Alpiarcenses pelo mundo: A vez de Jorge Martins

“Se querem emigrar têm de o fazer com a consciência de que não é tudo uma maravilha e que algumas dificuldades vão aparecer” – Jorge Martins afirma-o com a experiência de quem soube esperar para dar os passos certos, na altura certa, num país cujo rumo é ainda incerto.

Que memórias guarda da sua infância em Alpiarça?
Cada vez que me lembro da minha infância sinto uma saudade imensa e uma deceção ao mesmo tempo, pelo facto de os tempos terem mudado tanto e nem sempre para melhor. Lembro-me de passar grande parte do tempo a brincar com um anterior entrevistado vosso, Pedro Vaz, nas ruas do Casalinho; jogávamos à bola nas estradas, sem termos medo dos carros, só tínhamos de deslocar as nossas balizas. Todos os anos fazíamos diferentes cabanas onde brincávamos e desenvolvíamos a nossa imaginação e competências manuais, nunca precisávamos de telemóveis, sabia sempre a hora de ir para casa e se chegasse tarde já tinha um raspanete à espera, coisa que agora está muito perdida: quando vou visitar a família no Casalinho não se vêem crianças na rua a brincar, o que me entristece um pouco, provavelmente devido aos carros que agora passam naquelas estradas a alta velocidade como se fossem autênticas auto-estradas. Tive sorte de apanhar uma grande transição dos tempos, pois gostávamos mais de brincar nas ruas mas, ao mesmo tempo, também, de vez em quando, reuníamo-nos nas casas dos sortudos que tinham uma Playstation ou mesmo um computador. Nessa altura ainda conseguíamos separar o “vício” da diversão.

O que o levou a emigrar para o Reino Unido, mais particularmente Cambridge?
Após oito anos de namoro com a minha mais-que-tudo, e sem vermos grande futuro em Portugal, decidimos que era boa altura para entrar numa aventura e tentar a emigração, estávamos um pouco indecisos entre o Reino Unido e a França, mas, por termos mais facilidade na língua, decidimos ir para o Reino Unido, para onde partimos à aventura sem conhecer ninguém e sem nunca sequer ter saído para fora de Portugal mas com um objetivo de uma vida melhor, mesmo sabendo que no início não seria fácil. Partimos com o plano de ir para Londres (onde ficámos três anos) arranjar qualquer trabalho para pagar as contas e depois, primeiro a minha namorada e depois eu, logo iríamos correr atrás dos nossos trabalhos ideais e mais tarde escolher uma cidade menos movimentada. Assim fizemos, eu no primeiro dia que procurei trabalho tive a sorte de encontrar um e comecei a trabalhar numa cozinha a lavar pratos e panelas, onde fiquei durante três anos, até a minha namorada arranjar o trabalho ideal para ela, como fisioterapeuta. Uns meses depois consegui arranjar trabalho como eletricista, foi então que achámos que era o momento ideal para procurar uma cidade mais calma e tentar arranjar trabalhos estáveis que, com a experiência em Londres, foi mais fácil. Foi aí que optámos por Cambridge, uma cidade muito bonita, calma e movimentada ao mesmo tempo, e com tudo o que precisamos, foi amor à primeira vista.

Há quanto tempo reside neste país?
Estivemos em Londres por três anos e estamos em Cambridge há um ano.

Sentiu-se bem recebido no Reino Unido?
Sempre fui bem recebido em qualquer lugar, e em todos os locais onde trabalhei nunca tivemos qualquer tipo de problema ou discriminação no Reino Unido.

Como descreve Cambridge: as paisagens, o clima e a gastronomia?
Cambridge é uma cidade pequena mas muito bonita, rodeada pelo rio Cam e por uma das maiores Universidades do Reino Unido (se não a melhor). Senti uma grande diferença entre Londres e Cambridge; Cambridge é muito mais calma, podemos deslocar-nos de bicicleta a qualquer parte da cidade em 20 minutos e conseguimos aproveitar mais os nossos tempos livres e desfrutar a natureza. É um pouco difícil encontrar pratos típicos por estas cidades, para além do Fish and Chips (peixe frito panado em farinha e batatas fritas), não parece que seja bom mas até liga bem. Há mais oferta de cozinha estrangeira do que de cozinha inglesa, por isso é um pouco difícil encontrar pratos típicos do Reino Unido, e nada que se compare à nossa cozinha portuguesa.

Há algum hábito típico britânico que o Jorge tenha adquirido?
Não adquiri nenhum hábito britânico para, além de todas as sextas feiras, depois do trabalho, irmos para o pub beber uma cerveja e conviver um pouco com os colegas de trabalho, um hábito bastante interessante e comum em Cambridge. Mas o maior hábito britânico é o de beberem chá com leite a toda a hora, uma coisa que ainda não faz sentido para mim.

Que impacto está a ter o Brexit na sua vida, enquanto emigrante? Fá-lo ponderar sair do Reino Unido definitivamente?
Para já é tudo muito incerto e vai depender muito das negociações que vão fazer nos próximos dois anos. Não acredito que muito vá mudar na minha vida, pelo menos para pior; para já, o mercado e a moeda estão em queda, mas tudo devido a especulações, porque na realidade eles ainda não oficializaram a saída. Mas esta mudança nunca vai passar por expulsar os emigrantes atualmente no Reino unido, caso contrário, o país parava. Estou a pensar ficar no Reino Unido como planeado desde o início. Provavelmente irei pedir a dupla nacionalidade e assim fico com as vantagens de pertencer à U.E. e as possíveis vantagens de pertencer ao Reino Unido pós Brexit.

Portugal é para voltar de vez?
Não pretendo voltar para Portugal de vez, talvez quando for a altura da reforma. Estamos a criar carreira de trabalho aqui e, para além disso, não vejo grandes ofertas com futuro em Portugal, por isso o meu futuro vai ser pelo Reino Unido.

Aconselha a emigração?
Aconselho a emigração pela experiência de vida e profissional, mas se querem emigrar têm de o fazer com a consciência que não é tudo uma maravilha e que algumas dificuldades vão aparecer. Eu aconselho a emigração para quem não vê futuro em Portugal e procura uma vida melhor mas, se o fizerem, pelo menos aprender a língua é essencial. Muitos portugueses vêm sem saber uma palavra de inglês e depois são explorados por empresas de trabalho portuguesas, médicos, dentistas, etc. Se querem emigrar para enriquecer e voltar para Portugal, é melhor não virem porque isso não vai acontecer, nem sempre os grandes carros que se levam para Portugal na altura do verão (por vezes alugados) são sinónimo de uma boa vida no estrangeiro, muitas vezes é o contrário.

O que lhe deixa mais saudades em Alpiarça?
A família é sempre o que deixa mais saudades: de ver os sobrinho e afilhados a crescer sem estarmos por perto e a consequente perda de conexão entre nós. A minha decisão de emigrar também pode ser benéfica para eles, caso um dia mais tarde queiram seguir o mesmo caminho. Temos de pensar sempre positivo.

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