Quando o Natal era outro!

Se há épocas do ano especiais, o Natal é talvez aquela que mais marca o calendário dos humanos de todo o mundo. Mesmo entre as religiões que não celebram o nascimento de Jesus, o dia 25 de dezembro não passa despercebido.
Hoje, no presente, as tradições estão mais viradas para o consumo e para os sinais exteriores do que para o seu valor simbólico e espiritual. É o Pai Natal um pouco por todo o lado, as grandes árvores de natal, os presépios de todas as cores e tamanhos. São as cartas ao Pai Natal, as publicidades, as festas e mais festas….
O Natal de hoje está longe dos Natais de outros tempos… aqueles natais em que toda a família se sentava junto à lareira à espera das filhoses fritas em azeite e feitas pela noite de consoada adentro.
“No meu tempo nem sabia o que era uma árvore de natal!” começou assim a conversa a Dona Ludovina. Aos 90 anos, recorda bem os seus tempos de mocidade e as noites de Natal vividas no Bairro da Tróia. “Ouvíamos dizer que lá em baixo, na vila, junto ao jardim, os ricos tinham prendas e tudo; mas nós, na Tróia, lá sabíamos o que era isso!”. Com algumas lágrimas a correr pelo rosto, Ludovina recordou aquele Natal em que não havia nem uma couve para a sopa, nem uns tostões para a massa dos velhoses:” havia tanta pobreza na nossa casa, que houve um ano que a minha mãe só chorava, não tinha nada para pôr na panela, quanto mais para fazer os velhoses que nos faziam tão felizes! Era o que nós mais gostávamos, acordar de manhã e cheirar a cafeteira do café e os velhoses feitos pela calada da noite.”
Valia a famílias como a da dona Ludovina, a generosidade de alguns vizinhos mais afortunados que partilhavam da sua bonança com os mais pobres. “A Maria Calada – foi ela a nossa salvação naquele Natal! Foi ela que nos deu a couve, o feijão e até o toucinho! E enchemos a barriga naquele dia de Natal, e até tivemos direito a filhoses, que o Calado da padaria deu a massa, e a tia os ovos, e a vizinha os limões”.
Lá longe, na Ribeira da Calha, para os lados da serra e da Charneca, não faltava a galinha morta de propósito para o Natal e os velhoses, claro – ora estendidos, ora feitos à colher – mas sempre bem fritos no lume, acompanhados pelo café das borras quase sempre requentado, que o dinheiro não chegava para mais.
Hoje, a dona Claudina já tem 84 anos, mas ainda não esqueceu o quanto andava no dia de Natal só para ir ao baile a Paço dos Negros. “A ceia era fraca, e doces não havia, só velhoses. Nem sabíamos o que era isso dos bolos! Nem arroz doce havia! Mas tínhamos sempre direito a uma roupita nova, por altura do Natal. E depois, é que era esperar pela tarde do dia 25 para ir mostrar a chita nova ao baile. Não havia mania de juntar tios nem primos, nada disso. Éramos só a gente! E já éramos muitos – seis filhos enchiam uma casa!”
Carolina Neves já está, também, a chegar aos 90 anos e foi rápida no sorriso e na memória quando foi desafiada a recordar o Natal. Natural de Muge, já concelho de Salvaterra de Magos, a dona Carolina recorda o fantástico pudim de leite que se fazia na sua casa, no Natal. E depois, os “maravilhosos velhoses que nos enchiam os olhos e faziam-nos muito felizes.” E, para além de alguma peça de vestuário mais bonita ou mais guardada para o Natal, a dona Carolina recorda o presépio: ”adorava o presépio e ainda me lembro bem daquelas noites de véspera de Natal que não dormíamos à espera do amanhecer e da prendinha no sapatinho… fosse grande, pequena ou assim-assim, mas aquela prenda de Natal valia ouro!”
O Natal de hoje está longe destes Natais de outros tempos… se é melhor ou pior?… cada geração terá o seu Natal para contar.

 

Susana Costa

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