João terminou a licenciatura depois dos 40 e com boa média

Já depois dos 40 João Isabelinha voltou à escola e logo ao ensino superior para se licenciar. Um exemplo de perseverança e crer para os mais novos.
Acabou a licenciatura em Educação Social com 16,2 valores, depois de já “tarde” ter voltado às salas de aula.

O que o levou a estudar aos 40 anos?
Apesar de ter concluído o curso aos 46 anos, o meu percurso formativo teve início quase uma década atrás.
Tudo começou pela perceção do desenvolvimento da nossa sociedade: quem não possuísse determinadas habilitações ou competências, teria sérias dificuldades em acompanhar o progresso e as tendências que lhes eram e são inerentes. Assim sendo, e numa primeira fase, comecei por frequentar um curso de formação de adultos que tinha por base os conhecimentos e competências que um indivíduo adquiriu ao longo da vida pessoal e profissional (o antigo processo de RVCC), que me conferiu a equivalência ao 9º ano de escolaridade. Contudo, tal curso ficou um pouco aquém das minhas expetativas, um pouco à mercê dos conteúdos serem vocacionados para quem pretendia obter apenas tal certificação para progresso na carreira profissional (tratando-se de baixos escalões, como é óbvio), e não contemplava um plano de estudos para quem verdadeiramente tinha ambição de prosseguir estudos, como era o meu caso particular.
Porém, novo desenrolar no meu processo formativo se dá com o ingresso num curso de educação e formação de adultos ministrado por um conceituado estabelecimento de ensino oficial na cidade de Santarém, mais propriamente no antigo Liceu Nacional Sá da Bandeira, hoje Escola Secundária com o mesmo nome. Uma vez ali chegado tomei contacto com uma realidade completamente diferente daquela que tinha vivenciado até então. Os conteúdos já eram mais adequados a quem ambicionava adquirir, não aquela aprendizagem mecânica que interessa ao indivíduo apenas para obtenção de uma certificação, mas antes uma aprendizagem significativa, que é aquela que perdurará no reportório cognitivo do indivíduo ao longo de toda a sua vida.
Mas como a sede do conhecimento humano é insaciável, parti para a próxima etapa que culminou com o meu ingresso num curso superior. Numa primeira fase, comecei por frequentar aulas das chamadas Unidades Formativas de Curta Duração (UFCD’s), onde houve um aperfeiçoamento de nas áreas onde se registaram algumas lacunas nas formações anteriores, como era o caso das línguas estrangeiras e da informática na óptica do utilizador (TIC), as quais conclui com o respetivo aproveitamento e certificação. Numa fase subsequente, fiz uma preparação para o exame de admissão de forma autodidata, com o recurso a manuais das áreas curriculares requeridas pelo curso que ambicionei frequentar e que acabei por concluir.

O que escolheu?
O curso em que recaiu a minha escolha foi Educação Social.

Porquê?
A escolha deste curso deve-se um pouco, ao facto de ser um cristão praticante, onde os principais valores são a partilha, a solidariedade e misericórdia. Neste âmbito, dois factos foram preponderantes para despertar o desejo de cursar a área social: a minha participação, ainda que de forma pontual e de pouca duração, num movimento adstrito à Igreja Católica que presta auxílio à comunidade de Almeirim, e também o facto de ser presença assídua nas festas/encontro dos Missionários Combonianos. Estes fenómenos suscitaram um especial interesse na causa pública de proporcionar um mundo melhor para os mais desfavorecidos e em extrema vulnerabilidade social, seja na nossa comunidade ou a nível global, considerando que aqueles missionários atuam em regiões com muito baixo índice de desenvolvimento social e humanitário, aos quais não podia ficar indiferente.

