O BIP e o FIP

Um dos grandes pilares das sociedades ocidentalizadas dos nossos dias é a economia de mercado. O termo “economia de mercado” começou a ser usado nos Estados Unidos durante a Guerra Fria e tem por princípio um sistema económico alicerçado no predomínio da iniciativa privada. Este modelo económico, à semelhança de outros, é alvo de críticas muito pertinentes, embora para muitos seja visto como o modelo que melhor garante o crescimento económico dos países, prevê mais e melhores oportunidades de emprego, de riqueza, tanto para os cidadãos como para os próprios Estados.
Apesar destas garantias de prosperidade, estamos absolutamente certos (até porque as evidências o confirmam), que vivemos numa sociedade em que o dinheiro impiedosamente dita as suas leis e coloca uma pressão demolidora sobre os Estados, sobre as empresas e sobre as famílias. Por esta razão, expressões como défice excessivo, endividamento, contenção orçamental, orçamento do estado, resgate financeiro entre outras, são ouvidas a todo o momento e tornaram-se habituais nas conversas mais informais. Palavras técnicas, que faziam parte de áreas académicas muito específicas, aos poucos entraram no léxico comum e tornaram-se muito populares. É caso para perguntar quem é que já não ouviu falar ou não sabe o que é o PIB.
O Produto Interno Bruto (PIB) é basedo num conjunto de instrumentos económico-financeiros, que permitem avaliar a riqueza e o crescimento económico de um país ou de uma região durante um determinado período de tempo. O PIB per capita é o produto interno bruto de um país, dividido pelo número de habitantes, sendo que os países onde o PIB per capita é mais elevado são classificados como países ricos, enquanto que os países com um PIB reduzido são designados como países pobres ou em desenvolvimento. Esta é uma das razões por que os governos dos países pobres procuram introduzir medidas no sentido de aumentar o PIB e desta forma melhorar as condições de vida dos cidadãos.
Se o PIB é do conhecimento comum, lamentavelmente, poucas são as pessoas que conhecem ou já ouviram falar do FIB, Felicidade Interna Bruta. Este conceito foi desenvolvido em 1972 por Jigme Singya Wangchuck, rei do Butão (um pequeno país situado nos Himalaias), que introduziu uma nova forma de avaliar o desenvolvimento e o progresso de um povo ou de uma nação. Este sistema tem por base o princípio de que a avaliação do desenvolvimento de uma sociedade não pode estar circunscrita apenas a fatores de natureza económica e material, mas tem que ter em consideração outros aspetos, tais como: o bem-estar psicológico ou o grau de satisfação que as pesoas têm com a sua própria vida; a eficácia das políticas de saúde e da educação e a forma como o tempo é usado numa perpetiva de socialização e de vivência familiar. Tem ainda que contemplar questões de natureza ambiental, cutural e espiritual. Na perspetiva do rei Butanés, só é possível fazer uma análise acerca do desenvolvimento e riqueza de um país, tendo em consideração estes fatores.
Atualmente, mais de 150 países medem o seu grau de desenvolvimento e riqueza tendo em consideração não apenas o Produto Interno Bruto, mas também a Felicidade Interna Bruta. Os dados estatísticos disponíveis provam o que todos já sabíamos: a riqueza e a felicidade não são palavras sinónimas. Se é verdade que em alguns casos o PIB está em paridade com o FIB, na grande maioria dos casos, esta paridade não se confirma. O que paradoxalmente se verifica é que em vários países onde as pessoas têm um nível de vida médio ou elevado, os índices de pessimismo, de infelicidade, de estados depressivos e de suicídios são altíssimos. Nos últimos anos tem sido dada cada vez maior relevância aos índices de felicidade dos países, e é com muita tristeza que se assinala o facto de em Portugal não se registarem iniciativas que atribuam o destaque que este assunto merece, estando por isso fora do debate público e da agenda política. Como otimista que sou, acredito que em breve andaremos a falar mais do FIB do que do PIB, porque de que vale sermos ricos mas infelizes?

 

Jorge Humberto – Pastor

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