“O balanço é muito positivo”

“Precisávamos de melhorar as nossas infraestruturas e ter um corpo técnico que tivesse possibilidade de se dedicar exclusivamente à modalidade”: são duas ideias fortes da entrevista de José Rodrigues, isto numa fase em que se assinalam 10 anos do nascimento da secção.

Que balanço global faz dos dez anos da Secção de Ténis da Ass. 20kms de Almeirim?
Em termos competitivos, o balanço desta década de existência da Secção de Ténis da Ass. 20kms de Almeirim não poderia ser mais positivo: títulos regionais de equipas em diversos escalões masculinos e femininos; presenças com equipas bastante competitivas em fases nacionais; jogadores vencedores de torneios de nível C e B em vários escalões; títulos individuais em campeonatos regionais; presenças de jogadores em campeonatos nacionais e até em torneios internacionais são indicadores de que em 10 anos fizeram-se jogadores de qualidade na nossa cidade.

Numa década foi já possível vencer vários títulos regionais, tanto nas camadas jovens como nos veteranos. É possível apontar para a conquista de campeonatos nacionais nos próximos anos?
O ténis atual é muito competitivo e exigente, é preciso conciliar um enorme conjunto de fatores para se poder ter sucesso a nível nacional… mas tudo é possível. É fundamental ser apaixonado pela modalidade e pela competição para conseguir trabalhar muito e bem (o volume de horas de treino e de competição é determinante); é preciso ter talento, levar o treino muito a sério, saber ouvir, ter características muito peculiares em termos da gestão das emoções, procurar estar sempre motivado e concentrado nas tarefas, não só do treino mas também nas questões relacionadas com a alimentação e repouso. Enfim, uma série de requisitos difíceis de conciliar numa só pessoa. Para isso é fundamental haver uma base de recrutamento de jogadores maior, para que todos, em cooperação, possam evoluir e haver alguém que consiga sobressair num nível mais exigente.

No que toca aos desempenhos individuais, têm existido jogadores a conquistar cada vez mais lugares nos rankings nacionais. Existe “matéria-prima” para continuar a crescer?
Um jogador “constrói-se” a médio/longo prazo, e temos novamente uma vaga de jogadores a iniciar com tenra idade, que podem superar aquilo que outros já conseguiram no passado. O ténis é uma modalidade em que é fundamental começar relativamente cedo para desenvolver capacidades de coordenação geral e técnico-táticas complexas. Há um equilíbrio muito difícil de conseguir entre os problemas inerentes a uma especialização precoce, que leva frequentemente a abandonos também precoces, e uma qualidade que exige que desde muito cedo os jogadores adquiram as competências básicas da modalidade. Neste momento, os melhores jogadores nacionais de sub-10 treinam todos os dias várias horas. Em Almeirim, a história da modalidade ainda não permite que os jogadores e seus familiares tenham essa consciência/mentalidade mas julgo que estamos no bom caminho.

Existe uma grande diferença entre os clubes mais históricos e com maior tradição e os clubes mais pequenos. Onde é que situaria a Sec. Ténis da Ass. 20km de Almeirim no panorama do ténis, e o que é que possibilitava dar o “salto” para outro patamar?
A principal diferença reside no número de jogadores dos escalões de formação. Como a base de recrutamento é maior nos clubes com maiores dimensões, também existem maiores probabilidades de terem jogadores com um nível melhor. Dentro da Associação de Ténis de Leiria, que tem filiados cerca de 30 clubes, julgo que o nosso clube se situa claramente dentro dos 10 melhores, quer ao nível dos resultados obtidos, quer em termos de número de jogadores. Para conseguirmos melhorar, precisávamos basicamente de duas alterações que iriam permitir chamar mais “utentes” para o ténis almeirinense: melhorar as nossas infraestruturas (ter um edifício de apoio para melhor receber todos os utentes em situações de eventos desportivos, melhorar o piso dos nossos campos e construir um 4º campo) e ter um corpo técnico que tivesse possibilidade de se dedicar exclusivamente à modalidade para ter disponibilidade para realizar mais eventos de caráter social para os utentes do clube e fazer ações de divulgação e promoção da modalidade junto das escolas e empresas.

A nível pessoal mantém, a par da sua atividade como treinador, uma forte atividade enquanto jogador. Aliás, recentemente, tornou-se o nº5 a nível nacional. De que forma é que isso complementa o seu papel de técnico, e qual a mais-valia que têm os atletas com esse exemplo?
A competição faz parte da minha forma de ser e de estar. Toda a minha vida me lembro de jogar, de correr, de treinar com o objetivo de competir o melhor que podia. Sempre fui, sou e serei competitivo. Essa é a minha essência, e é isso que procuro passar para os meus filhos, meus alunos e meus jogadores. Atualmente, nas gerações dos jovens, o que mais me impressiona é a falta de “exemplares” com este ADN. Quando era miúdo, todos os meus amigos competiam… tudo era pretexto para jogar. E dávamos tudo para não perder, nem que fosse a jogar ao berlinde. Hoje em dia, não é fácil encontrar um miúdo com estas características e que consiga, simultaneamente, conviver e aprender de uma forma educada e construtiva com as derrotas. Acredito na velha máxima de “uma imagem vale mais que mil palavras” e por isso o exemplo sempre foi a melhor forma de mostrar aos outros aquilo que pretendo da sua atitude; e é isso que procuro fazer enquanto jogador. Tenho a certeza que sou melhor técnico porque faço competição e sinto as mesmas dificuldades que os meus jogadores dentro do campo. Há coisas que não entendemos se não passarmos por elas…

Quais são os objetivos/desejos para a próxima década do ténis em Almeirim?
Gostava de me poder dedicar exclusivamente ao ténis. É uma modalidade pela qual me apaixonei e acredito que posso melhorar muito enquanto técnico, se tiver essa oportunidade. Conseguir viver a trabalhar naquilo que se gosta é um privilégio que não está ao alcance de todos. Felizmente, tenho conseguido fazer isso na maioria das vezes. Gostava também que o nosso clube crescesse em número de jogadores e pudesse, simultaneamente, obter melhores resultados nas competições onde nos inserimos. Ter mais jogadores com qualidade a participar em torneios de nível nacional e, quem sabe, poder acompanhar jogadores dos escalões de formação a torneios internacionais é uma ambição que não escondo. Sei que não será fácil, mas sonhar não custa e tenho vontade de seguir esse caminho. Se não for capaz de chegar a esse patamar, pelo menos de uma coisa tenho a certeza: o tempo que gastar com os meus jogadores será sempre recompensado pelo prazer de os ver crescer com os valores que o ténis preconiza.

.