Da esquerda para a direita: Uma Praga

O eucalipto é uma espécie arbórea não autóctone da nossa floresta e que tem tido desde os anos 80 uma forte propagação no território. Entre outros fatores, têm contribuído para tal, uma gestão florestal muito assente nos lucros da indústria da celulose (em detrimento do desenvolvimento sustentável florestal) e os incêndios florestais em áreas de pinheiro bravo, que conduziram à replantação com eucalipto. Contudo, as desvantagens ambientais desta plantação, sobretudo em regime intensivo, são conhecidas: diminuição da biodiversidade (flora e fauna); erosão dos solos (exploração dos nutrientes e da matéria orgânica) e diminuição dos recursos aquíferos. A eucaliptização a que temos assistido é mais uma “acha na fogueira” das alterações climáticas, e o ser humano já está a sofrer as consequências desta massiva florestação, que irão acentuar-se fortemente ao longo dos próximos anos, se nada for feito.
Na posição conjunta sobre a governação, assumida pelo PS e pel’ “Os Verdes”, ficou inscrita a criação de medidas para aumentar a produção e a produtividade das fileiras florestais, nomeadamente com aumento de área de montado de sobro e de azinho e de pinheiro bravo, por forma a travar o avanço do eucalipto.
Em Almeirim, “Os Verdes” e a CDU têm estado igualmente preocupados com esta questão. Com efeito, foram ao longo dos anos várias as vezes em que foram feitas intervenções pelos eleitos sobre esta matéria. Em fevereiro deste ano, aquando da renovação do protocolo para o Gabinete Técnico Florestal, a Vereadora da CDU mencionou, entre outros aspetos, que o Plano de Ação 2013-17, apesar de prever a criação de mosaicos de descontinuidade em grandes áreas de eucalipto com espécies de combustão lenta, precisamente para prevenção ou redução dos impactos dos incêndios, a mancha de eucalipto está a alastrar no concelho.
Na Assembleia Municipal Temática sobre a Árvore, promovida por iniciativa da CDU em 2013, ficámos a saber que o eucalipto ocupava 3465.31ha, ou seja, cerca de 15.6% da área do concelho! Um número assustador, quando comparado com os 9% nacionais. Basta irmos na N114, de Almeirim para a Raposa, e olhar para as encostas da Serra repletas desta monocultura. No nosso concelho, o eucalipto tem roubado espaço não só à floresta tradicional mas também à agricultura. Quantos de nós não conhecem o sítio onde hoje está uma mancha de eucalipto e que foi uma vinha há uns anos atrás?
Não necessitamos de refletir sobre o que pretendemos legar aos nossos descendentes. Temos que refletir sobre o que quereremos ter daqui a 20, 30, 40 anos. De que servirá todo o valor monetário, legado pelo negócio dos eucaliptos, quando os solos não conseguirem produzir o que necessitamos para comer? Que iremos beber quando os recursos aquíferos desaparecerem? Que mundo pretendemos para o nosso futuro?

Samuel Rodrigues Tomé
Membro do Partido Ecologista “Os Verdes” e da
CDU de Almeirim

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