Alpiarcenses pelo mundo: A vez de Tiago Rodrigues

Tiago Rodrigues é um emigrante alpiarcense de opiniões vincadas que se fixou no município espanhol Cedeira. A sua franqueza aguerrida é espelho da terra que o viu nascer há 30 anos e o município espanhol que o apaixonou além fronteiras partilha muitas caraterísticas com aqueles que deixou para trás.

Quais são as memórias que guarda na sua infância em Alpiarça?
A minha infância é repleta de memórias e foi desfrutada no bairro do ineia mais conhecido por hillstreet, onde se juntava um grande número de jovens com as suas bicicletas preparados para essas grandes aventuras na barragem de Alpiarça, ou no parque de campismo, dentro da piscina todo o dia. Jogar, jogar, jogar, naquela altura não tínhamos telemóveis, mas sabíamos sempre onde nos encontrar, na porta da loja da Marimilia, o ponto de encontro durante muitos anos. Íamos para o parque junto ao bar Flipper e ali nós juntávamos ainda mais rapaziada, podia escrever um livro com as memórias passadas no ineia….

Porque decidiu emigrar? Porquê Espanha, particularmente a Cedeira?
Decidi emigrar para conhecer o mundo, para conhecer novas caras. Alpiarça fazia-se pequena para mim, desde pequeno sempre dizia à minha mãe quando tiver idade vou para Espanha trabalhar, ela ria-se, claro. E a 13 de novembro de 2006, aí vou eu, o primeiro destino foi Pamplona mais conhecido como Navarra, país Basco. Porquê Espanha? Não sei, foi o primeiro lugar que queria conhecer. E porquê Cedeira? Antes de cair na tentação do encanto da Cedeira, andei um ano e pouco por todo o lado: Burgos, VItoria, San Sabastian, Irun, Asturias, Lion, Burela, Ribadeo, Foz, Vilalba. Uma vez mandaram-nos trabalhar na Cedeira, parece que foi ontem que descíamos a costa e ali estava uma pequena povoação com uma praia. Lembro-me do que disse ao meu companheiro já não me movo daqui. Ficámos lá durante mês e meio em trabalho e passados 3 dias os locais já nos davam os bons dias, saudavam-nos com um sorriso na cara, gente que não conhecíamos. Fomos muito bem recebidos quer por jovens quer pelos mais velhos…

Como português, sentiu-se bem recebido em Espanha? Alguma vez sentiu-se descriminado? Se sim, quando e porquê?
Os primeiros 6 meses foram um pouco complicados. Em Pamplona são um bocado reservados, quando percebiam que era português não me ajudavam nada, mas pronto pouco a pouco íamo-nos ambientando. Descriminado não, nunca tive esse problema.

Descreva-nos um pouco a cidade da Cedeira: que paisagens tens a seu redor? Quais os melhores petiscos ou pratos típicos que se podem comer na Cedeira? Como descreve as pessoas da Cedeira?
Cedeira é acolhedora, com praias, muitas praias, pequenas e grandes, montes de eucaliptos, tem uma grande exportação de madeira, e uma das maiores e mais bonitas costas da Europa: a GARITA DE HERBEIRA. As comidas, a típica tortilla de batatas com cebola que, meu deus, a maior que vi pesava 4800kg no Mesón Marieta, os chipirones a la plancha, caldo galego e um dos pratos que tem muita fama, o marracho que é tubarão, todo um manjar…
As pessoas da Cedeira? Do melhor! Sinto-me mais querido na Cedeira que no seio do meu próprio povo português. Quando passeias pela rua não os vês tristes, vão com um sorriso na cara, são felizes, alegram-se que a tua vida corra bem. Se te faz falta alguma coisa estão lá para ajudar no que seja, eu sinto-me como se nascera aqui, como se levasse toda uma vida aqui. Na Cedeira as pessoas são geniais e autênticas. Dão-te os bons dias, as boas tardes e as boas noites. Paras para falar com eles e acabamos sempre a falar do tempo, é inevitável, há sempre um “desculpa” ou um simples “obrigado”, são gente educada. Há de tudo como em todo o mundo, em cada feriado fazem uma festa, um dia santo, outra festa e ali nos juntamos todos.

Tem saudades da terra que o viu nascer?
Não! Tenho sim muitas saudades da minha família, bem, parte dela, e dos meus amigos, esses levo-os no coração todos os dias.

Pensa um dia regressar de vez a Portugal?
Não creio que isso aconteça, não sei o futuro mas não o tenho destinado.

Aconselha a emigração a outros jovens portugueses que se debatem com falta de emprego ou condições de trabalho precárias?
Por mais que me custe a mim ter saudades dos meus, sim aconselho. Portugal está acabado, e cada vez pior. Os inícios no estrangeiro são difíceis, também ninguém disse que era fácil mas quando procuras o que queres fazer e sabes pelo que queres lutar, se tiveres oportunidade, força.

Receia que Portugal fique cada vez mais deserto com a crescente vaga de emigração que se tem verificado?
Sou português, mas o meu país não é Portugal. Um país que não luta pelos jovens, que não os ajuda em nada, um país que basicamente se está borrifando para a emigração dos jovens. O nosso lar é onde nos sentimos em casa. Não temos de viver como mandam os altos cargos.

Para terminar, o que dá mais saudades de Portugal?
O bacalhau à brás que a minha mãe faz, esses fins de semana de camping no Patacão, tardes de sol a beber umas minis com a família e os amigos.

 

Cláudia Tomé

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