Alpiarcenses pelo mundo: A vez de Vânia Mira

Luanda não é o primeiro contacto que Vânia Mira, de 31 anos, teve com o estrangeiro. No passado fez algumas campanhas de curta duração na Holanda sem nunca chegar a criar laços com o país. A capital de Angola, as suas praias e encantos, são outra história.

Que memórias guarda da sua infância em Alpiarça?
Recordo-me aí a partir dos oito, nove anos, brincava com os meus vizinhos, estávamos na rua, uma das brincadeiras era o esconde-esconde. Entretanto, infelizmente, quando tinha dez anos os meus pais separaram-se e tive de dar mais apoio ao meu irmão [de quatro anos]. Também fui muito precoce, comecei a namorar aos 12 anos, ou seja neste momento tenho 19 anos de namoro [risos].

Que motivo a levou a emigrar? Porquê Luanda?
O meu pai foi primeiro [para Luanda], entretanto surgiu uma proposta de trabalho e o meu namorado foi ter com ele. Infelizmente as coisas com a legalização não correram como ele queria e, para não perder o emprego, optou por não vir [a Portugal]. Nessa altura pensei “ok, tu não vens cá, eu vou para aí com a nossa filha” e, como eu costumo dizer, a minha filha é a minha bagagem extra, para onde eu vou, ela vai.

Por falar na sua filha, é verdade que adotou uma criança em Luanda?
Não adotei mas estou em processo de adoção. Isto é uma ideia que já vem de há algum tempo. Deixei os nossos contactos no lar das meninas de Santarém (Lar de StºAntónio da Cidade de Santarém) há três anos e até hoje nunca obtive uma única resposta.

É fácil arranjar emprego?
É, no fim de lá estar, sim. Fui a uma entrevista, consegui arranjar emprego numa creche, para a parte da receção e apoio às salas [de aula] e a minha filha estava comigo. Procurei mais dentro da área da educação mesmo para estar um bocadinho mais em contacto com ela e é uma coisa que gosto porque aquilo que eu queria seguir era Assistente Social.

Acha que é exagero dizer que Luanda não é uma cidade segura?
Para ser sincera, sou muito aventureira (…) mas no início tinha medo de sair à rua. Para nos deslocarmos até à creche eu cheguei a andar de candongueiro com a Martinha e a mochila que utilizava para levar a minha carteira, o meu telefone, era a mochila da escola minha filha. No entanto, até hoje, ainda nunca presenciei um assalto [em Luanda], apenas uma ou outra situação de desacatos mais violentos entre os locais.

Sentiu-se bem recebida lá?
Fui muito bem recebida, as pessoas ali são muito dadas. A única vez que me senti insultada, curiosamente, foi por um branco porque entrei na estrada um bocadinho dentro da faixa dele e chamou-me um nome utilizado lá: “olha a pula!” – que é o nome que eles dão aos brancos, se que ele próprio era branco [risos].

Como descreve Luanda?
Tem ótimas praias e clima tropical. A primeira vez que saímos do avião o calor é de uma intensidade tão forte que parece que se entranha logo na roupa. Um dos pratos típicos lá é a mumba de galinha e a fuba.

Luanda, é de vez ou apenas uma passagem com vista a um regresso definitivo a Alpiarça?
Eu acho que não se consegue ter um estilo de vida em qualquer outra parte do mundo como em Angola. Sinto que [Portugal] não é um país estável em que possa mais tarde dar uma vida melhor à minha filha. Se conseguisse fazer facilmente transferências bancárias para Portugal para pagar as contas cá, coisa que de momento não é sequer possível, para mim não era uma passagem, era para ficar mesmo. Só em ultimo caso regressava de vez.

Receia que o seu país e, em particular, a sua terra, fique cada vez mais deserto com a crescente vaga de emigração que se tem verificado?
Há sempre jovens que ficam e criam aqui família, há sempre aqueles que pensam “esta é a minha terra, eu não vou sair” ou simplesmente ficam porque não têm espírito de emigração. Penso que não seja uma grande preocupação.

O que lhe deixa mais saudades em Alpiarça?
É cá que fica parte da família. Infelizmente não tenho os meus avós nas melhores condições e é isso que me custa mais. Também sinto falta da bela da canjinha e de uma vitrine cheia de bolos [risos], temos alguns padeiros e pasteleiros portugueses lá mas nunca é a mesma coisa.

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