“Este Museu é um ponto de partida para um projeto mais ambicioso”

O Museu de Almeirim assinalou, recentemente, o quarto ano de atividades e já passaram pelo espaço sete mil pessoas. A diretora do espaço, em entrevista a O Almeirinense, fala do trabalho que tem sido feito para dinamizar e mostrar o que há no acervo e lança um olhar pelo futuro.

 

Marta Milheiro, primeiro que tudo que significado teve a atribuição da Menção Honrosa, na categoria de Melhor Museu Português, pela APOM?
A candidatura à categoria de Melhor Museu, no âmbito dos prémios da APOM, foi um desafio por dois motivos: o primeiro relacionou-se com a projeção que uma candidatura deste tipo pressupõe, pois a visibilidade que o MMA assumiu no meio da Museologia foi uma aposta ganha. Por outro lado, havia que valorizar o trabalho feito, pois apesar das críticas, foi um projeto que teve o seu período de maturação, desenvolvimento e concretização, com a colaboração de alguns dos melhores técnicos nesta área. A verdade é que, a partir do momento em que se apresenta um dossiê desta natureza e este é aceite, resultando numa nomeação, significa desde logo um reconhecimento da instituição museológica e uma motivação para que se continue o trabalho iniciado. Sim, porque um Museu não é uma instituição estanque, cada vez mais são organismos vivos e de fruição.

Como me descreve ou carateriza o Museu Municipal de Almeirim (MMA), para quem não conhece?
O MMA tem como vocação o estudo e a investigação, a recolha, a documentação, a conservação, a interpretação, a exposição e a divulgação do património cultural, que integra o seu acervo, com objetivos científicos, culturais, educativos e lúdicos e com finalidades de democratização da cultura, de promoção da cidadania e de desenvolvimento da sociedade. Esta passará pela preservação das memórias do quotidiano almeirinense, os seus usos e costumes, potenciando os valores históricos, culturais, sociais e económicos do Concelho; inventariando, documentando, estudando e apresentando (expondo e interpretando) o acervo do extinto Museu Etnográfico da Casa do Povo de Almeirim, tendo nos seus públicos e nos diversos agentes do seu território, o principal foco da sua atividade. Os objetivos considerados no programa do Museu Municipal de Almeirim propuseram uma orientação para o futuro e assumiram-se como pontos fundamentais que deverão guiar toda a missão do Museu.

Há uma ideia de quantos visitantes tiveram no passado recente?
O Museu, desde a sua inauguração, a 24 de Março de 2012, até agora, tem registados 7000 visitantes.museu-2

Apesar de estar num local que recebe milhares de visitantes, há a ideia que o museu ainda não é um espaço de visita obrigatória. Concorda? Porque será assim?
Os públicos educam-se e, nota-se cada vez mais, é devido também a um vazio cultural, que existiu num passado recente, que Almeirim perdeu muitos hábitos culturais. Sei, e porque alguns familiares deles fizeram parte, que em meados do século passado existiam alguns grupos e associações que promoviam práticas culturais, que infelizmente foram desaparecendo com essas personalidades que as materializavam. Almeirim encontra-se, na minha opinião, num processo de formação e reeducação cultural e até darmos a volta será um processo de anos. Porém, para responder de forma mais direta, os visitantes, a nível de grupos e de público individual, são na sua maioria vindos de fora do Concelho, sendo que, para quem vem de fora, o Museu é, de facto, visita obrigatória.

Tem existido uma preocupação de dinamizar muito o espaço. A aposta tem sido ganha. Concorda?
O desenvolvimento deste projeto, e tendo eu feito parte dele desde o primeiro dia, só fazia sentido se fosse para cumprir com a sua função social e cultural. Foi este princípio que sempre nos orientou, contudo, existem constrangimentos que nos são alheios e que não permitiram desde o início esta dinamização, apesar de termos começado logo desde a abertura a engrossar o número de visitantes. A diferença desde essa altura para a atualidade é que hoje temos um instrumento de gestão fundamental, que é o Plano de Atividades que pretende ser transversal, abrangente e eficaz. Tem sido extraordinária a participação dos públicos nas atividades por nós propostas, todavia, pretendemos sempre mais e envolver o mais possível a comunidade em todas as suas vertentes.

Acredita que esta aposta, até num trabalho junto dos mais jovens, vai trazer frutos no futuro?
Em consequência, tem sido uma aposta fundamental, o envolvimento dos mais novos na dinâmica do Museu, por motivos óbvios, pois no processo de educação cultural, as camadas mais jovens estão sempre mais permeáveis a este tipo de estímulos, sendo que, captar públicos a que chamamos de “mais difíceis” também tem de fazer parte deste processo e para isso teremos que inovar e incentivar. Temos ainda muito trabalho pela frente.

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O que defende para aquele espaço é que não seja uma exposição estática do que fomos?
Todas as atividades que desenvolvemos têm um ponto de partida em comum e do qual não prescindo, que é o acervo do Museu, seja esta abordagem em forma material ou abstrata. Um Museu, quanto a mim, terá sempre que ter um discurso expositivo definido e permanente, pois só assim se poderá dar a conhecer a nossa história de forma rigorosa e coerente. Existe, no entanto, um outro palco que poderá ser um espaço mais dinâmico, com temáticas temporárias, de rotatividade do acervo e das memórias. É, sem dúvida, essa uma das lacunas do espaço físico que agora ocupamos. Sendo assim, umas das forma de contornar essa questão é o desenvolvimento das atividades que temos vindo a realizar, pois permite mostrar espólio que não está exposto, ou até relacionar acervo da exposição permanente com outro imaginário subentendido, como é agora a atividade a decorrer durante o mês de Abril, “Vamos falar de barro”, que parte do património olárico do Museu para abordar a questão da arte da olaria, mostrando ao vivo o manuseamento da roda de oleiro.
Este Museu é apenas um ponto de partida para um projeto mais ambicioso de exposição e preservação da história do Concelho. O MMA teve a principal preocupação de acabar com a progressiva degradação de um património que estava votado ao abandono há anos e que era o acervo do extinto Museu Etnográfico da Casa do Povo de Almeirim, concentrando-o num só local, dando-lhe as condições básicas de acondicionamento e preservação. Obviamente que o espaço existente, embora digno, não é o suficiente para um Concelho com a importância histórica do nosso. Não menos verdade é que, como tudo na vida, precisa de um começo e este está a ser o início do projeto museológico almeirinense. O aumento do acervo e a continuação da preservação do património para o futuro é um processo contínuo e cada vez mais desafiante. Posto isto, um projeto novo para Almeirim faz todo o sentido. A História é dinâmica e temos que conseguir acompanhá-la.

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