Vasco Graça Moura: Graça e desgraça em Almeirim

Foi no dia 1 de abril que soubemos, por meio da imprensa nacional, que a família de Vasco Graça Moura deu por assinado, com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o contrato de depósito, em regime de comodato, que estabelece por 25 anos renováveis, a incorporação nesta academia, da sua biblioteca e arquivo pessoal. Mas não deixa de ser um facto (“facto”, e não “fato”, como o próprio Vasco advogaria): fecha-se em Almeirim uma biblioteca. Graça para o Porto. Desgraça para Almeirim.
No ano 2000, Vasco Graça Moura resolveu fixar residência no Vale da Fonte da Moça, junto de Azeitada, na freguesia de Benfica do Ribatejo. Numa entrevista ao Correio da Manhã, de 25 de Novembro de 2007, terá comentado – “Na verdade, foi a necessidade de encontrar um espaço adequado para colocar os meus livros que me levou a optar por este local”. Num antigo palheiro restaurado de raiz, constituíra uma biblioteca, dividida em quatro salas, nas quais todas as paredes se viam (aliás, não se viam) forradas com livros de cima a baixo. Na verdade, um recheio literário estimado, atualmente, em mais de 40 mil livros.
No ano 2012, a propósito do convite do Rancho Folclórico para prefaciar a monografia do professor Eurico Henriques (e atual vereador da Cultura), As Origens de Benfica do Ribatejo, terá justificado o porquê da sua presença por estas bandas: “Não tenho quaisquer ligações especiais, familiares ou outras, a esta freguesia, salvo as das amizades e convívios gratificantes que nela criei entretanto. Sou natural do Porto e vivi em Lisboa e arredores durante mais de vinte anos. Mas foi em Benfica do Ribatejo que há doze anos instalei a minha casa, a minha biblioteca e a minha oficina de escritor, sendo também aqui que tenho os meus momentos de ócio e de repouso. E é aqui que me sinto bem.”
Para além de Vasco Graça Moura, outros intelectuais regressaram à terra: José Pacheco Pereira na Marmeleira e dois dos maiores vultos da História, o Professor Joaquim Veríssimo Serrão, em Santarém e o Professor José Mattoso, em Mértola, tendo feito a doação do seu património bibliográfico: a fundação do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão, em Santarém, e a Biblioteca José Mattoso na Biblioteca do Campo Arqueológico de Mértola. Porque não algo do género em Almeirim? Porque não um centro literário sob o alto patrocínio de Vasco Graça Moura? Porque tem a biblioteca de se mudar para o Porto? É certo que, pelo seu falecimento, a Assembleia Municipal de Almeirim teve a dignidade de aprovar por unanimidade um voto de pesar, com o argumento de que o referido possuía cá uma casa. É certo que na Assembleia foi lido um resumo de algumas das suas contribuições ao longo da vida.
Mas de facto, pouco ou nada se fez. E ninguém pode colher hoje, onde não semeou ontem. Talvez seja então esta a razão pela qual se fecha uma biblioteca – deixámo-la ir-se embora.

Gustavo Pimentel

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