O ingresso no ensino superior foi através do sistema de maiores de 23?
Tendo em conta que as formações por mim frequentadas não atribuíam nota de curso final, não tinha possibilidade de apresentar classificações que me posicionassem em relação aos candidatos do ensino regular. Embora tenha sido criticado pela opinião pública aquando da sua implementação, o facto é que a prova de acesso ao ensino superior a maiores de 23 anos veio abrir novos horizontes a quem pretendeu tirar uma especialização numa área, que por vezes já trabalhava, ou então uma formação em novos âmbitos de atuação, sendo portanto um elemento potenciador de novos desafios, aos quais muitos indivíduos responderam, levando em consideração o número de profissionais certificados desde a criação deste sistema.

As provas foram acessíveis?
As provas tiveram uma acessibilidade razoável, visto que qualquer candidato com um reportório cultural médio conseguia superar as questões contidas nos respetivos enunciados. É claro que para o meu sucesso muito contribuiu o empenho em estudar para as mesmas provas, sobretudo ao nível do conhecimento comunitário (União Europeia), língua Portuguesa, Ciências da Natureza e cultura geral.
Que habilitações tinha antes deste curso superior?
As habilitações que possuía eram aquelas que já relatei: curso equivalente ao 12º ano de escolaridade. No entanto , todo o acervo literário, técnico e cultural adquirido ao longo da minha existência foram também levados en conta. Muitas dessas competências foram determinantes para a frequência deste curso.

Como foi o regresso à escola?
O regresso às aulas foi acompanhado de enorme expectativa: nunca tinha estado num estabelecimento de ensino superior. Tudo era diferente, quer ao nível de instalações, quer ao nível de responsabilidades. Ao circular pelos corredores daquela imensa escola no primeiro dia de aulas e contemplando a prática das praxes académicas, tomei a verdadeira noção do meio em que estava inserido.

 

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Quais foram as maiores dificuldades?
As maiores dificuldade incidiram no rigor que os trabalhos académicos são revestidos. Apesar de haver total empenho dos professores nos ciclos de ensino anteriores, o facto é que havia alguma permissividade em relação à elaboração dos trabalhos. Ora, no ensino superior tudo muda: ou se trabalha de acordo com as “regras”, ou se apanha nota negativa.
Por outro lado, ao nível económico também senti enormes dificuldades. Por exemplo, no que se refere a meios tecnológicos: para fazer os trabalhos de TIC, por diversas vezes tive de deslocar-me de bicicleta ao planalto scalabitano para fazer recurso dos computadores disponibilizados, quer pela Escola Superior de Educação, quer pela vizinha Escola Superior de Gestão e Tecnologia, pois o dinheiro para as viagens entre a minha residência e o complexo Madre Andaluz (local onde as referida escolas estão implantadas) já estava todo contado ao cêntimo. Não obstante, também a impressão dos textos de apoio foi uma das maiores dificuldades, pois ao ver os meus colegas com todos os referidos documentos na sua posse, muitas das vezes teve de acompanhar o teor das aulas através do computador, que além de ser mais difícil acompanhar o raciocínio da matéria, estava a sobrecarregar o meu humilde e obsoleto computador.
Contudo, no ano final já pode contar com algum apoio de alguns docentes que disponibilizaram parte do seu plafond disponível na reprografia para me facilitar a impressão de alguns documentos (poucos), além de me ser facultado a entrega dos trabalhos por via eletrónica, e quando este processo não era possível, toleravam a entrega dos mesmos com uma simples capa adquirida nas lojas de chineses, enquanto os meus colegas usavam fabulosas encadernações, que só o seu aspeto gráfico era logo meio trabalho feito.

Foi difícil?
Pelo que já expus, as dificuldades foram uma constante. Felizmente, esta foram sido debeladas à medida que iam surgindo, graças a uma turma formidável que sempre me apoiou, bem como velhos amigos de infância, que sabendo das dificuldades não se pouparam a esforços para me auxiliarem.
No que se refere a dificuldades de cariz académico, poder-se-á dizer que tive por minha conta e risco. Quando sentia adversidades nos trabalhos não hesitava em pedir auxílio. Muitas das vezes o meu pedido era atendido, mas de outras, nem sempre tinha a ajuda solicitada. Apesar do companheirismo que tive oportunidade de vivenciar, no ensino superior reina o velhinho aforismo: “cada um por si, e Deus por todos”.

