O mais recente Tesouro de Manuel Luís Bárbara

O lançamento do livro “O Tesouro da Sé” foi o pretexto para a conversa com Manuel Luís Bárbara. Antigo professor e antigo deputado municipal em Almeirim concedeu uma grande entrevista a O Almeirinense e a O Alpiarcense onde reflete sobre assuntos da atualidade e também fala do passado … que parece não ter muitas saudades.

Começamos a nossa conversa pelos livros. Como surgiu esta obra “O Tesouro da Sé”?
São coisas que num momento nos passam pela imaginação. Quando escrevi “O Caso do Justinho” pensei de imediato numa trilogia que tivesse, como denominador comum, uma viagem no tempo a um período histórico; daí a série chamar-se “Contrabandistas do Tempo”. A cidade que melhor conheço é Évora, por isso é minha intenção e necessidade, que o principal cenário ocorra naquela cidade, que se presta a isso, por ser notável já há muitos séculos. Do “Caso do Justinho”, que é enquadrado no final do reinado de D. João II, saltei para o início do século XIX, para os anos 1807 e 1808, durante a primeira invasão Napoleónica, em que Évora sofreu um tremendo saque. Falta portanto uma obra para a trilogia ficar completa.

De que fala?
Fiquei com um certo mal-estar aquando da publicação do “O caso do Justinho”. Porquê? Porque não fazia jus a duas outras cidades que me acolheram: Almeirim, em que residia e Santarém, onde (quase) sempre trabalhei. “O Tesouro da Sé” decorre entre Santarém, passa por Almeirim e termina em Évora; vem de mais longe, dos arrabaldes de Ponte de Sor e de Seda, que ficam, como se sabe, no Alto Alentejo. A história é simples: no século XXI um historiador, que procura o acento de um casamento que se terá realizado nos finais do século XV, encontra o rol de um tesouro. Resolveu ir à procura aonde é que esse tesouro estará escondido.
No século XIX, uns militares portugueses que se mantinham como resistência aos franceses invasores, são “requisitados” pelo Presidente da Real Colegiada da Alcáçova de Santarém, para darem proteção à transferência do Tesouro da Igreja da Alcáçova (às Portas do Sol, para quem estiver com dificuldade em localizar), para a Sé de Évora, onde ficará a bom recato. O encontro dos sacerdotes e dos militares dá-se no Convento da Serra. Chegam a Évora no dia 28 de julho de 1808, exatamente na véspera do ataque à cidade pelas tropas do General Conde de Loison, um homem que mandava fuzilar “por dá cá aquela palha”. Loison era conhecido como o “General Maneta”, daí a nossa expressão “vais para o maneta” como ameaça de morte.

Gostou da apresentação?
Gostei, estava um ótimo ambiente. Pena foi, que no diaporama que apresentei, faltassem as fotografias das armas da época, na altura tinha “perdido” a localização das ditas. Deixo uma proposta, vão ao Museu Militar que fica mesmo em frente à estação de caminho-de-ferro de Stª Apolónia, merece muito a pena.

Que significado teve para si ter tido a seu lado Botas Castanho?
O Sr. Dr. Botas Castanho é, para mim e creio que para muitos outros, uma figura de referência. Pela sua bonomia, pelo seu empenho e pelo seu saber, para citar só três dos seus predicados, é-me imprescindível enquanto amigo e avisado conselheiro. É uma figura tutelar, uma presença impar no meio social de Santarém e do Ribatejo, é uma grande honra que me dá ao estimar-me com a sua amizade. Sem esquecer outros amigos, refiro o Sr. Dr. Teixeira Lino, o Sr. Coronel Garcia Correia, o Sr. Dr. Goulart e o Dr. João Filipe. São com eles que vou discutindo as minhas prosas.

O porque de dar as receitas ao CRIAL?
Nem todas as receitas foram para o CRIAL. Parte foi para pagar a edição do livro. O CRIAL vem fazendo uma obra muito meritória. Toda a ajuda não é demais. Sei bem que há em Almeirim e em Alpiarça outras instituições que merecem o nosso apoio e cuidado. Agora foi para o CRIAL, se as minhas andanças me permitirem, na próxima, será para outros.

