Pampilho ao Alto 22

O Zé Chamusca,
Um dos cidadãos mais ilustres de Almeirim “e de tantos desconhecido” foi o José Correia, a quem conhecíamos por Zé Chamusca. Era um poeta que ombreava com os de mais alta craveira a nível Nacional, tais como Francisco Henriques, de quem foi amigo pessoal. Ambos, individual e coletivamente, foram vencedores dos mais prestigiados jogos florais. Pessoa de fino trato, ganhava a sua vida como desenhador de construção civil, para onde tantas vezes extravasava a arte e sensibilidade que jorrava da sua mente brilhante. Mas o Zé Chamusca era uma figura peculiar. Conheci-o como tosquiador de animais de tiro, percorrendo de bicicleta as ruelas de terra batida das Fazendas, e no seu fino sentido intelectual caricaturava os modos rudes e quase sempre hilariantes das gentes campesinas. O Zé Chamusca era uma personagem querida de toda a gente e de todas as classes sociais, relacionando-se igualmente tanto com os humildes como com as pessoas dos mais altos cargos – Locais, Regionais e Distritais. Porém, tinha uma tara: o cumprimento que fazia aos amigos próximos era uma mexedela no traseiro acompanhado da expressão: e o cu do cãozório! A verdade é que ele fazia aquele gesto com imensa graça e ninguém levava a mal quando, aliado ao gesto da mexedela, chamava a todos “cãozório”. Assim, gabava-se de ter mexido no cu ao cãozório do Mário Soares quando ele veio a Almeirim, e ainda havia de mexer no cu ao cãozório do Papa quando ele viesse a Fátima. Certa vez, na escadaria do Tribunal de Santarém onde ele se encontrava para ser testemunha de um caso, entrou um indivíduo bem aperaltado que o Zé Chamusca só viu pelas costas, e pensando tratar-se do Alfredo Calado, pessoa de quem era amigo íntimo, (então Presidente da Câmara de Almeirim), foi atrás dele e por detrás deu-lhe a célebre mexedela no traseiro e soltou a frase: e o cuzarrão do cãozório! O outro virou-se zangado, e quando o Zé Chamusca viu que não era quem esperava, envergonhadíssimo disse: desculpe, pensava que era um amigo! Ao que o outro secamente respondeu: estranha forma de cumprimentar um amigo. Foi uma risada geral de todo aquele pessoal que estava presente. Acresce que a personagem a quem o Zé Chamusca tinha apalpado o traseiro era o Juiz da causa da qual ele era testemunha, e o interrogatório decorreu sob forte contenção do Juiz para não se rir da atrapalhação do cãozório do Chamusca. Conclusão: depois da audiência, o Chamusca pediu mais uma vez desculpa ao Juiz, ficando ele e o Cãozório do Juiz amigos durante muitos anos.

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