Comerciantes da Rua de Alpiarça contrariam crise

Faltam, talvez, os arbustos secos a rolar estrada fora para ilustrar a desertificação, mas os “cowboys” estão lá: são os poucos comerciantes resistentes que ainda  conseguem manter as portas dos seus estabelecimentos abertas ao público desde a Rua de Alpiarça à de Salvaterra.

Telma Silva, responsável pelo espaço Tendências Moda, que não conta ainda com uma década de existência, confessa que o movimento na rua é assegurado quase exclusivamente pelo constante tráfego barulhento de veículos “de resto só por aqui passam os moradores da área ou quem já sabe ao que vem. Esta não é propriamente uma rua convidativa a passeios”. Não obstante, a localização da sua loja perto dos semáforos acaba por trazer algum benefício: “já tive clientes a dizerem-me que só se aperceberam da existência da loja enquanto esperavam que o sinal abrisse”. A lojista admite que talvez a rua do seu estabelecimento não receba tanta atenção por parte da autarquia mas faz questão de frisar que, mais do que o “típico queixume”, o importante é saber tirar partido daquilo que se tem. A poucos passos de distância, a já extinta empresa de Eugénio Pereira, com o mesmo nome, é um exemplo de negócio afetado pela chegada das cadeias de lojas com maior poderio económico.
Da Rua de Alpiarça passamos à do Paço e deparamo-nos com o mesmo cenário, juntando a isso um centro comercial entretanto desativado. Aí resiste há já vários anos a Ervanária Longa Vida, que foi das primeiras do seu género comercial a abrir no município. Mais abaixo, na Rua Dr. Francisco Nunes Godinho, encontramos a proprietária, Joaquina Marques que, face à concorrência, teve de adaptar o seu negócio exclusivo de têxteis, “Preço Justo”, para incluir artigos de mercearia e captar assim a atenção da clientela. Joaquina orgulha-se do seu pequeno espaço reservado ao têxtil porque “pelo menos temos só artigos nacionais e de qualidade” mas reconhece que hoje em dia isso já não é suficiente para atrair o consumidor de classe média baixa.
Por fim, chegamos à Rua de Salvaterra e encontramos dois estabelecimentos abertos em toda aquela extensão. Se por um lado alguns relegam parte da culpa aos dirigentes autárquicos, outros depressa desdramatizam o papel que a Câmara desempenha no rol de ‘vende-se; trespassa-se; mudámo-nos’, que emolduram as montras empoeiradas, outrora impecáveis e atrativas ao público transeunte destas ruas, e se a gastronomia é cartão de visita em Almeirim, tal facto não se reflete por aqui, pois nem a Marisqueira São Roque, famosa pelos seus petiscos e local de paragem quase obrigatória para muitos camionistas, resistiu. Há, ainda assim, fatores que parecem reunir consenso entre os novos e vetustos comerciantes: o fraco poder de compra, as grandes superfícies comerciais e a concorrência chinesa são os principais inimigos de quem quer vingar no comércio local.

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