“Panhufa” um Símbolo que caiu no esquecimento…

Foi no serviço militar que se encontrou com José Joaquim Bento e José Crespo para vir para o União de Almeirim. Mas o sonho foi uma desilusão. Hoje, Carlos Alberto (Panhufa no mundo do futebol) vê homenagens para tanta gente que sente que caiu no esquecimento. A bancada do Estádio foi feita com o dinheiro da sua transferência para o Sporting, a mais lucrativa do clube até hoje. E mais, ficou escrito no contrato uma promessa de trabalho na Câmara Municipal há 32 anos, e até hoje… nada! “Panhufa”, garante no entanto que adora os almeirinenses e que vai ficar na cidade até “morrer”…

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O Almeirinense: Como apareceu Panhufa em Almeirim?
Panhufa: Tudo começou em 1974 quando o U. Almeirim comprou a minha carta ao Esperança de Lagos. Foi no serviço militar que fui abordado pelo José Joaquim Bento e pelo José Crespo que me perguntaram se queria vir jogar para Almeirim e eu disse que sim. Mas só ficou confirmado no fim de acertarem comigo e de terem pago à direcção do Esp. Lagos.

E depois de tudo acertado?
Passado pouco tempo, de termos chegado a um acordo, onde ficou acertado que iria jogar praticamente de borla pois ia ganhar 100 escudos, já era chefe de família, apareceu o Zé, irmão do Arlindo Pacheco, com uma carrinha Ford Transit para me carregar a mobília, mas como não cabia, tive de vender toda antes de partir e deixar casa e emprego. Nessa carrinha só coube a minha esposa, os meus dois filhos, uns cobertores e a televisão. Não trouxe mais nada. Fomos viver para casa do José Joaquim Bento, um amigo a quem devo muitas obrigações e quem nunca vou esquecer para o resto da vida. Muito tempo depois é que fui viver para uma casa na Rua Moçambique, onde ainda resido.

Houve algumas promessas que não foram cumpridas?
Sim, por exemplo, ainda estou à espera que me arranjem o trabalho na Câmara Municipal de Almeirim, que me foi prometido por escrito há 32 anos pelo Sr Alfredo Bento Calado. O que me deram foi dias inteiros a carregar sacos de arroz na EPAC, a seguir, colocaram-me na EDP a abrir buracos dias inteiros com uma pá e uma picareta. Como os treinos aconteciam ao fim do dia e tínhamos de cumprir, decidi mudar para o Francisco Batista, do armazém de vinhos e acabei a fazer longos cursos no Néo Godinho onde abalava por vezes à 2ª feira e regressava à 6ª feira.

Assim era impossível ser jogador de futebol?
Por vezes nem era convocado, pois não treinava. Desgostoso com o que me estava a acontecer, voltei a trabalhar em Lisboa e acabei em Israel a trabalhar três anos. Findo esse tempo imigrei para o Luxemburgo, onde comecei a jogar num clube amador da cidade onde estava a trabalhar. Outros clubes perguntaram-me se queria lá jogar, só que a minha carta pertencia ao U. Almeirim, e o presidente dessa altura, o Sr Manuel Maria, mandou a resposta a dizer que eu ainda estava “preso” ao clube. Depois vim a saber que nem foi o Almeirim que pagou a minha carta para vir, mas sim sócios e adeptos que contribuíram com algum dinheiro para pagarem a transferência.

Sendo jogador do União regressou?
Sim. Queria era jogar e mostrar o meu valor. Tratei de resolver de novo a questão do emprego que estava prometido na Câmara. Todos os dias os directores do Almeirim mandavam- me ir ter com o Sr Presidente Alfredo Calado. Subia ao 1º andar, falava com ele (para saber da situação). A resposta era sempre a mesma, “estamos a tratar da situação…”. Algum tempo depois vieram ter comigo para ir trabalhar para o cemitério, mas não aceitei. Ficou então uma nova promessa de que quando o Pavilhão estivesse pronto que seria eu e a minha família a tomar conta da manutenção do agora Pavilhão Alfredo Calado. Esse emprego também passou à história para desgosto de toda a minha família que sofria com toda a situação. Eu estava bem em Lagos, com casa e emprego, prometeram-me mundos e fundos para vir e ainda hoje, 32 anos depois espero o tal emprego. Caso não imigrasse, hoje andava a pedir esmola. A maior vigarice que me fizeram foi numa festa no salão ao lado da Casa do Povo, onde assinei algumas dez folhas. Eu como era honesto e puro, acreditei no que me disseram. Quando estava para ir para o Varzim, da I Divisão, é que vim a saber que estava “preso” ao Almeirim por 6 anos. Foi uma grande vigarice! Sinto-me esquecido por muita gente desta cidade, que sinto como minha. Sinto-me um almeirinense por todos os amigos que aqui arranjei e no entanto…