Escrever é uma necessidade misturada com um enorme prazer?
Pode-se dizer que sim. Mas também há algum sofrimento e, por vezes, muito. “O Caso do Justinho” demorou-me seis anos a escrever, num pega/larga de angústia. No “Tesouro da Sé” existiram “nós” que demoraram muito a desatar; e embora se escreva ficção num contexto histórico, a história tem que ser mantida no seu sítio, posso descrever peripécias que crio, mas não posso dizer que os franceses foram derrotados no cerco de Évora, os documentos da época relatam foram assassinados perto de um milhar de habitantes da cidade.

E da escola tem saudades?
Fiz um mestrado em Ciências da Educação, na área da Formação de Adultos. Sinto-me muito mais à vontade na andragogia do que na pedagogia. A primeira é a maneira de transferir saberes-fazer para os mais velhos, a segunda, tem a ver de como ensinar os mais novos. Não me vou alongar sobre o assunto se não passamos aqui o resto do dia.
Tenho saudades da formação, de “desembrulhar” as teias que as pessoas colocam à sua volta, quando pensam que não têm mais nada a aprender. E, no fim, é todo um mundo novo com que se deparam.

A escola tem mudado muito. Concorda que as mudanças podem ser prejudiciais?
Há muito que sabemos que a mudança é necessária, no entanto, bom senso e bom gosto nunca fizeram mal a ninguém. Dá-me a sensação que não se faz a análise do que deve prevalecer e o que deve ser rejeitado. Mas não tenho dados suficientes que me permitam pronunciar com muita lucidez sobre o assunto.

Não fica confuso também com as constantes mudanças que os políticos impõem à escola? Ora há provas ora não há…
Estas opções fazem parte da pedagogia e eu sinto-me mais à vontade na andragogia. Mas tenho uma opinião, com base na minha vivência, portanto absolutamente empírica. No tempo em que frequentei o “ensino primário” havia provas de passagem na “primeira” e “segunda” classes; na “terceira” e na “quarta” havia exames, o da “quarta” bem puxado; depois, quer se fosse para o liceu ou para a escola comercial/industrial, exames de admissão. Quer estivéssemos na escola ou no liceu, novos exames no segundo ano. Se estivéssemos na escola comercial/industrial, havia exames em disciplinas “avulso” no 3º, 4º e 5º. No liceu era diferente e havia exames no 2º e depois no 5º, dividido em duas secções: letras e ciências; por fim no sétimo ano, o último do liceu. Para se ir para a universidade, também era necessário fazer-se um exame de admissão. Quer mais exames? E quem é que reclamava? Os alunos ficavam ou não a saber? Quando estas discussões vêm à tona, confesso que não entendo. Os exames são necessários até para avaliar os próprios professores, se os alunos passam é sinal de que o professor se empenhou, o contrário, também é verdadeiro. Esta é a minha opinião, vale o que vale.

Não devia existir um acordo a uma ou mais gerações dos políticos da direita à esquerda para o que se quer da escola pública?
Façam os acordos que quiserem, desde que o sistema resulte… Quando o 25 de Abril aconteceu, algum tempo depois, toda a gente esteve de acordo em nivelar o ensino “por cima”, pelo curso liceal, a escola tinha sido para os pobrezinhos e para os mais burros, era necessário dar o melhor a todos Acabaram-se com as escolas comerciais e industriais, ficámos com um sistema que, como se verificou depois, não servia; mas na altura todos os políticos estavam de acordo. Eu também estive! Anos depois não havia, e ainda se nota a falta, de técnicos intermédios. O ter frequentado a escola comercial e o liceu, permite-me dizer que o primeiro dispositivo preparava melhor para a vida operacional, o curso liceal preparava mais teoricamente, alicerçava melhor para o ensino superior. O que posso dizer é que o sistema não resultou e ainda andam à procura do “toque de midas” do ensino.

