Pampilho ao Alto 10

É bom rir um pouco.
Veio inaugurar a primeira feira do Ribatejo, o então Presidente da República, Almirante Américo Tomás. Um Presidente da Republica em Santarém era um acontecimento que o Zé Povinho não queria perder. A multidão apinhava-se na Avenida D. Afonso Henriques para ver passar o Presidente da República. Uma força da GNR a cavalo, abria caminho forçando com as montadas os mais afoitos, deixando a faixa livre por onde passaria o automóvel descapotável do Presidente. E foi aí que a coisa descambou! Um dos populares que estava na fila da frente, foi atropelado por um cavalo, e, alto e bom som, reagiu com sonoro palavreado Ribatejano: hó cabrão vê lá onde andas com o cavalo! O do cavalo, era o capitão comandante da força, que, sentindo-se ofendido na sua honra, mandou identificar o palavroso cidadão. Seguiram-se os trâmites processuais e o cidadão Ribatejano foi acusado de ofensas ao bom nome do queixoso, que, para além de condenação em matéria penal, pedia ainda uma pesada indemnização civil.
O julgamento deu que falar. O advogado do queixoso era um famoso tribuno de Lisboa, e o do arguido, era o não menos famoso causídico de Santarém, Leonardo Ribeiro de Almeida. O embate entre estes dois Titans do Direito era aguardado com expectativa, e no dia da audiência o Tribunal de Santarém estava à cunha. Feitas as diligências probatórias, o Juiz concedeu aos advogados o uso da palavra para as alegações finais. O Dr. Ribeiro de Almeida, experiente nestas lides e mestre da retórica, começou por dizer que, em Santarém, chamar cabrão a outro não era ofensa; era até uma forma carinhosa de os amigos se tratarem, e que alguns até ficavam desconfiados quando não eram chamados cabrões, pois que aí sim, talvez fossem cabrões. Enfim, que não poderia o queixoso ou alguém considerar-se ofendido quando em Santarém fosse chamado cabrão.
O outro advogado, igualmente mestre no jogo de palavras tudo ouviu atentamente sem interromper, e, quando lhe foi dada a palavra pelo Juiz, levantou-se, e olhando para o Dr. Ribeiro de Almeida disse: bom, co mo dizia aqui o cabrão do meu colega…… Imaginem as sonoras gargalhadas que foram ouvidas na sala, e, como o riso é contagioso, até o Juiz riu a bom rir.
Consta que entre gargalhadas de todo o Tribunal o Arguido saiu absolvido.

 

Ernestino Tomé Alves – Advogado

.