Almeirim e os seus habitantes

“…vila grande/pequena cidade em transformação, calma, agradável e atrativa, de origem agrícola com forte dinâmica vinhateira, bem localizada (na proximidade de Lisboa tem acesso ás melhores ofertas comerciais e culturais), bem servida de equipamentos e serviços, tem uma boa rede escolar e um equilíbrio social sem extremismos, de gentes laboriosas e acolhedoras, com gosto pelo seu folclore festivo e tauromaquia ribatejana. Com rápida expansão urbana e atratividade nas ultimas 4 décadas mostra apetência para uma fácil integração de novos habitantes, tem grande vivência desportiva entre os jovens e tornou-se centro gastronómico nacional… a autarquia promove sucessivas melhorias numa estratégia planeada, o associativismo vive momentos promissores (Adega Cooperativa, Associação 20Kms,…), a solidariedade tem visibilidade institucional pela ação dos Bombeiros, Misericórdia, Centro Paroquial, CRIAL, bancos alimentares, Universidades seniores…, os emigrantes voltam sempre com saudades, os jovens com um pé lá e outro cá, os almeirinenses orgulham-se da sua terra…”

Abordado o ambiente físico, as casas e o património edificado de Almeirim mais importante será pensar agora o seu património imaterial, o caráter dos habitantes que lhe dão vida, a sua alma.
O que caracteriza e difere os habitantes de Almeirim de outras vilas/cidades ribatejanas?
Não é difícil detetar como a comunidade almeirinense e os seus modos de vida diferem das vilas vizinhas sabendo que todas elas têm os seus costumes, formas de vida e identidades próprias determinadas pelos seus diferentes percursos históricos, desenvolvimento económico, caracterização social, regimes de propriedade, relações de trabalho entre empregadores e assalariados.
A identidade atual dos seus habitantes foi forjada ao longo do tempo, em especial nos últimos 150 anos, a partir das profundas mudanças políticas, económicas e sociais de meados do seculo XIX: a revolução liberal, a alteração do cadastro do concelho e acesso à propriedade, as importantes obras públicas e inovações agrícolas na região. Alinhemos então os principais fatores que no sec. XIX alteraram o território, moldaram classes sociais, o modo de ser e viver desta comunidade:
1-Com a extinção da Coutada de Almeirim (do rio Tejo à Ribeira de Muje, e do Paul da Atela a Muge) as suas terras passaram para a fazenda pública e vieram a ser vendidas e aforadas. Divididas em pequenas propriedades (em geral de ½ a 1 hectare) foram estas desbravadas / arroteadas (desmatação e transformação em terras agricultáveis) por jornaleiros de poucas posses, centenas de pequenos agricultores foreiros nos Casais do Concelho/Fazendas de Almeirim, Paços Negros, Frades, Foros de Benfica e outros. Pequenos e médios proprietários deram origem a uma classe de agricultores que ainda hoje predominam no concelho: os FAZENDEIROS, gentes de trabalho. Alteração estrutural da maior importância social, pois permitiu criar uma classe economicamente autónoma que, em períodos de cheias ou crises de trabalho passaram a ter meios próprios de subsistência, salvos da proletarização/dependência absoluta dos lavradores empregadores. A fome ou pobreza extrema reduziram-se, com relativo esbater das desigualdades sociais. As mulheres trabalhando lado a lado com os homens e recebendo salário próprio (mesmo que inferior aos dos homens) assumem um comportamento e alguma autonomia individual que as diferencia de outras zonas do país.
2-A regularização da bacia do Tejo tornou agricultáveis os campos da lezíria até então encharcados de zonas pantanosas, proporcionando a construção de diques de proteção e o canal da “Vala de Alpiarça”, à força de valadores, junto à vila de Almeirim. Novos campos férteis e produtivos, são adquiridos pela nova aristocracia liberal e pela nova burguesia de proprietários: os LAVRADORES. As grandes casas agrícolas e os lavradores enriquecidos, com proximidade do poder central, tiveram uma influência determinante na execução das obras públicas que vieram a beneficiar a região, entre as quais a expansão do caminho de ferro e a construção da Ponte sobre o Tejo entre a ribeira de Santarém e Almeirim (1881), inquestionavelmente beneficiada com esta localização. Foi relevante a ação do Conde da Taipa e da Alorna na introdução de maquinaria e novas técnicas agrícolas. Recorde-se a construção do inovador lagar de azeite de purgueira que veio a iluminar Lisboa.
