Que futuro para o Centro Histórico de Almeirim?

1 – Contextualização
Os centros históricos das cidades têm perdido a sua função residencial sendo, cada vez mais, centros de serviços diferenciados. Esta perda de função residencial é muito grave pois conduz à desertificação humana, com consequências a nível de:
Aumento da criminalidade nos centros históricos; Redução das atividades económicas de proximidade; Perda de valor económico dos edifícios localizados nos centros históricos;

Estas tendências são negativas pois reduzem o valor de todo o imobiliário localizado nos centros históricos, conduzindo a perdas económicas para os seus proprietários, para os pequenos comerciantes e industriais, para os Municípios e, em última análise, para toda a comunidade. Esquematicamente, podemos caracterizar as funcionalidades afetas aos centros históricos, da seguinte forma:
Hoje, o centro histórico está a sofrer a seguinte evolução: Importante centro de comércio e serviços; Centro cultural, histórico e turístico; Redução da importância da componente habitacional; Progressivo desaparecimento do retalho alimentar, até como consequência da desertificação humana dos centros históricos; Reforço da concentração de unidades do retalho não-alimentar e do canal horeca (Hóteis, Restaurantes e Cafés); Alargamento progressivo dos espaços pedonais, como fator facilitador para potenciar as componentes culturais, históricas e turísticas.

Contudo, esta transformação só existe de facto, quando a componente turística, de lazer, histórica e cultural têm uma importância relevante. Ora, este não é o caso de Almeirim.

2 – Centro histórico de Almeirim
No caso específico de Almeirim, sendo uma cidade relativamente recente, pouco tem a oferecer na componente histórica, quando comparada com outras urbes próximas. A nível de Lazer, o Tejo não está minimamente aproveitado, nem tão pouco as comunidades se identificam com o rio. O rio Tejo, com o seu potencial de desenvolvimento de turismo, de lazer, é uma entidade quase estranha à população. O Turismo tem algum poder de atração na componente gastronómica, sendo o seu ex-libris a “sopa da pedra”. Contudo, está limitado a uma pequena área urbana, deslocalizada face ao centro urbano atual. Isso dificulta o efeito potenciador do turismo gastronómico sobre as outras atividades económicas da cidade. Assim sendo, parece-nos que as funcionalidades que o centro histórico de Almeirim poderá potenciar para o seu desenvolvimento são as residenciais, o comércio e os serviços. Todas as outras, no contexto atual, serão residuais.  O centro de Almeirim, sendo relativamente recente e tendo-se desenvolvido na lezíria, tem algumas vantagens:
As características da malha urbana facilitam a mobilidade residencial e a mobilidade humana; A malha urbana existente já integrou a realidade automóvel na sua arquitetura, apesar de apresentar algumas restrições.
Já no que se refere ao espaço público, a realidade é bem diferente, caraterizando-se por:
A inexistência de alternativas de mobilidade humana, sempre que se condiciona a circulação automóvel; Inexistência de uma rede de transportes urbanos, alargada e com fluxos frequentes; A necessidade de se retirar do centro histórico a circulação de veículos pesados, seja de transporte de pessoas, seja de mercadorias; Inexistência de estacionamento de proximidade, face ao comércio e serviços existentes em número suficiente e com uma gestão temporal adequada ao longo do ciclo de atividade diária e semanal.

Todas estas limitações de mobilidade do espaço público serão, cada vez mais, inibidoras do desenvolvimento do centro da cidade. A evolução demográfica, com o acelerado envelhecimento populacional, tornam cada vez mais urgente dar prioridade a questões de mobilidade humana no espaço público.
Somente para exemplificar, não se pode pedir a pessoas com 70 e mais anos que deixem o carro a 100 metros de distância dos locais onde vão efetuar compras e que, depois, carreguem com pesos de 20 ou 30 kg no regresso ao seu automóvel e, simultaneamente, pretender que essas pessoas estejam dispostas a cumprir este esforço, numa base diária. Neste contexto, implementar um projeto global para promover a sustentabilidade da mobilidade urbana através da otimização de fluxos logísticos é uma urgência, até como base de sustentação para as diversas valências, nomeadamente:
Alargamento progressivo dos espaços pedonais; Existência de parques automóveis localizados estrategicamente e com uma estratégia de utilização temporal ajustado às atividades diárias. Realmente, o uso de grande parte dos lugares disponíveis nos parques de estacionamento deveria estar limitado a, por exemplo, 60 minutos em determinados períodos do dia, nos dias úteis; Existência de transportes de passageiros, de pequenas dimensões, em quantidade e periodicidade conveniente e que assegurem o transporte entre o centro histórico e os parques periféricos e/ou centrais de camionagem; Existência de locais exclusivos de carga e descarga, quer para os transportadores de mercadorias, quer para os clientes das lojas, que assim evitariam carregar pesos excessivos.

Assim, a maximização do potencial do centro histórico passa pela organização dos fluxos logísticos de abastecimento de pessoas e mercadorias ao mesmo. A nova legislação, penalizadora para as infrações de condução – carta por pontos – faz com que seja cada vez mais urgente encontrar soluções de longo prazo para a problemática da mobilidade. Resolvê-la é estruturante para fazer com que as famílias regressem a residir no centro histórico, e para que o comércio e serviços prosperem e se desenvolvam, contribuindo para a criação de emprego e valor para a região.

3 – Conclusões
Os centros históricos trazem consigo as potencialidades associadas à cultura e à história das regiões em que se inserem. São valores únicos, exclusivos e que importa valorizar. Tal, só é possível, fazendo com que as pessoas fruam os centros históricos, fazendo com que se tornem centros de residência, de cultura, de lazer, de comércio e serviços. Assim sendo, um projeto de reanimação dos centros históricos terá de ser suficientemente globalizante para integrar quer os novos conceitos de centro comercial ao ar livre, quer as componentes culturais, históricas e lúdicas. Almeirim tem potencial para exercer um forte poder de atração sobre todas as populações que se situam geograficamente num raio de 20 a 30 km. É um desafio urgente, sendo prioritário resolver as questões de mobilidade humana e de distribuição física de mercadorias. Sem criarmos condições de mobilidade humana e de distribuição física, pouco será possível fazer, sustentadamente. Exige um trabalho concertado entre todas as forças vivas da cidade, partilhando visões e tendo uma perspetiva integradora de todas elas. Almeirim não deixa de refletir esta urgência!

 

Hélder Fernandes – Empresário

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