Pampilho ao Alto 7

Por vezes, lembro-me de coisas ocorridas há muito tempo, mas que me parece que foram ontem. Vejam só esta que me veio à memória: no velho Cartório Notarial (que ficava onde é hoje a Tabacaria Garcia) a afluência naquele dia era intensa. Havia cheia no campo; o pessoal ia ver a cheia e aproveitava pra ir ao tabelião (assim era chamado o Notário) ver como estavam os papéis das escrituras. O Pombas e a Dª Rosa (então funcionários no Notário) espumavam de impaciência porque as pessoas não tinham a mínima ideia das datas das escrituras, nem do nome dos interessados, apenas sabendo nalguns casos a alcunhas. Valia que o Pombas era das Fazendas e conhecia quase toda a gente pelas alcunhas. O Dr. Fraga, (o Notário) ria a bom rir quando ouvia alcunhas como: “Preto à porta; Morcela; Carica; Perigoso; Manca mulas; Preto Lamitão; Caguincha, etç… Certo é que, dias de cheia no campo eram dias de enchente no Notário! E numa destas enchentes, uma conhecida beata, a ti Jaquina Benta, por alcunha “a Faísca,” acompanhou a filha solteira ao Notário para tratar do Bilhete de Identidade, necessário para os papéis do casamento. Na altura, para obter o Bilhete de Identidade era necessário uma formalidade notarial que se chamava abrir o sinal. Naquele dia ,o Dr. Fraga, dando uma ajuda ao Pombas e à D. Rosa, foi também atender ao Balcão, calhando-lhe atender a filha da ti Jaquina Faísca. O Dr. preencheu os impressos perante o olhar atento e malicioso da ti Jaquina “que nunca tinha visto um homem sem barba” e, quando chegou o momento da moça assinar os documentos, o Notário perguntou: a menina já tem o sinal aberto? Aí a ti Jaquina, mulher de farto bigode e pelo na venta, não se conteve; saltou em frente e disse: já sim, Sr. Doutor, mas o namorado casa com ela; quem pensa que ela é? Tudo acabou numa risada geral, e a Jaquina, como de costume, a praguejar raios e faíscas. É que na época, quase sempre, quem abria o sinal às donzelas eram os namorados, e só quando era para casar.

Ernestino Tomé Alves
Advogado

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