CARNAVAIS PARA RECORDAR…. por Augusto Gil

A nossa Banda organizava os cortejos já nos anos 60, os Bailes eram uma maneira mais própria de juntar muitos denominados matrafões e matrafonas que quando chegava a meia-noite lá tinham que tirar a caraça para a rapaziada os reconhecer. Tínhamos naquele tempo um hábito bem audaz. Fazíamos um grupo e devidamente mascarados fazíamos o dito assalto de Carnaval a uma casa escolhida para o efeito, que o anfitrião nem sabia para o que estava guardado. Era por vezes o fim do mundo que saíamos a toque de caixa cá para a rua.

A partir dos anos 60 já os corsos apareciam ali à volta do Jardim e da Praça, o desfile era feito e premiar os carros alegóricos mais bonitos. As escolhas do primeiro prémio eram sempre muito dificultadas porque havia sempre aqueles que puxavam a brasa à sua sardinha. E o Carnaval era isto ou pouco mais. Mas o ponto alto era os bailes à noite, no Ónião, na Banda, no Ramalho, no Sr. Ribeiro, casas particulares, etc. Não era possível dançar bem porque o espaço era mais para encontrões e poucos pedidos de desculpa, todos se divertiam, sob o olhar atento das mães que acompanhavam as filhas e aguentavam penosamente até ao fim do baile sentadas, o barulho da orquestra ou do acordeon e o calor, porque a afluência era muita e não havia ventilação. Recordo já nos finais dos anos 60 num desses bailes no Domingo Gordo, onde por acaso nós, os The Tintoll´s abrilhantámos muitos bailes por várias vezes, estando tudo animado, o mestre Amadeu que tomava conta na altura do Bar da Banda, subiu ao palco interrompeu-nos e acercou-se do microfone e pediu silêncio, porque queria fazer duas comunicações muito importantes. Alguns dos presentes pensaram numa má notícia. Respirando fundo, mais ou menos foi assim: “Atinção, muinta atinção… agradeço à rapaziada que tá aí ao fundo da sala encostados à parede, o favor de arecuar um passo p´ra trás visto os bailantes serem muitos e já n’a há espaço pá balhação… a outra coisa, qu´ria informar tamém que foi encontrado aqui um objecto de valor que será entregue a quem o reclamar, provando que lhe pertence… e obrigado, siga o ‘balho’”. As raparigas afagaram de imediato o seu fio ou alfinete d´ouro, os brincos, certificando-se da sua existência: os rapazes além do relógio de pulso nada mais usavam.O baile lá continuou e instalou-se a expectativa: o que seria que tinham encontrado? Pelo modo era coisa de valor, dizia-se em voz baixa. Mais apelos iam sendo ouvidos e agora já com mais pormenor: mais uma vez o mestre Amadeu lá foi acima do palco… “Queremos entregá-lo ao legítimo dono, só terá de provar que é mesmo seu. Eu penso que nenhum de vós vai dizer que é vosso sem ser, até porque está aqui a Autoridade, a Guarda Republicana…”, que até gostaram da referência. O intervalo do baile aproximava-se e chegou o momento tão ansiosamente esperado: – “Como até agora ninguém veio reclamar o objecto, que é de valor, eu vou mostrar. O dono vai aparecer porque ao vê-lo conhece logo que é seu, mas não se esqueça, tem de provar que realmente é”. O espaço entre ele e o público era cada vez mais diminuto, todos ansiosos empurrando-se para verem bem de perto. Então ele com uma expressão muito séria, exclamou: “O objecto é este!”. E erguendo bem alto o braço mostrou na mão uma parelha de cornos de Carneiro. Ouviu-se um “Oh” de espanto e decepção e toda a multidão masculina que há pouco se acotovelava, recuou subitamente em silêncio… As espectadoras sentadas soltaram em uníssono uma gargalhada geral! Ele mantinha-se firme no palco com os cornos na mão e sem se rir ainda perguntou: “Então não pertence a ninguém? Têm vergonha de os vir buscar? Então aí vai eles…” e atirou-os para o meio da sala. Alguém os apanhou que por acaso nem era de cá de Almeirim. O Baile lá recomeçou com o único e habitual passo-doble que tocávamos e lá continuámos noite fora que finalizou pelas tantas da manhã.

Havia sempre aqueles que puxavam a brasa à sua sardinha…

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