Como surgiu o Sporting?
Primeiro quero dizer que em Almeirim sinto que não fui ninguém. E ainda está para aparecer um jogador com a categoria que eu tinha para ser vendido naquela altura a um grande do futebol nacional por 770 contos e que caso conseguisse fazer 9 jogos na equipa principal, o União ainda recebia mais 200 e tal contos. No estrangeiro, qualquer imigrante de Almeirim ficava orgulhoso por saber que havia um jogador da sua terra num clube como o Sporting. Foi com esse dinheiro que conseguiram fazer aquela bancada de sócios que ainda hoje se encontra no Estádio, onde ainda é tratada como a bancada do Panhufa. O U. Almeirim não me deu um tostão da minha transferência. Não apanham mais nenhum Panhufa, que naquela altura levava sete camionetas de excursão atrás da equipa para o ver jogar. Recordo o meu primeiro treino no Sporting, com o treinador Fernando Caiado, onde marquei 2 golos ao Vítor Damas. De seguida levaram-me para a Sede para negociarem a minha transferência. Tive uma grande ajuda do Jardim, que nessa altura estava no Sporting e indicou-me aos técnicos. No dia em que assinei pelo Sporting, tinha no bolso um telegrama para ir treinar ao Benfica e ser observado. Quanto ao Sporting, infelizmente só fiz 3 jogos e depois fui vendido ao Farense, onde vivi o auge da minha carreira.

 

E depois?
O presidente ainda me perguntou se eu queria ir para Faro, pois tinha contrato com o Sporting onde ganhava 60 contos. Mas o Farense oferecia 120, era o dobro, não podia perder a oportunidade e aceitei ir. Mas até aí tive problemas devido ao que eu considerei ser o pior treinador que tive e que até como homem não prestava, o Manuel de Oliveira, que ainda hoje é comentador desportivo na rádio renascença.

Está desiludido com o futebol?
Bastante. Foram anos muito duros. Se tivessem sido honestos com o que prometeram, acho que hoje ainda estava ligado ao clube, porque gosto das camadas jovens. Ainda estive no São Roque, com o Zé Apesar de tudo, Panhufa sente que o U. Almeirim é o seu clube de sempre Carlos como Presidente, mas para tomar conta de miúdos é preciso ter alguma formação. Lembro-me de um jogo na Académica de Santarém, onde ganhámos 1-0, mas o pai do Saucedo ficou chateado com tantos golos falhados. Estávamos reunidos e ficou deliberado quem fosse ao treino da terça-feira seguinte é que ganhava o dinheiro do bilhete. Quando venho a sair da Sede, o Presidente atingiu o guarda-redes, Paulo Alemão com uma cadeira e não gostei do que aconteceu, entreguei o meu cartão. Em Almeirim, ainda me convidaram, mas vi situações de má educação nos treinos de miúdos e ouvi “bocas” de que não gostei e disse para mim mesmo, não, o futebol não me merece e até hoje nunca mais voltei.

 

B.I.

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Carlos Alberto Gonçalves Simões Lopes – “Panhufa”

Data de nascimento/ idade – 18 / 10 / 1944 – 71 Anos

Clubes que representou – Belenenses; Atlético; Esperança de Lagos; U. Almeirim; Sporting; Farense; Regresso ao U. Almeirim; Coruchense; Foros Benfica e Chamusca (última camisola oficial)

Figura – Malta da Silva (jogador do Benfica)

Clube – U.Almeirim

Prato – Peixe

Hobbies – Dedicação ao trabalho

Música – Clarim nos Pupilos do Exército

Filme – Os Dez Mandamentos e Titanic

O que estou a ler – Geralmente só me dedico às palavras cruzadas

Filipe Rego

Entrevista publicada a 15 de março de 2007,  na edição 897 d’O Almeirinense

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