Chegou a pensar em desistir?
Embora me custe a admitir, mas a verdade é que nos primeiros momentos do primeiro semestre pensei em “atirar a toalha ao chão”. Por felicidade minha tive uma colega (daquelas com um “C” maiúsculo) que me deu todo o apoio psicológico. Por ironia, essa mesma colega foi a primeira a desistir do curso por vicissitudes de ordem familiar. Foi uma pena, era mesmo uma boa colega.

Conseguiu fazer todas as cadeiras sem ir a exame?
Por misericórdia de Deus, a palavra exame foi vocábulo que não chegou a entrar no meu currículo académico. Este facto foi o corolário de toda a minha dedicação e humildade. Sempre que tinha um trabalho para fazer, tratava logo de fazer uma prospeção da matéria existente em ordem ao tema do mesmo. Tal estratégia me possibilitava algum tempo para estudar para a realização dos testes de avaliação por frequência. Infelizmente tive colegas que reprovaram por estarem a acabar trabalhos na véspera dos testes ao invés de estarem a estudar a respetiva matéria.

Alguns alunos olhavam para si e mostravam-se surpreendidos pela idade?
Tal facto não se verificou. Por mais estranho que pareça, a minha idade encontrava-se numa faixa etária mediana: se havia alunos mais novos, a verdade é que também se registava a frequência de alunos com mais idade que eu. De recordar que fiz o meu percurso no regime pós laboral, sendo por si só um regime muito heterogénio no panorama etário.

Era mais velho que alguns professores?
De facto, também existe uma heterogenidade etária no que respeita aos docentes da escola. Se por um lado fui contemplativo quando ouvia as aulas de professores com uma carreira já extensa e recheada de investigações e publicações académicas, também não é menos verdade que pode testemunhar o carinho de quem empenhava todo o seu carinho em auxiliar os alunos nas suas dificuldades, apesar de serem de um grupo etário inferior à turma pós laboral. Tanto uns como outros, todos me transmitiram grandes e valiosos ensinamentos e valores.

Terminou com que média?
Terminei o curso com uma média de 16,2 valores numa escala de 0 a 20. Tenho a plena consciência que não foi uma média excecional, mas foi a possível de alcançar. Se na verdade tive unidades curriculares que me foram excecionalmente favoráveis, o facto é que noutras o meu desempenho não foi o que ambicionei. Contudo, tenho a convicção que foi uma boa média, uma vez que na turma fui o segundo discente na classificação de nota final de curso.

E agora…
De futuro, os meus planos são de dar continuidade aos meus estudos. Apesar de ter 46 anos, não me sinto limitado nas minhas faculdades de aprendizagem. Assim haja disponibilidade económica para prosseguir na minha caminhada.

Está a ser difícil entrar no mercado de trabalho?
Para a entrada no mercado de trabalho na área da minha formação, dois fatores assumem primordial preponderância: a idade e o género. Infelizmente na nossa cultura uma pessoa acima dos 35 anos já se apresenta como uma pessoa velha para trabalhar, não se levando em conta todo o seu referencial de competências adquiridas ao longo da vida. Facto contrariado nas culturas nórdicas, onde a rotação profissional do indivíduo é valorizada como uma verdadeira mais valia. No que concerne ao género, também no nosso meio sociointerventivo se desenvolveu a cultura que esta é uma área vocacionalmente feminina. Em muitos contextos institucionais, o profissional do sexo masculino é percecionado como um intruso senão mesmo como objeto de repulsa.
São mentalidades como estas que urge em desconstruir. Se na área da saúde (enfermagem) que era até à bem pouco tempo tendencialmente um campo de atuação feminino, o profissional masculino conseguiu integrar-se nessa mesma área e com uma enorme aceitação. O mesmo terá de acontecer na área social, tal como aconteceu no ensino primário e outros setores.
Tenho esperança, e essa é a ultima a desfalecer. Que o Senhor me acompanhe nesta minha caminhada.

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