Já que falamos de politica. Mesmo que à distância que avaliação faz do novo presidente da CM Almeirim?
Fazer uma avaliação é julgar, hoje fujo muito a pronunciar-me. Mas sobre esta situação estou mais à-vontade. Sou militante socialista, isto é uma declaração de interesse, e muitos, dentro do partido sabem que o Pedro Ribeiro não era o meu favorito para presidente, mas também olhando à roda, não se perfilava ninguém. O Pedro sempre teve um desígnio: ser Presidente da Câmara de Almeirim. E tinha razão para acreditar em si. Se podia fazer melhor? Claro que podia! Mas está a fazer um bom trabalho. Lá está a tal situação de se fazerem juízos sobre pessoas, enganei-me, tenho que dar a mão à palmatória.

Tem saudades da vida política em Almeirim?
Sinceramente, não! Tenho saudades das pessoas, isso sim, principalmente do Sousa Gomes; e de quando a Assembleia Municipal era no anfiteatro da Biblioteca Municipal, os debates eram mais comedidos e as relações pessoais entre os intervenientes contribuíam para se deitar “água na fervura”.

Gostava de regressar?
Muito simplesmente: não.

No plano político o que tem feito?
Muito pouco. Algumas raras arruadas, algumas distribuições de propaganda, nem internamente me tenho empenhado.

E Alpiarça está a seguir o bom caminho?
É muito difícil deslindar o que está por detrás das posições do PS em Alpiarça. Para as últimas autárquicas estava eu, e muitos outros, à espera que fosse indigitada a Professora Doutora Regina Céu, a reviravolta que se deu foi, em meu entender, a maior causa para a derrota do PS nas autárquicas.
O PC aproveitou bem o desaire dos socialistas; as forças do PSD com alguns dissidentes da área do PS, não tiveram o efeito pretendido.
Em meu entender, faz falta que quem governa Alpiarça, seja mais imparcial na distribuição de benesses, que não haja uma proteção só aos seus correligionários políticos. E quando digo isto, falo de todas as forças políticas que exercem, ou exerceram o poder no concelho.
Para Alpiarça ficar no bom caminho, teriam que a maior parte dos alpiarcenses puxarem todos para o mesmo lado, o que não acontece, de todo. Em todo o lado há pessoas competentes, mas só porque se “veste” uma cor diferente, já não presta. As forças políticas não são clubes de futebol nem a política é um campeonato desportivo.

O que pode fazer de mais e melhor?
Ouvir a todos! Que se escutem! Muitas vezes dá a sensação que só os discursos da “nossa bancada” é que são válidos, não é assim. E quando a oposição colocar na mesa um bom projeto, não o metam no cesto só porque não é dos “nossos”. Um presidente de câmara devia ter uma costela muito grande, “suprapartidária”. Aproveitar o esforço de todos e desenvolver o concelho com todos e para todos. Parcerias com os concelhos limítrofes e outros que não o são. Se um qualquer lugar ultrapassou um problema com que nós nos debatemos, pois vamos pedir que nos expliquem como ultrapassaram a dificuldade, não há que ter vergonha, são oficiais do mesmo ofício e trabalham na mesma terra que é Portugal.

Aos nossos leitores, quer deixar uma última palavra?
Uma palavra de esperança. Tenham fé. Fé no povo que somos, na nossa capacidade de improvisar, mas é necessário aprender também a organizar. Fé na nossa capacidade de trabalhar, mas é necessário o esforço de fazer, e bem! Fé em cada um de nós, se quisermos de facto uma coisa, atingi-la-emos.
Este jornal, e outros como ele, têm uma importância muito grande para os nossos concelhos, é aqui que são publicadas as notícias que nos dizem respeito, os diários de Lisboa, Porto e os que ainda vão existindo noutras regiões é muito raro escreverem uma linha sobre nós, e quando o fazem é, muitas das vezes, pelas piores razões.
São estes jornais, de ao pé da porta, que falam das nossas realizações das nossas alegrias, das nossas tristezas, das nossas forças, e das nossas fragilidades, estes são jornais que temos que ajudar.

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