de revelar fotografias. Não está em causa a história?
Isso é uma realidade. Os arquivos digitais podem perder-se para sempre. A nossa memória digital poderá perder-se. Mesmo que no papel a fotografia esteja muito mal, nós conseguimos sempre melhorar ou recuperar. A minha mulher é que faz esse trabalho e chega a fazer autênticos milagres.

Qual é a área do negócio que vai dando?
Casamentos não há, batizados cada vez menos porque as pessoas não fazem filhos (sorrisos).

Podemos dizer então que há uma crise?
Sim, muito enrascada mesmo. Por exemplo na altura que no anterior governo colocaram as fotografias no cartão de cidadão tiradas lá por eles, nesse ano fecharam 700 casas de fotografia e 10.000 pessoas foram para o desemprego. Isso acarretou uma despesa para o estado e há colegas que ainda estão a pagar máquinas dessa altura. Eu tenho aqui uma máquina que custou 26 mil contos, e está parada.

Acha que vai melhorar?
Eu acredito que sim, mas já não é na nossa geração. Quando as pessoas começarem a ver como era antigamente, é difícil prever mas penso que sim.

Tem 52 anos de atividade. Vai trabalhar até quando?
Vou trabalhar até conseguir. Não sei fazer mais nada.

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