As memórias de Dona Preciosa

Até o poeta Francisco Henriques escreveu num soneto intitulado “À memória de D. Preciosa Bela” que “Não era de Almeirim, mas nem que o fosse daria mais à Vila – ou à Cidade…”. Isto é apenas uma pequena explicação do que alguém que, infelizmente, já não está entre nós mas deu muito ao Carnaval de Almeirim.

O Almeirinense foi com o filho, José Carlos Silva, saber como se vivia lá em casa a festa e que influência teve a D. Preciosa (à direita) nas festas carnavalescas.

“As minhas memórias estão «bem vivas»… bem presentes, embora estejamos a recordar acontecimentos de há 50 anos ou mais. Nesses tempos, a minha mãe, a D. Preciosa (penso que seria ainda a única cabeleireira no concelho), teve as primeiras participações nos carnavais de Almeirim a pentear e maquilhar de forma artística as folionas de então. Lembro-me de a ver pentear e maquilhar a Cleópatra, as participantes dos carros alegóricos do ELA – Externato Liceal de Almeirim e muitas outras. Tomou, entretanto, conhecimento da arte de fazer flores de papel, que mais tarde foram a base da decoração dos seus carros”, descreve José Carlos Silva.

Sobre a importância que teve a D. Preciosa nos carnavais de Almeirim, o filho contou que foi algo que começou nos anos 70 e 80, mas que também já vinha de trás: “A minha mãe sempre disse que antes da D. Preciosa já vários Almeirinenses com muito valor, determinação e muita habilidade tinham feito e continuaram a fazer autênticas obras de arte. E também quero recordar duas Senhoras que nunca esquecerei, que acompanharam a minha mãe em todos estes e noutros momentos lúdicos e a quem atribuo igual importância: A D. Gabriela Minderico e a D. Graziela Pina. As três trouxeram um novo conceito de arte, beleza e juventude.

Preciso: Gabriela (ao centro) e Graziela (à esquerda) trabalharam sempre com crianças, adolescentes e jovens. “Muito papel, muita cor e muita beleza. Organizaram vários grupos de majoretes; construíram carros lindíssimos com ideias retiradas dos livros da “Anita” e de livros infantis: a corte romana guardada pelos seus exércitos; os soldadinhos de chumbo com dois canhões que disparavam flores; um bule de chá gigante com 6 chávenas dançarinas e muitos outros temas, todos decorados com milhares de flores de papel. Os trajes, a rigor, eram obras de arte. Recordo muito bem, porque eu e um amigo de sempre, o Edmundo Teodósio, dono da empresa Robrofrio, tínhamos que construir e pôr em prática as ideias daquelas 3 Senhoras… com rigor… sem inventar ou facilitar!”, conta o filho. O agora presidente do CRIAL sublinha também que, sobre as escolas de samba e atrizes brasileiras que marcaram os últimos carnavais, a escolha não era do agrado de todos. “Muitas pessoas da época discordavam! Eu sempre entendi as razões que levaram as organizações do corso carnavalesco a alugarem ou comprarem carros já feitos, a contratarem estrangeiros, “escolas de samba” de Portugal, fanfarras, etc… Todos sabemos como é atrativo e como capta público forasteiro… Não faço juízos de valor… se foi melhor ou pior… apenas que deixou de ser genuinamente Almeirinense!”

Com o fim do carnaval, e apesar de já doente, os principais rostos do Carnaval de Almeirim sofreram um pouco: “A Dona Preciosa, a Dona Gabriela e a Dona Graziela sentiram, tal como eu ainda sinto, uma sensação de injustiça. Não que se julgassem melhores que alguém, mas pela desigualdade do tratamento dado a quem era de fora e vinha a Almeirim só nesse dia, nesse momento, e ao que era atribuído a quem cá esteve sempre para o melhor e o pior – e Almeirim tinha e tem o Melhor. O último carnaval em que D. Preciosa participou foi no último Carnaval de Almeirim e com várias gerações de crianças e jovens, até aos anos 1994/95, a ajudar com ideias, trajes e materiais que ainda possuía. Já muito doente, às escondidas, ainda passava noites a trabalhar os materiais para as decorações.

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