Alpiarcenses pelo Mundo: A vez de Eduardo Almeida

Eduardo Almeida ou “Pirinhas”, admite que não teve uma infância fácil e por várias vezes deixou-se levar pela emoção ao recordar o passado e aqueles que deixou quando rumou ao sudeste Brasileiro e se fixou no município Presidente Bernardes em São Paulo.

Que memórias guarda da sua infância em Alpiarça?
Os amigos da escola e a nossa cidade humilde. Lembro-me de sair da escola e ir para os treinos, de me divertir muito nos jogos, aos sábados e domingos. Nas noites de verão reuníamo-nos ao pé dos “Águias” e ficávamos a conversar. Amo demais Alpiarça!

Quando e por que motivo emigrou? Porquê o Brasil e particularmente São Paulo?
Eu escolhi o Brasil porque conheci a minha esposa [brasileira] pela internet. Como as coisas aqui estavam a ficar muito complicadas (a nível pessoal e financeiro) lá, tinha a facilidade da língua e de arranjar emprego. Por saber que deixava cá a minha família foi uma decisão muito difícil, mas tive muito apoio por parte dos meus grandes amigos: Jorge Couto e a irmã Anita, Fábio Capitão, João Ramiro, André Grilo, entre outros; peço desculpa se me esqueço de alguém.

Como descreve São Paulo?
São Paulo é a segunda maior cidade do mundo, tem muita gente e eu, quando cheguei, tinha bastante medo dos níveis de criminalidade do Brasil, mas contei com o apoio da minha esposa, que tem sido o meu anjo da guarda, pois nunca me deixou faltar nada. Quanto à gastronomia, a dificuldade para mim é que os brasileiros comem arroz e feijão em todas as refeições, mas também há muito boa comida, muitas variedades de carnes, muitos doces e queijos caseiros, mas acima de tudo muita variedade de frutas. Para os brasileiros tudo é motivo de festa e há sempre o famoso churrasco. Carne de jacaré e até mesmo de capivara são manjares de Deuses .
A rivalidade entre portugueses e brasileiros não é novidade, mas alguma vez se sentiu indesejado como emigrante, no Brasil?
No início sim, senti um pouco, porque nós portugueses somos muito faladores e gostamos de conhecer pessoas. Aqui, para eles, isso não era normal e há muitas diferenças entre a língua portuguesa de Portugal e a Brasil. Eu trabalhei num escritório e fui um pouco descriminado entre, outras coisas, mas depois as pessoas aqui da cidade começaram a conhecer-me melhor. Hoje em dia sou conhecido como o “portuga”, até mesmo nos arredores da cidade me conhecem e dou-me muito bem com toda gente.

O vírus Zika é uma enorme preocupação no Brasil. Acha que todas as medidas preventivas estão a ser tomadas em relação a este surto? Receia por si e pela sua família?
Todos nós aqui no Brasil sabemos que o vírus Zika é muito perigoso, mas já há muita prevenção quanto a isso. Passam veneno nas casas e nós, moradores, temos de ajudar a combater a epidemia, evitando águas paradas e acumulação de lixo nas nossas casa. Quanto a ser infetado, claro que tenho medo, mas eu e minha família tomámos as devidas precauções quanto a isso.

Brasil é de vez, ou apenas uma passagem com vista a um regresso definitivo a Alpiarça?
Por enquanto, a minha família está aqui: mulher e filho. Para o meu regresso acontecer, muita coisa tem de mudar aí em Portugal. Aqui estou feliz, tenho trabalho e amigos, se bem que nunca sabemos como vai ser o dia de amanhã, mas nunca me posso esquecer que é a terra da minha esposa, por isso não lhe sei responder concretamente.
Receia que o seu país e, em particular, a sua terra, fique cada vez mais deserto com a crescente vaga de emigração que se tem verificado?
Sim, muito. Falo com muitos amigos aí de Alpiarça e todos estão a ter dificuldades em manter empregos e isso faz com que não se sintam bem em Portugal. Sei que muitos amigos já emigraram para procurar uma vida melhor.

Sente saudades da sua terra natal? O que lhe deixa mais saudades em Alpiarça?
Se sinto saudades da minha terra? Mais que tudo na minha vida! Tenho os meus grandes amigos aí, o meu grande clube “Os Águias” de Alpiarça, que é o clube do meu coração. Quero levar lá o meu filho e dizer-lhe ‘Olha, Lorenzzo, este é o clube que fez do pai um grande homem, porque esta foi a minha segunda família’. Queria agradecer a todos em geral, no clube, por tudo o que fizeram por mim, têm todos um lugar muito especial no meu coração. Agradeço também aos meus grandes amigos que sempre me apoiaram e ajudaram a levantar quando eu caí, mas acima de tudo quero agradecer à minha mãe, que apesar de todas as dificuldades sempre me ajudou muito e me deu tudo o que estava ao alcance dela. Quero dizer ao meu pai e irmãos que os amo muito e que só não sou mais feliz porque estão longe de mim e sinto muito a falta deles. Queria também deixar uma mensagem ao meu filho que vive em Santarém: o pai ama-te muito, nunca te esqueceu e tem muitas saudades tuas, Martim. Nunca se esqueçam de aproveitar as coisas boas dessa terra [Alpiarça] que é muito boa, amem o nosso país e aproveitem cada dia. Amo muito Alpiarça! Saudades!

.