3-Almeirim descobriu então uma NOVA VOCAÇÃO AGRÍCOLA que marcaria o seu futuro económico e social: a plantação de vinhas, produção de vinho e o sequente negócio de aguardentes. Tornou-se uma “terra prometida” aos olhos de todo o país. A produtividade dos campos multiplicou a oferta de trabalho, originou uma forte atratividade de mão-de-obra agrícola, vinda do centro e norte do país. Tornou-se uma TERRA de IMIGRANTES que, em grande número aqui vieram a fixar-se e constituir família (confirmem a origem dos vossos bisavós e verão) originando um significativo aumento de novos habitantes.
Na primeira metade do seculo XX, a vila impôs-se entre os concelhos da lezíria como principal produtora e fornecedora de aguardentes vínicas para os vinhos do Porto. Chegou a ter 50 destilarias. A compra e venda de vinhos tornou-se de tal forma intensa que deu origem a novas atividades negociais de armazenistas e comissários de vinhos. Para debelar a crises da filoxera na lezíria ribatejana e no uso das novas práticas de enxertia os trabalhadores rurais de Almeirim e Fazendas tornaram-se especialistas de modo que chegaram a ser recrutados em ranchos para salvarem as vinhas do Douro.
Passado o período republicano e a ditadura salazarista de 50 anos foi a Revolução de 1974 passo histórico da maior importância nas alterações do ambiente social dos almeirinenses, como por todo o país. Liberdade de reunião e expressão, democracia política e eleições livres, poder local democrático com enorme participação popular e desenvolvimento urbano acelerado, tudo mudou radicalmente. Almeirim concelho baixou a taxa de analfabetismo em 1981 para 29% e em 2011 para 9% (sempre mais elevado entre as mulheres que os homens). Em eleições autárquicas o eleitorado ao longo dos últimos 40 anos revela uma fidelização constante a opções de centro esquerda reveladoras da predominante “classe média”, direta ou indiretamente, ligada à agricultura.
Na verdade foram as crises políticas marcantes que criaram novas oportunidades económicas com mudanças sociais que Almeirim e os almeirinenses souberam aproveitar adaptando-se aos novos tempos e vislumbrando futuro com entusiasmo, inovação e espírito de iniciativa. Esta é das virtudes que melhor os distingue entre os demais.
Entre 1960 e 2011 a mão de obra por setores de atividade no concelho de Almeirim alterou-se profundamente conforme dados do INE: Para cada 100 trabalhadores a percentagem na Agricultura baixou vertiginosamente de 71% para 11% (por via da mecanização e das condicionantes da adesão à CEE); pelo contrário nos Serviços subiu de 17% para 66% em consequência da CEE e do aumento de escolaridade/formação das novas gerações. O setor Industrial com a instalação da Fábrica da Compal duplicou de 11% para 22%. As novas gerações representam hoje uma nova realidade social e forma de estar. A livre circulação no espaço europeu num mundo globalizado e as novas tecnologias de comunicação alteram por completo as relações sociais e de vizinhança mas, felizmente, num meio pequeno como Almeirim mantêm-se laços familiares e afetivos na vida social, proximidade, simpatia e solidariedade. Um bem precioso!
Nos meios pequenos os fracos níveis de literacia condicionam o desenvolvimento mas, por outro lado, proporcionam a proximidade/afabilidade nas relações sociais ao contrário das cidades maiores em que as relações sociais e de vizinhança se esbatem em frieza e distância, anonimato pessoal e familiar. No nosso caso concluo e assumo claramente: “…os Almeirinenses distinguem-se pela sua capacidade de trabalho, empreendedorismo, abertura a mudanças, entusiasmo perante os desafios e oportunidades, espírito de iniciativa, resiliência nos tempos difíceis, tolerantes com as opções religiosas e pluralismo de ideias,…são simpáticos e de proximidade afável, trabalhadores e com sentido prático, justos e francos “preto no branco”, amigos do seu amigo, …”
Elias Rodrigues, Set 2016

Post Scriptum: no artigo “Almeirim, pensar a cidade” publicado em 1 julho 2016 onde se lê “Almeirim não tem uma imagem identificadora forte” deve ler-se “Almeirim, a não ser a Sopa de Pedra e a gastronomia, não tem uma imagem identificadora forte”. O que se questiona é se a atração gastronómica é suficiente e plenamente satisfatória, se não serão desejáveis ações complementares dignificadoras da Cidade?

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