As transformações possíveis

Numa região, ou num momento, de possibilidades podemos falar ou melhor, escrever, sobre questões possíveis.

Nesta breve intervenção gostaria de abordar o que considero importante: a ideia ou a construção de uma ideia da identidade e realidade da terra em que vivemos. Todos falamos de Cultura. Talvez seja igualmente importante falar de processo cultural ou de normas de execução permanente de interpretação de valores culturais. Quero expressar claramente a mais recente conclusão a que cheguei: tem-se colocado na rua um conjunto de afirmações e certezas sobre as origens e razões de desenvolvimento local que não correspondem à verdade dos factos. Uma autarquia responsável é a que divulga e promove ações e conhecimentos fiáveis. Sendo que por fiáveis se entenda realidades que são comprovadas através de factos que lhes dão o sentido da verdade. Eu tenho uma constante preocupação que se relaciona com a descoberta da verdade. É óbvio que é uma tarefa atribulada porque a verdade está dependente de vários fatores, sendo que o que conseguimos é apresentar uma forma pessoal de entendimento. Mas comprovada e certificada.
Numa pesquisa recente foi possível localizar um conjunto de documentos relacionados com o Paço de Almeirim. Estes documentos acrescentam uma informação muito importante para percebermos a evolução das edificações reais almeirinenses mas, igualmente, para se acompanhar a evolução urbana da cidade. Estando o país subordinado à coroa espanhola sucedeu que, no ano de 1601 o rei Filipe III, de Espanha e II de Portugal, manifestou o desejo de visitar o país. Para esse efeito solicitou a informação sobre o estado das instalações reais onde pretendia ficar: Paço da Ribeira, em Lisboa; Paços de Sintra, de Salvaterra, de Almeirim e da Ribeira de Muge, incluindo os aposentos reais que se encontravam junto ao Convento de Nossa Senhora da Serra [hoje Convento da Serra]. O que será surpresa será a indicação de haver aposentos régios no Convento da Serra. Talvez fosse melhor referir meia surpresa pois que há época de D. Sebastião era hábito deste monarca passar longos períodos no dito Convento, quando se encontrava em Almeirim. A resposta do responsável pelas Obras dos Paços Reais, Gaspar de Carvalho, com a informação sobre o estado de conservação dos mesmos faz-se entre 1601 e 1603. Após receber as informações o rei determina as importâncias a utilizar nessas recuperações: para o Paço da Ribeira, em Lisboa, são duzentos mil reis, para o de Sintra cento e cinquenta mil, para o de Salvaterra oitenta mil e para o de Almeirim e Ribeira de Muge duzentos mil. Importância avultada que significou um conjunto de grandes obras de beneficiação. Se tivermos em conta o desenho do Paço de Almeirim que se encontra na Igreja de S. Vicente de Fora, em Lisboa, feito na segunda década de setecentos por determinação de D. João V, que manda instalar um conjunto de azulejaria representativo das instalações reias portuguesas, talvez como forma de nacionalizar aquele espaço, que fora mandado edificar por Filipe I, podemos chegar ao conhecimento da evolução que a cidade sofreu.
Hoje temos uma época diferente. A cidade faz 25 anos. Anteriormente vila, nos princípios das origens o “Logo” de Almeirim.

Eurico Henriques
Historiador

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