O acolhimento dos refugiados (2ª Parte)

“A Intendência-Geral da Polícia lançou um edital a pedir ajuda para os infelizes que haviam fugido «à tirania dos inimigos deste Reino».” (40) Neste contexto avaliamos, assim, qual o impacto que teria tido na freguesia de Santa Marta de Monção, este fenómeno extraordinário que nos referiu então o Barão de Marbot. Compulsados todos os registos paroquiais da paróquia de Santa Marta de Monção, de entre 1809 a 1812, tivemos a oportunidade de, com sucesso, identificar alguns indícios de uma realidade que esta freguesia também acolheu, ou seja, o albergue de refugiados, nalguns casos de famílias inteiras que, desterradas dos seus lares por via da invasão inimiga, se encontravam aqui, deste modo temporariamente estabelecidas. Sendo que se conseguem identificar estes indivíduos, na sua maioria, como sendo originários da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Golegã, zona também profundamente afectada pela ocupação francesa do eixo Santarém-Torres Novas, entre Novembro de 1810 e Março de 1811. Nessa freguesia estivera permanentemente a 3ª divisão do 6º corpo, comandada por Loison, o famoso “Maneta”, que tinha tido por missão o patrulhamento daquela zona, assim como a construção de duas pontes no Zêzere para isolar a praça de Abrantes. (41) Seguem-se então alguns exemplos: “Aos dezoito do mês d’Outubro de mil e oito centos e dez baptizei solenemente Maria, filha legitima de Joaquim da Silva e Joanna Margarida, recebidos na freguesia do Val, Arcediagado de Santarém. Neta paterna de Silvério da Silva e Anna Maria; materna de Francisco da Silva Franco e Bernarda Maria; todos da mesma freguezia, que todos se achavaõ refugiados nesta parrochia, pella invazaõ dos Senhores Françezes, Nossos Portetores (…). as) o reitor Joze Antonio Oliveira Barretto” (42) “Aos 20 do mês de Outubro de mil e oito centos e des falleçeo da vida prezente Maria, filha de Diogo de Govea e Eugenia Maria, cuja morta era solteira e natura da freguezia de Nossa Senhora da Conçepçao da Golegam, jaz sepultada nesta igreja de Santa Martha, em cuja freguezia morreo na ocasião de fuga por motivo dos françezes que envadiraõ este reino (…) as) o reitor Joze Antonio Oliveira Barretto” (43) “Aos vinte e dois do mês de Outubro de mil e oito centos e dez, baptizei sollemnente Carlota Joaquina, filha legitima de Joze Correia e Jozefa Maria, recebidos na freguezia do Salvador de Santarem, e veio refugiarse neste destrito por invazaõ dos françeses (…). [as) o reitor Joze Antonio Oliveira Barretto]” (44) (40) Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, Legislação Portugueza, 33, nº 325: Edital de Lucas de Seabra da Silva, de 8 de Outubro de 1810. (41) RITA, Fernando, op. cit., p. 101. (42) ANTT, Paróquia de Santa Marta de Monção, Registos de Baptismo 1810, fl. 362. (43) Idem, ibidem, Registos de Óbito, 1810, fl. 339. (44) Idem, ibidem, Registos de Baptismo, 1810, fl. 362v.

Gustavo Pacheco Pimentel, Investigador

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