A democracia do alcatrão

Soubemos na passada semana que na Junta da Raposa se vão fazendo, e à falta de melhor explicação, concursos semi-públicos onde pelos vistos se dá trabalho a familiares. Em boa verdade nada de ilegal há nisto, nem pretendo alegar o contrário. Já indesmentível é que este concurso teve contornos mirabolantes e que nos levam a questionar a qualidade da democracia que respiramos e vamos sancionando de 4 em 4 anos. É que o passo de gigante que vai do Legal ao Legítimo é dado recorrentemente em organismos públicos, autarquias e administração pública sem no entanto suscitar questões.
Aquilo que se passou, e já fez correr tinta pelos jornais, não é novidade mas reaviva–nos o choque. O choque com a qualidade da nossa democracia que consegue encerrar em si mesma, e como disse, de forma perfeitamente legal, as situações mais despudoradas e opacas que podemos imaginar. Dirão alguns que foi um erro processual simples, por falta de experiência política da autarca em questão. Admito que sim.
Já as virgens ofendidas da política em Almeirim, que de 4 em 4 anos rasgam as vestes e acusam tudo e todos, estiveram mais uma vez bem caladas, como mandam os cânones desta nossa bonita cidade. O respeitinho é muito bonito e podia ter sido com eles, mais vale estarem calados por medo de infringirem a sua própria moral.
O que também não espanta, sendo prática desde há muitos anos, é o silêncio do Presidente da Câmara. Como responsável político máximo pela autarquia deveria ter tido o bom senso, para não dizer a elevação, de exigir uma demissão. Em vez disso foi anunciando, da forma desprendida e martirizada a que já nos habituou, mais umas dúzias de pavimentos novos na sua página do Facebook, conferindo a estes processos uma cor tão transparente como o alcatrão que nos vende. Talvez pudesse um dia, na sua página vendilhona que tudo anuncia, informar os mais desatentos de quando são as Assembleias Municipais e as reuniões de câmara abertas (antes delas acontecerem!). Aos ofendidos resta lembrar: o Pedro é o nosso pastor, nada nos chocará. Haverá sempre mais alcatrão para nos ir tapando os olhos.
Diogo Pascoal – Juventude Popular

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