“Decidi ser mais um maluquinho a correr”

António Gomes de Jesus (no canto inferior direito da foto), 72 anos, concedeu esta entrevista entre um treino, e aos 14,75 kms de Burinhosa a São Pedro de Moel que realizou no passado dia 29. Decidiu ser um “maluquinho” da corrida depois de deixar o futebol, já depois dos 40, e agora, mesmo sem o ritmo de outros tempos.

António Gomes, quando começou o gosto pela corrida?
O gosto pela corrida surgiu quando, deixando de jogar futebol aos 41 anos, comecei a observar os “maluquinhos” que corriam na marginal atrás de coisa nenhuma, vivendo eu naquele tempo em Paço de Arcos. Uma vez que não me sentia bem na ausência da prática desportiva – havia praticado ao longo de vários anos andebol, voleibol, ping-pong (hoje ténis de mesa) e fundamentalmente futebol – era praticante com carta de não amador, pois não existia profissionalismo naquele tempo – decidi ser mais um “maluquinho” a correr pela marginal, atrás de coisa nenhuma; tornei-me em mais um dos saudáveis “maluquinhos” da corrida.

Quem foram as influências?
As minhas influências foram, na realidade, a minha necessidade de praticar desporto e, no fundo, ver aqueles “maluquinhos” correrem atrás de coisa nenhuma. Embora, evidentemente e como me considerava uma pessoa atenta e interessada pelo desporto, acompanhava a prestação dos bons valores que existiam no país ao nível do atletismo.

Qual foi a primeira corrida que fez?
A primeira corrida/prova em que participei foi na Meia-Maratona de Lisboa, seguramente com alguma inconsciência, uma vez que, com pouco tempo de treino para a prática do atletismo, me aventurei nos 20,095 kms. Aquela corrida/prova, após haver terminado, transmitiu-me não só uma enorme alegria como me incentivou a continuar a correr, até ao dia de hoje. Consegui fazer, para mim, e então, uma participação extraordinária, demorando 01H42m.

Mudou muito o mundo da corrida?
Evidentemente, e ainda bem que o mundo da corrida tem vindo a evoluir positivamente nas várias vertentes que envolvem a prática do atletismo amador, porque é aquele que melhor conheço pelos meus 31 anos de “maluquinho”.
As modificações positivas estão expressas nos cuidados/condições com que as provas são organizadas, pela maior participação de atletas nessas provas a nível global e, também deve realçar-se, a uma mais significativa e representativa participação feminina. As mulheres decidiram, ainda bem, dedicarem-se mais ao exercício físico e, neste caso, ao atletismo, quebrando alguns tabus de que as mulheres não podiam e/ou não deviam realizar determinadas práticas desportivas. Em suma, as mulheres soltaram-se ou vão soltando-se de determinadas amarras sociais/comportamentais na prática do desporto.

O que mudou?
Os meus primeiros tempos, além de correr na marginal de Paço de Arcos, a caminho de Oeiras, foram principalmente no Jamor/Estádio Nacional. Inicialmente sozinho, não conhecia ninguém nem tinha cabedal/hipótese de treinar ou acompanhar alguém com mais pedalada que a minha. Fui-me mantendo e treinando durante alguns meses, conforme podia, até que, quase de forma inesperada, integrei-me/fui aceite e membro do grupo “ Amigos do Jamor”, onde de facto comecei a aprender o que era e é a prática do atletismo amador que, independentemente dos tempos a que cada um se propunha alcançar, existia o gosto claro pela corrida. Foi este espírito que me foi transmitido e incentivado, no período de aprendizagem nos “Amigos do Jamor,” que me permitiu manter sempre desperto e ativo o gosto pelo atletismo, e ser um dos seus praticantes.

Os entendidos dizem que o descanso também faz parte do treino.
O meu calendário de treinos integrava seis dias de atividade e um de descanso, no qual estava contemplada a corrida que iria participar nessa semana.

Gosta de correr ou fá-lo com sacrifício?
Eu sou daquelas pessoas que, se participo, colaboro e/ou realizo qualquer desporto faço-o com o gosto, com o prazer que essa atividade me proporciona; e esse gosto/prazer é tão mais sentido/vivido quanto mais participado for por outras pessoas com as quais me relaciono e mantenho um salutar convívio.

O que é o tão falado vício da corrida?
O tão falado vício da corrida, na minha perspetiva, mais não é que o bichinho que cada um de nós transporta consigo. Ao longo destes 31 anos de treinos/corridas, quando eu, pelos motivos mais diversos, tinha que parar durante alguns dias, o corpo brigava comigo e dizia para me mexer/correr; este é o bichinho da corrida. O próprio organismo, habituado à prática regular e salutar do exercício físico, exigia-nos que continuássemos.

Fica contente por ver, também em Almeirim, cada vez mais adeptos da corrida?
Qualquer atleta amante, e simultaneamente praticante de uma modalidade, fica contente e satisfeito que a mesma se vá desenvolvendo, e o número de praticantes vá aumentando e diversificando de norte a sul do país. Almeirim está, e espero que essa tendência continue a crescer, no bom caminho; tempos vão, em que havia um número restrito a correr em Almeirim. Então, muita gente criticava, por vezes de forma inapropriada, quem por gosto e ao fim de um dia ou de uma semana de trabalho, ia correr pelos campos de Almeirim e arredores.

Vai correr até quando?
A minha data limite para deixar de correr, ainda não a encontrei; hoje, em consequência de razões profissionais, não posso treinar os tais seis dias por semana como fiz durante vários anos. Esta limitação não me impede de, na gestão do tempo disponível, continuar a treinar quando possível e participar em diversas corridas com percursos mais ou menos difíceis. Continuo a correr da forma como sempre fiz; chegar cansado mas não exausto, no melhor tempo possível, fosse nos 10 km fosse na Maratona .

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