“Se não houver paixão e gosto por andar lá não se consegue”

Rui Taborda, 46 anos, iniciou-se no hóquei com seis. Fez a sua formação nos Tigres. Foi jogador, treinador e aos 39 anos, descontente com a sua prestação como treinador tirou o curso de árbitro. Para além de árbitro faz parte do quadro de honra dos bombeiros de Almeirim, desempenha funções de barbeiro na Marinha e é pai de família.

Estava à espera desta promoção?
Nós preparamo-nos durante a época toda para o nosso objetivo principal, a subida de esca-lão. Com o decorrer da época, deu para ver que as notas foram boas. Não sabemos as notas dos nossos camaradas, mas tinha esperança de conseguir este objetivo.

Como é que fazem a vossa preparação?
A preparação física é feita individualmente, depois temos manuais pelos quais nos temos que preparar para fazer testes ao longo da época. Temos um teste logo ao início da época, que conta para as notas finais. Depois temos a preparação jogo a jogo, que é ter o conhecimento das equipas que se defrontam, os posicionamentos delas, saber o que elas estão a jogar, ter conhecimento dos jogadores mais faltosos, aqueles que estão sempre debaixo de olho dos árbitros. Depois é fazer o melhor em campo.

Como é que são avaliados?
Há sempre um delegado técnico nos jogos para fazer a avaliação. Conforme as nossas prestações dão-nos as notas.

Como é que se iniciou no hóquei?
Comecei no hóquei com seis anos de idade. Eu fui jogador durante muitos anos, depois fui treinador, fui jogador-treinador. Depois, mais para conhecimento e para currículo do que para exercer essas funções, fui tirar o curso de árbitro. Nessa altura estava como treinador, as coisas não estavam dentro das minhas expetativas. Fui à experiência começar a apitar, foi uma boa experiência, foi algo de que gostei e continuei; já lá vão 13 anos.

Como é que conjuga as várias facetas da sua vida?
Isso é sempre o mais complicado, conjugar tudo. Tem que haver um bocadinho para tudo. Só assim é que as coisas correm bem, quando nos sentimos satisfeitos e estamos a fazer uma coisa que gostamos. Isto da arbitragem é mesmo isso, estamos a fazer aquilo que gostamos, não é algo que possa dizer de que se viva. Se não houver paixão, se não houver gosto por andar lá, não se consegue. A família às vezes tem que ser um bocadinho posta de parte, so-bretudo aos fins de semana. A marinha é durante a semana, os bombeiros agora já não é tanto, mas quando é preciso dá-se uma ajuda.

Tem apoio da sua família?
Sim, bastante. Não vão ver os jogos de hóquei. Só de pensar os nomes que iam ouvir, porque o árbitro tem essa particularidade de ouvir tudo e mais alguma coisa. Mas apoiam bastante. Quando chego de um jogo a minha filha pergunta sempre como é que correu. Gostam de me ver satisfeito, por isso dão-me muito apoio.

Que diferenças espera encontrar entre uma competição e outra?
Agora é um desafio muito maior. O palco é muito maior. Somos mais vistos. Temos que agradar a gregos e a troianos. Temos que agradar a nós próprios e temos que agradar à modalidade. É uma competição onde estamos a falar de equipas que se preparam uma época inteira para conquistar objetivos grandes. Irem a seleções nacionais, ganhar campeonatos, irem a competições europeias. Nós, árbitros, não podemos querer ser os protagonistas dos jogos, temos que ser o mais coerentes e objetivos dentro do campo. Num jogo de 2.ª ou 3.ª divisão não é que estejamos mais à vontade, mas o calibre dos jogadores é outro. A preparação tem que ser outra, o estudo dos jogadores e das equipas é outra. E é o desafio de nos manter na Primeira Divisão. Chegar lá já é difícil, são muitos a concorrer e depois é o desafio de nos manter lá. É tentar ficar onde estão árbitros internacionais, com um currículo muito superior ao nosso, e temos que nos aplicar.

Ambiciona chegar a árbitro internacional?
Não, já é um pouco tarde. Comecei tarde na arbitragem, com 37 anos. A partir dos 50 já não vamos a internacional, temos que ter três anos no escalão principal para chegarmos a internacional. Chegar aqui já foi muito bom, mesmo que seja só esta época já foi um passo muito importante.

Como é que acompanhou a prestação da nossa Seleção de Hóquei no Europeu?
Acho que foi bastante positiva. Estamos a recolher os frutos do que fomos conquistando nos últimos anos. O professor Sénica apostou nas camadas jovens e são eles que têm dado glórias ao hóquei em patins. Com uma equipa bastante jovem conseguiu-se fazer o que já não se fazia há 18 anos. A estrutura que lidera a seleção nacional está a apostar naquilo que fomos adquirindo. Conseguiu-se títulos nos sub-17, nos sub-20 e conseguiu-se agora nos seniores. Temos é que não desguarnecer a retaguarda e manter as camadas jovens na mó de cima.

É adepto de alguma equipa da 1ª Liga?
Presentemente, sou adepto de um bom jogo de hóquei, mais do que do clube de que sou simpatizante. Não sou um adepto fervoroso, mas se uma equipa estiver a jogar um bom hóquei sou capaz de torcer para que ganhe.

Que jogo é que gostava de arbitrar?
É o jogo que toda a gente gosta de apitar, o Benfica contra o Porto. É uma coisa que tão depressa não me vai acontecer. Presentemente, já temos equipas que estão a apostar forte, para além do Benfica e do Porto, como o Sporting, o Sanjoanense e o Juventude de Viana.

Espera jogos competitivos?
Claro. O Hóquei é uma caixinha de surpresas. Tanto se pode dar uma goleada hoje, como sofrer uma no jogo a seguir. Prova disso é o Turquel, que é uma equipa que surpreende muitas vezes em casa e tem-se mantido sempre no meio das tabelas.

Preferiu a sua carreira como jogador e treinador ou como árbitro?
Foram várias etapas. Gostei muito de ser jogador, fiz bons jogos, cumpri o que me era pedido enquanto era treinado. Como treinador, gostei muito de treinar os miúdos. Gosto de trabalhar com os miúdos. Há muita gente que não gosta de apitar ou de estar em contacto com os miúdos. Eu não me importo nada de apitar os pequenininhos, acho engraçadíssimo. É na fase de aprendizagem que temos que lhes dar a mão. Gostei muito dessas duas etapas. Como árbitro está a ser diferente. Como árbitro temos que estar fora do jogo. Se passarmos despercebidos é porque fizemos um bom trabalho. Se não formos protagonistas, se formos praticamente um assistente fora do campo disfrutamos muito mais da modalidade. Já tive propostas para deixar a arbitragem e voltar a ser treinador mas por enquanto sinto-me bem a apitar.

Em que equipas é que jogou e treinou?
Comecei a minha formação aqui em Almeirim. Depois fui para Coruche, daí segui para Santarém. Depois voltei para Coruche como treinador. Em Almeirim treinei as camadas jovens.

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